Ryan Murphy sempre trouxe bastante representatividade para as produções que comandava, fosse de um modo mais fabulesco, como em Glee, fosse acrescentando elementos de terror, como em American Horror Story. Mas nada se compara à importância estética e narrativa de Pose, uma das obras televisivas mais aclamadas do século e uma das mais originais, sem sombra de dúvida. Na série, Murphy nos transporta de volta para a emergente cultura dos ballrooms e do voguing dos anos 1980 e 1990, apresentando o público ao maior elenco transgênero a já ocupar um serviço mainstream em complexos arcos narrativos e uma ode de solidariedade a uma comunidade que sofre diariamente com parcos prospectos de vida e preconceito infundado.

Em 2021, o showrunner, que mais uma vez retomou trabalho com Brad Falchuk e chamou a ajuda de Steven Canals, anunciou que a terceira temporada seria a última da saga, para a infelicidade dos fãs. Não é surpresa que boa parte daqueles que vinham acompanhando a saga de Blanca, Elektra, Pray Tell e tantos outros estivessem animados para a vindoura estreia dos novos episódios – e tanta espera valeu a pena: os dois primeiros capítulos dessa emocionante ano de conclusão já começam com um soco no estômago ao trazer um evocativo e nostálgico glamour aliado a temas de extrema importância, desde vício em drogas até o errôneo entendimento do que realmente era a epidemia de HIV/AIDS nos Estados Unidos – discussões que existem até hoje e que servem para entendermos tanto o trágico histórico dos LGBTQIA+ quanto a luta pela igualdade de direitos.

A princípio, tinha-se uma visão bastante clara de onde o protagonismo estaria: em Blanca Rodriguez-Evangelista (Mj Rodriguez) e em suas andanças pelas ruas de Nova York como uma mulher trans que buscava fundar a própria casa. Depois de recrutar meninos de rua que foram expulsos de casa e aliar-se a amigas de longa data, Blanca emergiu como uma forte e destemida personagem que, vivendo com o mortal vírus da época, percebeu que a vida era muito mais do que se esconder nos becos escuros da cidade grande e se render ao medo: a vida é uma celebração de tudo de bom que existe – e deve ser explorado ao lado das pessoas que amamos.



Talvez por esse motivo a estreia da terceira temporada venha com uma sensação agridoce, nos levando de volta para essa expoente e vibrante cultura que servia como escape e como movimento de resistência para uma minoria assassinada diariamente. E, no centro dessa beleza, mentiras que abalam as fortes estruturas de uma família fundada por escolha, não por laços sanguíneos – como o fato de Pray Tell (Billy Porter) estar se rendendo dia a dia ao alcoolismo, sem perspectiva de continuar seguindo em frente ao ver que todos os seus conhecidos estão lhe dando adeus.

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Nem tudo são catástrofes; aliás, o roteiro supervisionado por Canals e trazendo nomes como Janet Mock e Our Lady J para auxiliarem-no, deixa isso bem claro. O cotidiano é movido por altos e baixos e, dessa forma, nossos personagens também seriam. O relacionamento outrora complicado de Blanca e Elektra (Dominique Jackson) amadurece em níveis assustadores e une a ousadia de duas powerhouses para conseguirem o que bem entenderem, seja a compreensão acerca da situação de Pray Tell, seja os prêmios dos bailes noturnos que a tirariam da aposentadoria e reclamariam por um trono que lhes pertence por direito. É aqui que outras subtramas ganham forma, ainda mais quando infundidas com o recém-acrescentada imodéstia predatória de Lemar Khan (Jason A. Rodriguez), que representa a potência diabólica de uma geração que não tem qualquer respeito pelo passado.

A iteração se beneficia principalmente por servir como ponte entre os dias de outrora e um futuro que aponta para o momento em que vivemos. Ambientada agora em 1994, quase um ano mais tarde dos episódios anteriores, é notável de que forma os protagonistas compreendem os erros que cometeram no passado e desejam crescer, por mais que a verdade doa. É nesse quesito que Rodriguez e Jackson roubam todas as cenas em performances que oscilam entre a comédia e a tragédia com simplicidade e naturalidade cativantes. A química que as duas compartilham nas cenas é auxiliada pela atuação aplaudível de Indya Moore como Angel, que recai nas drogas mais uma vez; Hailie Sahar como Lulu, que mergulha de cabeça em uma ascensão e queda que deve ser mais explorada nos capítulos seguintes; e Angel Bismark Curiel como Lil Papi, que conseguiu um trabalho digno e nutre de um amor incondicional por Angel.



POSE — Season 3, Episode 1 — Pictured: Mj Rodriguez as Blanca, Billy Porter as Pray Tell, Angel Bismark Curiel as Lil Papi. CR: Eric Liebowitz/FX

É admirável o modo como Murphy articula cada um dos aspectos de modo a fugir ou tentar fugir das obviedades cênicas. É claro que lidamos com uma espécie de dramatização documental de pessoas reais, ainda mais considerando que a série funciona como uma extensão do emblemático Paris Is Burning; mas a fusão entre altos e baixos é o que fornece o dinamismo necessário para ficarmos grudados nas telinhas do começo ao fim, procurando descobrir o que vai acontecer. Eventualmente, algumas peças fora do lugar esbarram na epifania frenética, mas nada que não seja apenas um tropeço.

Pose retorna com força após um longo tempo sem nos agraciar com enredos potentes e um elenco de ponta. Abrindo do modo mais espetacular possível, o novo ano pretende unir o melhor das incursões anteriores para um grand finale digno de uma das maiores séries da atualidade.

A nova temporada já está disponível no Star+.

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