Crítica | Boi Neon

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Mascaro quebra paradigmas com um filme delicado e poderoso

Rotular ou encaixotar qualquer produto pelo seu direcionamento ou pretensão artística é uma atitude deveras indolente, isto em qualquer situação. Tanto com mídias populares quanto com as mais autorais, no fim das contas, o preconceito acaba sendo o mesmo. No circuito cinematográfico mundial, é fácil encontrar os que torcem o nariz para blockbusters e por assim àqueles que acham trabalhos independentes coisas insuportáveis. O que é curioso, já que ao conferir algo novo geralmente queremos nos surpreender com o que será contado, inerente ao formato em questão. É também no mínimo injusto que uma obra não seja vista por conta de uma ideia pré-formada.

A carreira do jovem cineasta Gabriel Mascaro está sendo justamente construída em cima de longas que tem como característica fortes traços intimistas e experimentais. Definições estas que para alguns funcionam como uma espécie de repelente. Mal sabem eles que títulos como “Doméstica” (2012) e “Ventos de Agosto” (2014), ambos comandados por Mascaro, poderiam ser comparados à arte narrativa dos geniais Eduardo Coutinho e Terrence Malick, guardada as devidas proporções. Ora por sua linguagem documental inventiva e genuína, ora por valorizar a natureza e trazer momentos contemplativos.

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Agora com este elogiado e premiado “Boi Neon”, Mascaro consegue unir todo domínio narrativo e beleza estética a uma história delicada que também é recheada de contestações pungentes, descontruindo alguns paradigmas de maneira orgânica, longe de qualquer maniqueísmo.

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São muitos os exemplos que saltam ao roteiro também escrito pelo recifense Gabriel, primeiro no vaqueiro Iremar (Juliano Cazarré), que passa o dia cuidando e preparando o gado para os rodeios, mas que nas horas vagas sonha em se tornar costureiro, ou como propriamente diz: “trabalhar no fabrico de roupas”. Vez ou outra ele dá um jeito de criar seus modelos e testá-los na patroa – e isto não é nada impossível, já que o Polo de Confecções é um dos comércios mais rentáveis no agreste pernambucano.

Do outro lado, temos também a forte presença de Maeve Jinkings, que dá vida à Galega, uma mãe solteira que, além de comandar os peões, dirige um caminhão de bois e é encarregada do trabalho mecânico do veículo. Ou mesmo do recém-chegado Junior (Vinicius de Oliveira), que em meio a todo trabalho braçal, mexendo até com esterco, está sempre preocupado com a aparência, em especial pelo longo cabelo que faz questão de alisar – diferente de Galega, que se orgulha do seu penteado encarnado cacheado. Todas estas figuras são intencionalmente retratadas como heterossexuais, para que inversão de papéis não perca o foco do debate.

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Igualmente fabulosa é a fotografia de Diego Garcia, por criar planos riquíssimos artisticamente e ao mesmo tempo emocionar pela singeleza latente. Os tons escolhidos pelo cinematografo parecem casar perfeitamente com cada momento empreendido, que vão dos surreais – como a mulher dançando com uma cabeça de cavalo – aos mais simplórios – o que traz a menina Cacá (Alyne Santana) brincando com um cavalinho em cima dos bois. A trilha sonora composta por Otávio Santos, Cláudio N & Carlos Montenegro também contribui e pontua bem os andamentos aludidos. Aliás, um dos seguimentos mais tocantes da fita é o abraço entre Iremar e Cacá.

Desse modo, Gabriel Mascaro encontra total equilíbrio na sua equipe, que parece estar completamente conectada à atmosfera fílmica. Talvez se não pesasse a mão em determinadas cenas que soam um tanto prolixas, a linguagem de “Boi Neon” fosse ainda mais universal, já que o texto possui gags que chegam facilmente nos mais variados públicos. São diálogos naturais e sacadas deliciosas, responsáveis por gargalhadas involuntárias da plateia, que logo é imersa à trama. Tendo em vista então toda essa beleza maravilhosamente explanada, é correto afirmar que Gabriel Mascaro novamente derrubou o boi na faixa.

Texto originalmente publicado na cobertura do VIII Janela Internacional de Cinema do Recife.


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