Nem só de aventura, ficção científica e terror vivem as adaptações de filmes de sucesso para a TV. O drama também tem seu lugar. Em anos recentes vimos produções como Westworld, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado e o vindouro O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder levando suas histórias das telonas para as telinhas. É claro que o fato não é novidade, remetendo aos primórdios da televisão. A próxima a chegar planejando fazer barulho é a versão da Amazon Prime Video para Uma Equipe Muito Especial (A League of Their Own), que foi exibida em junho no Festival de Tribeca, nos EUA, e estreia seus 8 episódios a partir do dia 12 de agosto na plataforma de streaming número 2 do mundo.

O novo programa será mais inclusivo, tratando de adicionar atrizes negras ao elenco de protagonistas (como Chanté Adams e Gbemisola Ikumelo), elemento muito bem-vindo e ausente da produção original. O programa foi criado por Will Graham e Abbi Jacobson. Para entrarmos no clima desta que é uma das grandes apostas da Amazon para o segundo semestre de 2022, iremos relembrar com você onde essa história começou. E também comemorar o aniversário de 30 anos de um dos filmes de esporte mais originais e representativos do cinema: Uma Equipe Muito Especial.

Dos cinemas para a Amazon. O clássico de 30 anos ganhará uma roupagem mais diversificada com a inclusão de atrizes negras no elenco.

A trajetória de Uma Equipe Muito Especial (A League of Their Own, 1992) começou com a saudosa diretora Penny Marshall – uma das vozes femininas mais marcantes de Hollywood das décadas de 80 e 90. Famosa pelo icônico Quero Ser Grande (1988), o filme em que um menino vira adulto nas formas de Tom Hanks, a cineasta acabava de sair do sucesso dramático Tempo de Despertar (1990), com Robert De Niro e Robin Williams, indicado a três prêmios no Oscar incluindo melhor filme. Marshall então decidiu qual seria seu próximo projeto ao assistir um documentário da rede PBS sobre a Liga Profissional de Baseball Feminino. Sendo uma grande fã do esporte, a diretora decidiu que iria desenvolver um filme sobre os primórdios desta liga. Para escrever o roteiro foram contratados Lowell Ganz (Splash e O Tiro que Não Saiu Pela Culatra) e Babaloo Mendel (Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias), baseado na ideia inicial de duas mulheres, Kim Wilson e Kelly Candaele, além da própria Penny Marshall.

Uma Equipe Muito Especial não é especificamente baseado numa história real, porém, aborda um momento real histórico dos EUA, e baseia alguns de seus personagens centrais em figuras que realmente existiram. Como, por exemplo, Dottie Hinson, a protagonista vivida por Geena Davis, é inspirada na lendária jogadora Dottie Collins, que realizou muitos dos feitos mostrados no filme durante a Segunda Guerra Mundial – embora suas vidas pessoais fossem completamente diferentes. Outro que pegou inspiração de personalidades reais em sua composição foi o treinador do time feminino, o ex-atleta acabado Jimmy Dugan (papel de Tom Hanks), que é um misto dos treinadores reais do passado Jimmie Foxx e Hack Wilson.


Como dito, a trama do filme é baseada num momento histórico real, porém, com algumas liberdades criativas. Durante a Segunda Guerra Mundial, os americanos foram convocados para servir no conflito e viajavam para fora do país, atendendo às mais variadas capacidades (não necessariamente direto no campo de batalha). Isso incluía esportistas. Assim, na década de 1940, com o baseball solidificado como um dos esportes mais populares do país, assim como suas duas principais ligas (a NL – National League – e a AL – American League), todos os jogadores deixaram os campos e seguiram para a guerra. A solução foi convocar as esposas e namoradas dos jogadores para ocupar seus lugares, dando continuidade ao esporte e entretenimento ao povo num momento tão difícil para a humanidade. Assim nascia a Liga de Baseball Feminina nos EUA, esporte que só se fortificou com o passar dos anos e encontrou seu próprio espaço, assim como as mulheres de forma geral na sociedade. Neste aspecto, Uma Equipe Muito Especial é um filme feminista, que fala sobre a ascensão da mulher num universo tipicamente masculino.

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Uma Equipe Muito Especial é um filme à frente de seu tempo, e tanto nas telas quanto atrás das câmeras surge como um marco importante em Hollywood. A começar por ser uma grande produção de um dos maiores estúdios da meca do cinema, protagonizado por mulheres, onde os homens recebem os papeis coadjuvantes. E segundo, devido ao seu tema mais que digno, que homenageia mulheres importantíssimas e que foram precursoras em abrir portas para o gênero não apenas no esporte, mas também na sociedade de forma geral. O filme marcou o segundo trabalho consecutivo da estrela Geena Davis num longa com fortes tintas de empoderamento, que conseguem manter sua relevância até hoje, seguindo sua indicação ao Oscar em Thelma & Louise no ano anterior. Geena Davis corre, pega bolas, joga de verdade e inclusive fez sem dublês a cena do espacate. No entanto, Davis não era a primeira escolha para a protagonista Dottie.

A vencedora do Oscar Geena Davis brilha como a protagonista de ‘Uma Equipe Muito Especial’. Mas não era a primeira escolha.

Durante a pré-produção do filme, nomes como Brooke Shields, Laura Dern, Kelly McGillis, Ally Sheedy, Jennifer Jason Leigh e Sean Young foram cogitados ou estiveram de fato vinculados ao projeto. Demi Moore chegou muito perto de conseguir a vaga, mas precisou desistir ao se descobrir grávida (do então marido Bruce Willis). Outra que fez teste para Dottie foi uma jovem e desconhecida Marisa Tomei, que gravou sua audição em vídeo, tendo Joe Pesci como técnico, durante os intervalos das filmagens de Meu Primo Vinny, também lançado em 1992. Pelo filme, Tomei levaria o Oscar de atriz coadjuvante, mas não conseguiria o papel em Uma Equipe Muito Especial, já que segundo a diretora, “Tomei simplesmente não era uma jogadora”. E isso era especificamente o que Marshall exigia de suas atrizes, que soubessem ou aprendessem baseball. A cineasta realizou testes de baseball para duas mil atrizes, até os grandes nomes tinham que mostrar que sabiam jogar.


Depois de muito procurar, Penny Marshall finalmente decidiu por sua Dottie, nas formas de… Debra Winger! A atriz nessa época já havia sido indicada duas vezes ao Oscar (por A Força do Destino e seu filme mais famoso, Laços de Ternura) e havia impressionado a diretora com sua dedicação. Winger passou meses praticando e aprimorando sua técnica no esporte, a fim de fazer jus a esta obra de imensa importância. Num desvio do destino, porém, toda a dedicação de Debra Winger se esvaiu graças a uma contratação no elenco: a estrela da música Madonna, que tentava encontrar seu lugar nas telonas também. Madonna havia acabado de sair do sucesso Dick Tracy (1990), de Warren Beatty, quando fisgou o papel de Mae ‘All the Way’ Mordabita, a jogadora sagaz e sem papas na língua, que conquista seu lugar com a sensualidade e falta de inibição. Ou seja, basicamente a própria Madonna. A cantora parecia ter nascido para o papel, mas sua contratação foi puro jogo de marketing do estúdio.

Madonna fez a trilha sonora, mas foi o motivo da saída da atriz que iria protagonizar.

A escalação de Madonna para o papel de Mae ‘All the Way’ foi estratégica para chamar público, é claro, e viria atrelada a uma canção (‘This Used to be my Playground’), escrita e performada pela própria para ser o tema do filme. Pela música, Madonna recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. De fato, após o lançamento do filme, muitos críticos apontaram que a presença da estrela da música era uma mera distração e que não acrescentava em nada – a não ser realmente como chamariz para uma maior bilheteria. E foi exatamente isso o que pensou Debra Winger quando soube da contratação de Madonna, que o fato diminuiria a importância do filme e de sua mensagem. Segundo Winger, o estúdio estava querendo “um musical de Elvis” e não um filme sério. Desta forma, Winger desistiu do projeto e renunciou ao papel de Dottie. Logo em seguida, nos 45 do segundo tempo, Geena Davis entrava em cena, realizando sua audição no quintal da casa da diretora, e naquele momento já se eternizando como Dottie.

Outro aspecto importante em Uma Equipe Muito Especial é a relação entre as duas personagens principais, as irmãs Dottie e Kit. Jovens fazendeiras interioranas, Kit, a caçula, está sempre na sombra de sua irmãzona. E isso causa atrito entre as duas. Dottie se coloca na capacidade de protetora, mas Kit almeja seguir por conta própria e traçar sozinha seu destino. O problema é que inicialmente as conquistas de Kit estão atreladas ao valor que Dottie tem para o time. Ficando com o papel da irmã mais nova ciumenta, Lori Petty havia aparecido no sucesso Caçadores de Emoção (1991), ao lado de Keanu Reeves e Patrick Swayze, no ano anterior. Aspecto esse, da relação entre irmãs, que a nova série da Amazon deve adereçar igualmente, talvez mudando alguns dilemas.

Por falar nos dilemas que as mulheres passavam na época, estava a humilhação de precisar usar uniformes curtos com saias mostrando as pernas, a fim de despertar a atenção dos homens e por consequência encher os estádios. Fora isso, as jogadoras também eram enviadas para a “escola de Charme e Beleza de Helena Rubenstein”, onde aprendiam a se comportar com aulas de etiqueta, higiene e códigos de vestimentas. Imagine só. Precisamos enfatizar que esta era a década de 40, uma época ainda muito primitiva para os direitos e liberdade da mulher. Tópicos que deveremos encontrar também na nova série.


Como dito, a série A League of Their Own, da Amazon, promete ter mais diversidade com a inclusão de jogadoras negras. No filme não temos nenhuma. Numa cena, enquanto Dottie treina com uma colega, a bola escapa e vai parar numa parte segregada da arquibancada, destinada a “pessoas de cor” no estádio. Uma mulher negra então levanta, pega a bola e a joga de volta. A bola passa veloz por cima de Dottie e quando sua colega a pega, sua expressão é de surpresa pela força com que a mulher arremessou. Então a mulher apenas acena sua cabeça para Dottie. Essa cena foi inserida no filme para representar o fato de que mulheres negras não eram permitidas na Liga Profissional Feminina, não importando o quão boas fossem – muitas vezes melhores inclusive que as brancas. Sim, a cena é uma crítica muito pertinente.

A série da Amazon, no entanto, não é a primeira tentativa de levar Uma Equipe Muito Especial para as telinhas. No ano seguinte do lançamento do filme, em 1993, um programa de mesmo nome estreava na rede CBS, produzido pela mesma Penny Marshall (que também dirigiu um episódio). O seriado reprisou os mesmos personagens, sem qualquer envolvimento de Geena Davis, Tom Hanks, Madonna ou Lori Petty, é claro, apesar de utilizar ao menos duas atrizes do elenco coadjuvante do filme também na série. O programa, ao contrário do filme, não fez sucesso e foi cancelado após 6 episódios de sua primeira temporada. Agora é a vez da Amazon mostrar que pode fazer melhor nesse jogo e dar mais uma chance a essa história repleta de empoderamento.

Poucas semanas antes do início das filmagens de Uma Equipe Muito Especial, o filme, em junho de 1990, a Fox retirou seu financiamento para a obra. Logo depois, a Columbia (Sony) pegou o projeto e as filmagens puderam finalmente ocorrer em julho de 1991. Uma Equipe Muito Especial estreou no dia 1º de julho de 1992, e com um orçamento de US$40 milhões, retornou em bilheteria US$132 milhões, garantindo assim seu sucesso. O filme se tornou o preferido na filmografia de Tom Hanks, segundo o próprio astro. Em 2012, o longa foi selecionado para preservação nos arquivos do Registro Nacional de Cinema, da Biblioteca do Congresso dos EUA.

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