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‘Rápida e Mortal’ (1995) faz sucesso na Netflix – Relembre o western com Leonardo DiCaprio e Sharon Stone que completa 30 anos


Imagine um faroeste onde a pistoleira misteriosa é uma mulher. Onde duelos acontecem num estilo quase de histórias em quadrinhos: com buracos perfeitos no corpo humano após serem atravessados por uma bala, ou sombras longas que atravessam a rua. Tudo é propositalmente exagerado: tiroteios acrobáticos, closes dramáticos e vilões com risadas malignas. Essa era a proposta ousada — e incrivelmente divertida — de ‘Rápida e Mortal, lançado em 1995, em meio à ressaca criativa do gênero western. O filme completa 30 anos de sua estreia e está atualmente no acervo da Netflix, onde está fazendo enorme sucesso com os fãs e com a nova geração que nunca tinha ouvido falar.

A ideia para o longa nasceu de um roteiro original escrito por Simon Moore, que queria misturar o estilo clássico dos faroestes de Sergio Leone com uma abordagem mais moderna e estilizada. A premissa era simples, mas com um charme próprio: uma mulher sem nome, cheia de cicatrizes do passado, entra em uma cidade dominada por um tirano e participa de um torneio de duelos para se vingar. Soa familiar? É porque sim: Moore queria homenagear os spaghetti westerns, mas com um toque feminino e um ritmo noventista.



A grande responsável por tirar esse filme do papel foi Sharon Stone. Isso mesmo: além de protagonizar o longa, ela atuou como produtora executiva, bancando a ideia de um faroeste com uma mulher no centro da trama — algo incomum nos anos 1990. Ela acreditava na história e mais ainda no nome que escolheu para dirigir a obra: Sam Raimi.

Sim, Sam Raimi. O mesmo que, até então, era mais conhecido por dirigir a trilogia de horror ‘Evil Dead‘. Raimi foi escolhido justamente por seu estilo visual hiperativo, seus zooms dramáticos e seu amor por cenas absurdamente cartunescas. Vale lembrar que no início dos anos 90, o diretor fez sucesso com um filme que todos juram ser baseado em quadrinhos, mas que na verdade trata-se de uma ideia original. Me refiro a ‘Darkman – A Vingança sem Rosto‘. Assim, Stone bancou a escolha com unhas e dentes, e o estúdio — depois de engolir seco — topou. O resultado? Um faroeste com ares de HQ, onde cada bala parece ter alma própria.

A produção foi bancada pela TriStar Pictures, com Chuck Binder e Allen Shapiro como produtores principais, mas não restam dúvidas: a verdadeira xerife do set foi Sharon Stone. Nada que a moral adquirida após um dos maiores sucessos dos anos 90 não faça. Stone era “a” estrela de Hollywood na época.

Além de Sharon Stone em sua fase pós-Instinto Selvagem, o elenco de ‘Rápida e Mortal é um verdadeiro arsenal de estrelas — algumas ainda em ascensão. Para começar, temos o saudoso Gene Hackman (que dispensa apresentações), vivendo o vilão Herod, um tirano sem coração e pistoleiro imbatível. Hackman é daqueles que rouba a cena até fazendo silêncio, e aqui ele se diverte sendo o mal encarnado, com um brilho sádico nos olhos. Àquela altura, o astro colecionava sucessos como o policial ‘Operação França‘, além de ter sido o vilão Lex Luthor de ‘Superman‘ por três filmes. Mais importante ainda, Hackman havia acabado de ganhar um Oscar pelo faroeste ‘Os Imperdoáveis‘, no qual vivia o antagonista.

Temos também um jovem e ainda relativamente desconhecido Leonardo DiCaprio, interpretando o impulsivo e carismático Kid. DiCaprio foi escolhido a dedo por Stone, que até tirou dinheiro do bolso para garantir sua escalação quando o estúdio não queria pagar seu cachê. O jovem ator já havia chamado atenção dois anos antes nos dramas ‘O Despertar de um Homem‘ e ‘Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador‘, e no mesmo ano teria o divisor de águas com ‘Diário de um Adolescente‘. A estrela vendo potencial no rapaz, apostou suas fichas, e deu muito certo.

E como se não bastasse, surge um Russell Crowe ainda em início de carreira hollywoodiana, no papel do ex-pistoleiro e agora pastor Cort. Um homem que jurou nunca mais atirar, mas acaba sendo arrastado de volta para a arena, com toda a dramaticidade que só um bom faroeste pode oferecer. No mesmo ano o ator australiano apareceria ao lado de Denzel Washington, na ficção científica ‘Assassino Virtual‘. Mas seu grande destaque chegaria mais para o fim da década com os filmes ‘Los Angeles – Cidade Proibida‘, ‘O Informante‘ e, claro, ‘Gladiador‘, no início dos anos 2000.

No elenco de apoio, rostos conhecidos como Lance Henriksen, Keith David, Gary Sinise (em flashbacks) e até o eterno “dublê de ator” Bruce Campbell em uma cena cortada (mas incluída nos extras do DVD!).

A história de ‘Rápida e Mortal se passa na fictícia cidade de Redemption — nome mais simbólico impossível. A chegada de uma mulher misteriosa, conhecida apenas como A Estranha (Stone), chama atenção dos moradores e do tirano local, Herod. Todos os anos, Herod promove um torneio mortal de duelos, onde quem perde… morre. Literalmente.

A pistoleira entra na competição por motivos que, a princípio, não ficam claros. Mas logo percebemos que ela carrega uma vingança antiga — e pessoal — contra Herod. Enquanto o torneio avança, acompanhamos uma série de duelos que variam entre o cômico, o trágico e o absurdo, sempre filmados com muito estilo.

Com cortes rápidos, câmeras em ângulos inusitados, e balas que perfuram sombras, olhos e até relógios de sol, o filme entrega cenas antológicas. A tensão cresce a cada round, e o clímax — onde o passado vem à tona e o acerto de contas acontece — é um verdadeiro bangue-bangue cinematográfico.

Quando foi lançado, em fevereiro de 1995, ‘Rápida e Mortal dividiu a crítica como se fosse uma bala no meio de um espelho. Alguns amaram o estilo excêntrico e a ousadia da trama. Outros acharam tudo exagerado, caricato e sem profundidade. Muitos críticos elogiaram a performance de Hackman e a coragem de Sharon Stone ao assumir um papel tipicamente masculino num gênero tão tradicional. Também houve destaque para a direção inventiva de Raimi, que transformou o faroeste em um espetáculo quase sobrenatural.

Por outro lado, alguns sentiram que o filme era “mais estilo do que substância”. O público também ficou dividido — os fãs de faroeste clássico estranharam o tom quase fantasioso, e os jovens da época talvez não estivessem tão interessados em duelos no pôr do sol. No Rotten Tomatoes, o filme mantém hoje uma avaliação morna, mas respeitável — reflexo da relação de amor e confusão que ele provocou na época.

Infelizmente, ‘Rápida e Mortal não foi um sucesso de bilheteria. Para termos uma ideia, em seu fim de semana de estreia, no dia 10 de fevereiro de 1995, o longa, apesar do elenco renomado, não conseguiu sequer pegar a primeira posição do ranking nas bilheterias. Seu lançamento ocorreu em segunda posição, abaixo da comédia escrachada ‘Billy Madison – Um Herdeiro Bobalhão‘, estrelado por Adam Sandler. ‘Rápida e Mortal‘ arrecadou apenas US$6.5 milhões em seu primeiro fim de semana. Com um orçamento estimado em US$35 milhões, o filme arrecadou cerca de US$18 milhões ao total nos Estados Unidos, sendo considerado um fracasso comercial.

Na época, isso foi visto como um duro golpe para Sharon Stone, que vinha embalada pelo sucesso de ‘Instinto Selvagem e ‘Cassino‘, de Martin Scorsese, pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar. Também esfriou momentaneamente os planos de Sam Raimi de dirigir grandes blockbusters — algo que só aconteceria anos depois, com a trilogia ‘Homem-Aranha.

Ainda assim, o filme encontrou vida longa no mercado de home video e, posteriormente, nos streamings. Como acontece com muitos títulos “à frente do seu tempo”, ‘Rápida e Mortal foi redescoberto aos poucos, tornando-se um cult favorito entre fãs de faroeste estilizado e cinema pop dos anos 90. Aliás, o longa entrou no top 10, nas primeiras posições, entre os mais assistidos na Netflix (o maior streaming de todos) quando caiu na plataforma.

Hoje, em pleno 2025, ‘Rápida e Mortal completa 30 anos e está sendo redescoberto por uma nova geração que cresceu vendo séries como ‘Westworld e filmes como ‘Django Livre — ambos devedores do estilo que Raimi propôs em 1995. Com sua estética ousada, protagonista feminina forte e elenco de peso, o filme passou de “fracasso curioso” para “clássico cult”.

A crítica revisitou o longa com mais carinho nos últimos anos. Muitos estudiosos do gênero apontam ‘Rápida e Mortal como um precursor da onda de faroestes contemporâneos dirigidos com personalidade. Sem falar que foi um dos primeiros filmes de faroeste dirigido por um cineasta com estilo visual próprio desde os anos 70.

Além disso, a presença de Sharon Stone como protagonista armada até os dentes abriu caminho para personagens femininas mais ativas e menos submissas em gêneros tradicionalmente masculinos. Sem ela, talvez não tivéssemos Imperator Furiosa ou Beatrix Kiddo no cinema com o mesmo impacto. E cá entre nós: assistir hoje aos primeiros passos de DiCaprio e Crowe num cenário cheio de poeira, sol e morte é um deleite à parte.

Rápida e Mortal pode ter tropeçado no início, mas cavalgou rumo à redenção. Um verdadeiro tiro certeiro… ainda que com 30 anos de atraso. Seja você fã de faroeste, de Sharon Stone, ou de balas que atravessam a câmera, este é um duelo que vale a pena revisitar.

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