Primeira mulher a se tornar primeira-ministra é ao mesmo tempo amada e odiada na história britânica

Muitos políticos ambicionam deixar seu nome gravado na história. Seja por meio de discursos efusivos ou aprovações de leis, se tornar uma referência no país e obter influência sobre as decisões políticas sempre é um objetivo oculto presente em cada campanha de eleição ou reeleição. No Reino Unido, o único a alcançar esse objetivo, mesmo após 55 anos de sua morte, foi Winston Churchill. Porém, no final dos anos 70, a líder do partido conservador conquistou o posto de primeira-ministra.

A estreia da mais recente temporada da série The Crown entrou em um período histórico no qual figuras mais conhecidas do público contemporâneo tiveram seu debute para a vida pública. Em especial dois nomes foram marcantes para a trajetória do Reino Unido em fins dos anos 70 e que fazem sua estreia no quarto ano da série: a princesa Diana Spencer e a premiê britânica Margaret Thatcher. Se a primeira é lembrada por sua doçura e gentileza, a segunda ficou marcada pela alcunha de “Dama de Ferro” até o dia de sua morte devido a forma inflexível com que fazia política. 

Margaret Thatcher ascendeu ao poder como líder do partido conservador em um cenário de crise; o índice de desemprego dobrou em seus primeiros anos residindo no nº 10 da Downing Street, estabelecendo-se na faixa dos três milhões entre 1982 e 1986. A indústria manufatureira também sofreu nos primeiros meses de governo Thatcher. Esta que é a terceira maior indústria do Reino Unido, registrou uma queda de 19.6% em 1979 e muitos postos de trabalho relacionados a esse segmento acabaram desaparecendo.



O aumento da pobreza foi um problema considerável para os ingleses no início dos anos 80

Ainda por cima, a situação geral da economia mundial não auxiliava em nada o governo britânico a sair da crise. No relatório World Economic Survey desenvolvido pela ONU para o período de 1979-1980 já apontava para uma redução no crescimento internacional do período indicado; de 4.4% em 1978 para 3.4% em 1979. O mesmo relatório põe a culpa dessa lentidão econômica geral na “conta das elevadas taxas de inflação dos produtos, nas mudanças substanciais nos balanços de conta corrente ocasionados principalmente pelo dobramento do preço do petróleo entre o fim de 1978 e os primeiros meses de 1980”. 

Como resposta a essa crise o governo optou por implementar medidas que seriam associadas à filosofia Thatcherista para sempre: corte de gastos sociais. Essas medidas foram recebidas com enorme descrença inicialmente pois tanto os conservadores quanto os trabalhistas (os dois maiores partidos) historicamente tinham na política social um acordo verbal de que esse seria um território neutro para ambos, não importando quem estivesse no poder.

Aproveite para assistir:

O governo Thatcher começou bastante criticado por justamente realizar esses tipos de cortes e por muito pouco o parlamento não lançou uma moção de desconfiança (mecânica na política inglesa que põe em dúvida a capacidade do atual Primeiro-Ministro em governar). A virada na sua popularidade só veio após o episódio da Guerra das Malvinas em 1982, quando forças argentinas tentaram ocupar as ilhas Malvinas (ou Falklands), que é território britânico ultramarino, forçando assim o governo inglês a enviar navios de guerra para o arquipélago.

A vitória militar nas Malvinas foi também uma grande vitória política

O fato da guerra ter tido uma duração curta, mortes de soldados que não ultrapassaram os mil e ter trago uma vitória em meio a um período inflacionado garantiram à Thatcher consolidar sua doutrina. No artigo How Margaret Thatcher’s Falklands gamble paid off de Simon Jenkins é apontado que justamente essa guerra foi a virada de mesa que garantiu sobrevida à premiê. “A nação bebeu fundo de uma experiência que eles não aproveitavam desde 1945: um claro triunfo militar. A vitória tirou a liderança de Thatcher da beira do colapso. Ela ganhou fama internacional, tanto nos Estados Unidos quanto na União Soviética, além de 10 pontos adicionados a sua avaliação de votos”.



No campo da economia, seu alvo primário, a redução de gastos de fato reduziu também a inflação em 5% por volta de 1983. A presença estatal em áreas diversas também sofreu grande recuo em especial na área manufatureira. Seu governo também incentivou a iniciativa privada e empreendedorismo para ocupar essas áreas; uma característica presente até os dias atuais no país.

Com a consolidação de sua popularidade veio também sua presença no meio cultural, muito pela sua posição publicamente crítica à classe artística. Enquanto que na música houveram obras que diretamente visavam atingir a Primeira-Ministra; em 1985 foi formado o movimento musical Red Wedge composto por nomes como The Smiths, Elvis Costello, Paul Weller dentre outros visando politizar os jovens para impedir a continuidade de Thatcher nas eleições gerais de 1987.

Movimento Red Wedge foi formado por artistas como resposta ao conservadorismo

Na indústria de quadrinhos, por volta de 1982, o escritor Alan Moore começou a publicação de V de Vingança, no qual, por meio de uma nota introdutória deixa transparecer a associação entre sua obra e o então governo britânico. “ …Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e fala confiante de uma liderança ininterrupta dos conservadores no próximo século… um jornal de tabloide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS… o governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques… ”.

Já no cinema, o impacto do Thatcherismo não é tão claro quanto em outras mídias. Em um trecho do livro Fires Were Started: British Cinema and Thatcherism, Lester D. Friedman indica que o cinema britânico não seguiu pelo mesmo caminho que Hollywood seguiu durante a era Reagan também nos anos 80. “ …No entanto, enquanto que no caso do cinema de Hollywood oitentista é comum argumentar que a virada à direita é detectável, o mesmo não é tão evidente no cinema britânico do período…. Portanto, enquanto que a virada à direita do cinema americano nos anos 80 tem sido associada ao renascimento da moralidade conservadora, empresarial e de temas militares, é difícil identificar uma tendência similar no cinema britânico”.

No fim, a ex-premiê se tornou uma figura ambivalente nacionalmente. Além de ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo, ela também detém o tempo notável de ocupação do mesmo; de 1979 à 1990. Amada ou odiada sua filosofia, junto com o Reaganismo, modelou a política dos anos 80 e concretizou de vez a ideologia do livre mercado.

 

COMENTÁRIOS

Não deixe de assistir: