Stranger Things se tornou uma das séries mais populares não apenas da década passada, mas do século, consagrando-se como um dos melhores títulos da Netflix. Ora, não é surpresa que a produção tenha caído no gosto popular e da crítica, considerando o altíssimo teor artístico-narrativo do show – cuja narrativa é centrada na pequena cidade de Hawkins, Indiana, e em eventos sobrenaturais assustadores que colocam a vida de seus morados em perigo constante.

Entretanto, o aspecto que mais nos chamou a atenção foi a química do elenco-mirim (que agora não é tão mirim assim), formado essencialmente por Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin e Noah Schnapp. Agora, três anos depois dos catastróficos eventos da 3ª temporada, estamos de volta com um novo ciclo ambicioso e de tirar o fôlego.

Para aqueles que não se recordam, a iteração predecessora chegou ao fim com algumas tristes despedidas e uma gigantesca batalha contra os seres do Mundo Invertido, permitindo que cada um dos personagens mergulhasse em um arco de amadurecimento compulsório que daria o tom dos episódios futuros.

Com tantas mudanças acontecendo, Eleven (Brown), Will (Schnapp) e Joyce (Winona Ryder) deixaram Hawkins e se mudaram para a Califórnia, abandonando os traumas e as perdas e tentando recomeçar em meio a um prospecto quase inexistente. Entretanto, as coisas não são tão fáceis como imaginam e Eleven se vê presa em uma espiral de readaptação e realocação que a transforma numa espécie de pária – e nem mesmo a ajuda de Will, de Joyce ou de seu contínuo relacionamento com Mike (Wolfhard) consegue ofuscar os obstáculos que enfrenta no colégio.



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Por incrível que pareça, não é a narrativa envolvendo Eleven que rouba os holofotes – e sim os arrepiantes eventos que insistem em retornar como um vírus para Hawkins. E, se você acha que os nossos heróis enfrentaram o pior com o Demogórgon, coloque suas esperanças de lado e prepare-se para lidar com uma criatura monstruosa que está coletando diversas vítimas, uma criatura desfigurada que utiliza os medos e os segredos das pessoas contra elas para sugar sua vitalidade de maneira cruel.

Tais acontecimentos exigem que Dustin (Matarazzo), Max (Sadie Sink), Robin (Maya Hawke), Eddie (Joseph Quinn) e Steve (Joe Keery) unam forças para descobrir com detalhes a nova ameaça que se impõe sobre a cidade e que vem destilando seu reino de caos.

Nessa primeira parte da quarta temporada, notamos como os Irmãos Duffer, que criaram o show, levam o tempo necessário para que cada engrenagem se encaixe com perfeição a outra, construindo sequências que sejam de exímia importância para os espectadores juntarem os pontos e se envolverem, episódio a episódio, com uma épica batalha que se aproxima.


Logo, é apenas de se esperar que os capítulos tenham uma duração maior e se desenrolem com um ritmo menos frenético que os de outrora, mas com uma carga emocional e dramática muito maior que reflete o amadurecimento dos personagens e a compreensão de que a vida é um carrossel de dificuldades que precisam ser enfrentadas – e o mais interessante é como essas pulsões reflexivas são guiadas pela magia e pelo fantástico.

O novo ciclo parte de uma premissa bem estruturada que se baseia nas relações de causa e consequência: o inimigo que surge nas sombras e que se esconde no Mundo Invertido parece como uma culminação das aventuras que Eleven, Mike e os outros encararam no passado. A evolução imagética e técnica da série é admirável e, por mais que tenha lidado com alguns deslizes no meio do caminho (é só nos recordarmos da desequilibrada arquitetura da 2ª temporada), foram esses erros que permitiram uma transição fluida e consistente para uma espécie de metáfora que separa a infância da adolescência e da vida adulta; nesse momento, as jovens crianças que encarnavam as fantasias dos Caça-Fantasmas deixam de lado a ingenuidade e a pureza para se envolverem com algo mais perigoso e mortal que prenuncia uma ruína completa.

A própria escolha imagética já revela o que esperar do futuro da produção: os Irmãos Duffer, aliados a um competente time criativo, optam por aspectos minuciosos que exalam uma preocupação sólida com a experiência que Stranger Things promove, quase exumando o classicismo da paleta de cores e do contraste entre a razão e a emoção, além de impregnar as cenas com uma simetria propositalmente repetitiva que também entra em conflito com as tramas e subtramas exibidas. Não há preciosismo aqui; a ideia é garantir que os arcos e a condução nos convidem a desvendar esse mistério horripilante, permitindo que os laços com o público sejam reatados e reiterados do começo ao fim. Como se não bastasse, os temas trazidos às telinhas incitam discussões sobre depressão, solidão, bullying, complexidade dos relacionamentos e até martirização social – amalgamados em uma explosão deslumbrante de sensações.


Stranger Things retorna à Netflix com toda sua glória e permanece nos encantando com reviravoltas surpreendentes, atuações magníficas e um senso de exploração nostálgico e ao mesmo tempo original que reafirma seu status como uma das grandes produções da atualidade.

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