Primeiras Impressões | ‘Why Women Kill’ é o reencontro de Marc Cherry com as dramédias familiares

Primeiras Impressões | ‘Why Women Kill’ é o reencontro de Marc Cherry com as dramédias familiares

Nota:


Marc Cherry ganhou uma notoriedade considerável ao dar vida a uma das dramédias mais icônicas e premiadas da televisão contemporânea: Desperate Housewives. Depois do término da produção ainda em 2012, levou algum tempo até que o showrunner e roteirista encontrasse outro projeto que nos chamasse a atenção – e, neste ano, Cherry roubou nossas atenções mais uma vez ao anunciar mais uma comédia familiar intitulada Why Women Kill (‘Por que as Mulheres Matam’, em tradução livre). E o resultado, ainda que não tenha o mesmo respiro de originalidade ou envolvência que suas investidas anteriores, é digna de sua filmografia e certamente irá conversar com os fãs de longa data.

Cherry busca mais uma vez se afastar da estruturação convencional das obras atuais e já abre o piloto com um interessante e intrigante comentário de três dos personagens principais acerca de suas respectivas esposas. Entretanto, não é até a cena de abertura que somos engolfados por uma ambientação dividida em três partes e que une em um delicioso dinamismo o trio de heroínas principal: Beth Ann (Ginnifer Goodwin), uma dona de casa nos anos 1960 que aparentemente tem uma vida perfeita; Simone (Lucy Liu), uma socialite oitentista no auge de sua ostentação; e Taylor (Kirby Howell-Baptiste), uma advogada bissexual ativista que tem um casamento aberto ao lado do recatado Eli (Reid Scott).

Três linhas narrativas, três décadas completamente diferentes – e é impressionante observar o modo como o criador consegue entrelaçar essas múltiplas tramas em uma mesma ambiência, respaldando sua ousada premissa utilizando um grandioso cenário compartilhado pelas protagonistas. Entretanto, quando assistimos a uma peça visual de Cherry, sabemos que nada é o que parece ser, e as vidas dessas mulheres viram de cabeça para baixo em um piscar de olhos: Beth descobre da forma mais degradante possível que seu marido está tendo um caso com uma garçonete desconhecida; Simone é chantageada por uma amiga próxima que quer destruir a reputação de seu casamento; e Taylor parece não perceber que Eli está prestes a ter uma das provações mais desafiadoras de sua vida.

Não é surpresa que o showrunner opte por essas histórias. Os contos suburbanos sempre estiveram presente em sua habilidade artística e é claro que ele traria alguns elementos já vistos em outras investidas para uma nova “aventura”, por assim dizer – seguindo as conveniências e uma zona restrita que insurge com cada uma das épocas. As personalidades podem parecer controversas entre si, mas são unidas em mentiras sutis ou escancaradas, todas respaldadas em ácidas quebras de expectativa que fornecem dinamismo para o seriado.

O roteiro encontra um delicioso território para explorar ao longo dos pouco mais de quarenta e cinco minutos, mas não explora o potencial que promete – pelo menos não por enquanto. A trama tangencia o choque proposital, quase um pedantismo cênico que é drenado antes de transbordar: os arcos se baseiam em tabus de época, misturando ingredientes de gêneros diferentes para passar uma certa mensagem. Beth Ann lida com infidelidade, enquanto Simone luta para que fotos comprometedoras de seu marido com um amante não vazem para os vizinhos (lembrando que homossexualidade era algo bastante condenável algumas décadas atrás). Em outro espectro, as questões de gênero, sexualidade e poliamor encontram palanque contínuo e puxam algo também sobre traição ou desconfiança, cuja culminação pode (ou não) ser uma virada trágica.

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Com exceção de alguns aspectos fragmentários que lutam para se esconder em meio a um espetáculo imagético, o episódio é bastante promissor e indica uma das jornadas mais divertidas dos últimos anos. Como se não bastasse, Cherry e seu time criativo encontram mais uma vez um lugar propício para explorar não apenas um bom conto ácido de tour-de-force, mas pela escolha certeira de perspectivas estéticas aplaudíveis: a paleta de cores vibrante dos anos 1980 (principalmente das roupas glamorosas e chamativas dos personagens) entra em belíssima contradição com os tons pastéis do classicismo de meio de século e com a sobriedade acinzentada da geração millenial.

Eventualmente, essas mulheres descobrem que a busca pela independência pode vir com um custo – um custo tão grande quanto resolver destinar toda sua vida a uma única pessoa. As relações de subserviência e amadurecimento movem as tramas apresentadas, cada qual pincelada com escapes cômicos hilários e canalizados em um elenco de ponta. Goodwin se rende a um melodrama proposital que recupera o brilho do controle na resolução do terceiro ato, enquanto Liu detém alguns dos diálogos mais engraçados da iteração; Howell-Baptiste parece não ter encontrado sua voz, apesar da química que exala ao lado de Scott, cuja performance rouba o foco mais de uma vez. E é claro que a presença de coadjuvantes como Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Leo Howard e Jack Davenport não seria desperdiçada – nos fazendo esperar que suas personas ganhem mais foco ainda.

O primeiro capítulo de Why Women Kill é exatamente o que esperaríamos de uma obra de Marc Cherry. Seu soberbo comando na cadeira de direção é o suficiente para ofuscar certos deslizes, além de preconizar algumas lapidações necessárias que, quando ajustadas, irão aumentar nossa envolvência com a série. Mas, por enquanto, as coisas estão boas o suficiente – inclusive pelo tom de suspense imprimido nos segundos finais.



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