Primeiras Impressões | ‘Mare of Easttown’, nova minissérie da HBO, se beneficia da impecável atuação de Kate Winslet

Cuidado: spoilers do primeiro episódio à frente.

Kate Winslet não é apenas um dos nomes mais conhecidos da atualidade, como também é uma das melhores atrizes de sua geração. Conhecida por inúmeros papéis icônicos, incluindo Rose DeWitt em ‘Titanic’, Clementine em ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’ e Hanna Schmitz em ‘O Leitor’ (performance pela qual levou o Oscar de Melhor Atriz para casa), Winslet não apenas alcançou sucesso imensurável nas telonas, mas também emprestou sua versatilidade para a televisão – fosse como Mildred Pierce na série homônima do começo da década passada, fosse a Sra. Fillyjock na animação ‘Moominvalley’. Agora, anos depois de sua última aparição em uma produção live-action, a atriz está de volta com mais uma rendição incrível na pungente minissérie Mare of Easttown.

A obra, supervisionada pela HBO, já é interessante por, mais uma vez, apostar no gênero do drama criminal – dessa vez, nos levando à pequena cidade da Pensilvânia que empresta seu nome ao título. No centro desse melancólico e controverso vilarejo, Winslet insurge como Mare Sheehan, uma detetive sem papas na língua cujo principal objetivo é manter a ordem entre os seus vizinhos e, caso nada de errado aconteça, voltar para a casa que divide com a mãe (Jean Smart), com a filha (Angourie Rice) e com o neto, que passou aos seus cuidados após a aparente morte do filho mais velho, que lhe aparece em momentos mais catárticos e reveladores. Outrora uma famosa jogadora de basquete no colégio local, Mare é conhecida por todos e parece se arrastar para enfrentar os inúmeros problemas de todo dia.

A verdade é que a personagem é a encarnação clássica da anti-heroína literária, não por sua índole oscilante, e sim pelo jeito como se comporta perante os outros. Afastando-se do maniqueísmo datado entre a “mocinha” e a “vilã”, ela é um equilíbrio caótico entre os dois e, apesar de amar incondicionalmente sua família, não consegue deixar que certos problemas – como a desaprovação constante da mãe, a qual acolheu sob seu teto, e a personalidade gritante de Siobhan, a filha – impactem na engrenagem que construiu arduamente para viver dia após dia. Ela é apaixonada pelo trabalho – ou ao menos mente bem o suficiente para que acreditemos nisso; mesmo assim, sente-se presa em Easttown e, rendendo-se a uma perspectiva derrotista, perde as esperanças de algum momento deixá-la para trás. É por esse motivo que canaliza todas os sonhos frustrados para Siobhan, desejando que ela passe em uma faculdade e seja bem-sucedida o mais longe possível dali.

A pitoresca construção da cidade nos lembra vagamente de outras produções similares, como ‘Big Little Lies’ e ‘Home Before Dark’ – o que, por um lado, auxilia no processo de familiaridade com o público, e, por outro, deixa de apostar na originalidade. De fato, a performance irretocável de Winslet e todo o elenco é o suficiente para nos querer descobrir o que acontecerá nos próximos episódios, deixando os deslizes essencialmente para as aspirações artísticas: a paleta de cores restringe-se a um circunspecto azulado do inverno, enquanto os jogos de câmera são resquícios do constante apreço pelos dramas seriados e pelo suspense teatralizado, assemelhando-se a qualquer outra peça audiovisual que você consiga pensar.

No final das contas, é o roteiro plurinarrativo de Brad Ingelsby que permite a série alcançar a estrelas: Mare é o centro de uma intrincada máquina sociológica que parece não ver o que está à sua frente e, ao mesmo tempo, sofre com um caso que não conseguiu resolver – o desaparecimento de uma garota há um ano que ainda demonstra sequelas numa adoecida mãe e na busca por uma justiça que, de fato, nunca acontecerá. Porém, a personagem de Winslet não é a única a roubar os holofotes: temos também a presença virtuosa de Cailee Spaeny como Erin McMenamin, uma jovem mãe que vive às custas de um pai bêbado e é obrigada a aguentar as birras de um ex-namorado que a engravidou e não se importa com nada do que acontece a ela ou ao filho. Abandonada por aqueles que considerava serem seus amigos, Erin torna-se o mistério principal quando, ao final do episódio piloto, aparece morta no riacho que cruza a cidade.

É necessário dizer que o início da série é um tanto quanto comedido – e pode até mesmo cair no desgosto de certa parte dos telespectadores. Por enquanto, não há confirmação do que esperar os próximos capítulos, mas cada detalhe impresso no enredo é de importância, ao menos, para conhecermos as várias tramas e subtramas que unem forças por algo maior. Não é surpresa que Mare esteja em contato com cada coadjuvante dê as caras ao longo da iteração, compreendendo que a aplicação da lei não é preto-no-branco e tão fácil quanto se imagina – mas sim um constante estudo de caso que deve ser analisado em sua completude (como faz com o embate entre dois irmãos e até mesmo ao investigar um suposto homem que fica observando a casa de sua vizinha).

Mare of Easttown tem tudo para ser mais uma grande produção da HBO e, mesmo caminhando a passos curtos, já preparou o terreno para o que pode se transformar em um dos grandes mistérios do ano. E, caso a premissa não tenha te instigado, recomendo que confira a iminente estreia da série pela espetacular e majestosa atuação de Winslet.

Notícias

As MELHORES Animações do Ano (Até Agora)

Estamos nos aproximando do fim da primeira metade de...

‘Barbie’ vai ganhar um NOVO filme!

Chris Meledandri, CEO da Illumination, comentou recentemente sobre os...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.