Reese Witherspoon e Kerry Washington são dois nomes da indústria do entretenimento que despontaram nos holofotes nas últimas décadas por encarnarem personagens memoráveis e pavimentarem um caminho sólido o bastante para caírem nas graças do público e mostrarem sua versatilidade performática. Witherspoon, outrora restrita a comédias como Legalmente Loira e E se Fosse Verdade, levou para casa o Oscar por Johnny & June e rendeu-se a papéis aplaudíveis em Big Little Lies, Livre e The Morning Show; Washington, por sua vez, fez uma breve aparição em Quarteto Fantástico para depois estrelar o aclamado drama Scandal, além de ter atuado em Django Livre, American Son e Confirmation. E, agora, duas forças descomunais se unem para o novo vício do Hulu, intitulado Pequenos Incêndios por Toda Parte.

Baseado no romance homônimo de Celeste Ng, a história gira em torno de duas protagonistas: uma delas é a socialite Elena Richardson (Witherspoon) que acaba cruzando com uma misteriosa mãe solteira e artista chamada Mia Warren (Washington) – dando início a um confronto de identidades que beira a explosão logo nos primeiros episódios. À medida que a narrativa vai se desenrolando, a plataforma de streaming prova que escolheu a dedo um dos melhores suspenses dramáticos dos últimos anos, entregando ao público três capítulos de uma saga enervante e narcótica por praticamente todos os motivos certos que ousa nos mostrar (desde seu elenco de ponta até sua competente e bem estruturada direção).

De fato, os grandes méritos são canalizados para o roteiro e para os personagens trazidos às telinhas. Mais do que isso, fica claro que o time criativo da produção mergulha de cabeça nos grandes manuais televisivos, arquitetando uma jornada palpável, apesar de formulaica; logo, o piloto é destinado a nos apresentar às personas que habitam a pequena e regrada cidade de Shaker Heights, Ohio, fazendo questão de mostrar suas gritantes diferenças. De um lado, Elena é uma poderosa e centrada mulher extremamente controladora que não aceita ser desafiada e sente que seu mundo irá desmoronar quando confrontada por um obstáculo intransponível – como a delineação rebelde de sua filha mais nova, Izzy (Megan Stott). Witherspoon até mesmo busca elementos explorados com Madeleine ou Bradley, mas aproveita para acrescentar alguns elementos interessantes que a transformam numa “descontruída” figura com complexo de cavaleiro branco.

O conflito principal emerge quando ela é colocada lado a lado com a impetuosa Mia, que é vista por Elena morando um carro com a filha, Pearl (Lexi Underwood). Entretanto, no momento em que partem para encontrar uma casa temporária nos arredores, são atendidas pela socialite (que é a dona da propriedade) e então começam a desenvolver um conturbado relacionamento que gradativamente se distorce em uma complexa inimizade. Afinal, fica claro que Mia não deseja caridade ou ajuda de pessoas que não conhece, ainda mais devido ao não revelado trauma que sofreu no passado; a necessidade de se autoafirmar como uma trabalhadora autônoma está relacionada com sua raça e as dificuldade que enfrenta até hoje, recusando-se a se tornar uma boneca ou num projeto social de pura egolatria. O problema é quando sua personalidade insiste em transmitir as frustrações para Pearl, cultivando na jovem um barril de pólvora em longo prazo.

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Entre seus arcos pessoais, há um panorama infundido com mistério que circundam as pessoas e que culminam num incêndio criminoso que acomete o casarão de Elena. A princípio, somos levados a acreditar que Mia tem alguma coisa a ver com isso, mas o roteiro abre diversos caminhos que revelam um pequeno elemento comum a quem convive com a personagem de Witherspoon: cada um nutre de um ressentimento, por mais mínimo que seja, com a disciplina excessiva, com a capacidade irrevogável de influência que os transforma em marionetes contra a própria vontade – e, de alguma forma, não conseguem sair de suas condições. Na mesma medida, Elena não percebe que faz isso (o que explica seu malogro ilusório quando as coisas não saem como o planejado).

A showrunner Liz Tigelaar não se preocupou apenas com o enredo construído; na verdade, participando como uma das produtoras executivas, ela trouxe seu respaldo televisivo (visto em obras como Once Upon a Time e Nashville) e realizou homenagens para lendas da esfera audiovisual, acenando para nomes como Jean-Marc Vallée  no tocante à desfiguração cênica e à montagem quase cubista – é notável, inclusive, como os diretores ousam se afastar do novelismo seriado presente com tanta força em dramas. Mesmo assim, Tigelaar opta por jogar, em grande parte, na zona de conforto, arriscando em outros espectros como a necessária temática racial, sexual e de gênero que inclusive ganha mais densidade quando em comparação ao livro original.


‘Pequenos Incêndios por Todo Lugar’ tem um glorioso início que arranca algumas das melhores atuações de seu elenco, não se esquecendo de garantir que todos tenham seu momento. Mesmo num ritmo menos acelerado e mais intimista, é imprescindível que as nuances reverberem mais cautela para que encontrem a aguardada catarse no momento certo.

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