Crítica | Luke Cage

Crítica | Luke Cage

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Funk Soul Brother

Terceira série da parceria Marvel / Netflix, e quarta temporada do segmento (após duas do Demolidor e uma de Jessica Jones), Luke Cage segue o plano da casa de ideias, desenhando um universo nas telinhas, assim como faz no cinema. Se a estética das produções cinematográficas da empresa é leve, colorida e acrescenta bastante humor – como todos sabem bem, frisando essa divergência com as obras da rival DC – na TV, a Marvel também constrói sua estética: sombria, realística e violenta. É uma inversão de valores, nos cinemas o grande público é primordialmente constituído de crianças e adolescentes; na TV, é necessário ser um pouco mais velho para desenvolver interesse.

Os chamados personagens urbanos da Marvel, que provavelmente não iriam se sair bem protagonizando superproduções nas telonas, foram levados a uma mídia menor, na qual a ênfase é no desenvolvimento de personagens e situações. E aonde possuem muito mais tempo para uma jornada ocorrer, imagine um filme de 13 horas. Após Luke Cage, o lançamento prometido é o de Punhos de Ferro e logo depois o encontro do quarteto (Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punhos de Ferro) na série Defensores, um Vingadores dos heróis de menor escala. Existem planos inclusive de inserir os personagens das telinhas no cinema, criando assim o crossover definitivo da empresa.

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Assim como no cinema, algumas das produções inicias da Marvel existiram apenas para apresentar determinados personagens, deixar a bola rolando, e juntá-los em Os Vingadores (2012), o maior filme de seu respectivo ano. É isso que a empresa faz, visa o futuro, usando métodos nem sempre brilhantes para chegar lá. Afinal, poucos irão apontar o primeiro Thor (2011) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) como filmes favoritos dentro do acervo Marvel. É o que ocorre com esta Luke Cage, série solo do herói de aluguel. Depois de um início pra lá de inspirado com a primeira temporada de Demolidor, de Jessica Jones e a segunda de Demolidor, a falta de fôlego começa a ser sentida aqui.

Luke Cage é uma produção satisfatória que, como dito, mantém a bola girando, costurando tal universo, inclusive com ligações com o cinema. No entanto, a nova série Marvel falha em entregar algo novo e realmente memorável como suas antecessoras. Cage (Mike Colter) já havia aparecido como coadjuvante na série Jessica Jones e talvez devesse ter permanecido de tal forma. Quando os holofotes são jogados nele e numa trama própria, sentimos falta de alguma coisa. O programa segue o personagem após os eventos da série na qual coadjuvou, dublando numa jornada de emprego duplo. De dia, trabalha varrendo o chão de uma barbearia e de noite, lava pratos na boate Harlem´s Paradise.

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No trabalho diurno, Pop (Frankie Faison) é o Obi Wan da vez, figura paterna que serve de mentor, e cujos ensinamentos ficarão gravados na mente do protagonista, impulsionando-o a seguir como herói e fazer a coisa certa. Lembra-se de “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, pois bem, substitua por “continue a seguir sempre em frente, nunca para trás”. O emprego noturno o coloca em contato com dois jogadores que farão a trama girar, posicionando o protagonista bem no meio de um fogo cruzado. De um lado, Cornell ‘Boca de Algodão’ Stokes (Mahershala Ali) é o rei da noite, mafioso dono da boate e de metade dos negócios ilícitos da cidade, contando com as costas quentes da parceria com sua prima, a senadora Mariah Dillard (Alfre Woodard). Do outro, a detetive Misty Knight (Simone Missick), que possui dons clarividentes, se infiltra no local, investigando o lado escuso do empresário, e desenvolvendo rapidamente um relacionamento íntimo com o herói.




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Na gama de personagens do programa, destacam-se ainda o detetive Rafael Scarfe (Frank Whaley, sempre ótimo em cena), parceiro de Misty Knight, que possui um dos arcos mais interessantes do programa, Hernan ‘Shades’ Alvarez (Theo Rossi), um dos muitos criminosos que habitam este Harlem fictício, Willis ‘Kid Cascavel’ Stryker (Erik LaRay Harvey), a grande ameaça anunciada, e o retorno de Claire Temple (Rosario Dawson), o elemento que liga todas as séries, transitando entre elas. Ah, sim. Os brasileiros possuem um motivo a mais de felicidade ao assistir a série, a presença da veterana Sonia Braga, muito em voga após o sucesso de Aquarius este ano, no papel da mãe de Claire. Como deu para notar, os principais malvados da série possuem nomes de cobra, respeitando assim suas contrapartes nos quadrinhos, afinal esta é a fonte. Foi respeitada inclusive a infantil tradução de Diamondback, algo como costas de diamante, para Kid Cascavel (bem tosquinho né, mas fazer o que?).

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O clima gueto pulsa em Luke Cage. O sentimento do cinema blaxploitation, produções miradas ao público negro, criado na década de 1970, é latente. Ao ponto da série soar muito como algo vindo de tal época: aqui temos números musicais com pegada soul e funk, intrigas de gangues e certos elementos de ficção científica nostálgica, com computadores e experimentos secretos. É como se a modernidade realmente não tivesse chegado a tal mundo. E tal intenção muito provavelmente foi proposital. Em tais trechos Luke Cage resplandece com voz única dentro de tal universo, respeitando o feitio, mas adicionando muito sabor à mistura. A transposição é imediata.

Se por um lado o criador da série Cheo Hodari Coker (roteirista do filme Notorius B.I.G. – sua predileção pelo cantor é notada aqui também, ao tratar de inserir no escritório do criminoso Boca de Algodão uma imagem do rapper) acerta o tempero de Luke Cage na parte técnica, os demais itens, em especial o roteiro, demonstra certa fragilidade. Um dos grandes problemas enfrentados por Luke Cage não são seus arqui-inimigos, mas sim os próprios companheiros heróis. Demolidor (em especial) e Jessica Jones se privilegiaram do pioneirismo, de apresentarem e cimentarem uma linguagem e, mais do que isso, um tema a ser abordado sob diversos ângulos: a justiça com as próprias mãos. Demolidor, Jessica Jones, Justiceiro e Elektra (os dois últimos contidos da 2ª Temporada de Demolidor) são vertentes levemente inclinadas do mesmo tipo de justiça e de ideal. Como abordar agora mais um ângulo?

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Cage tenta se manter alheio, apenas se posicionando para defender os próprios interesses. Boa saída. Porém, ainda precisa existir algo mais. Em um dos melhores episódios, a série ganha contornos de filme de prisão, narrando a origem do personagem e de seus poderes. De quebra, revelando também a origem do relacionamento com a mulher que marcaria sua vida, a psicóloga Reva Connors (papel da belíssima Parisa Fitz-Henley). Luke Cage pode ser considerada também a série com a pegada mais quadrinhos do lote. Em variadas situações podemos perceber um teor de surrealismo e grande distanciamento do mundo real, de certa forma ausente nos programas anteriores, e que pode causar estranheza. Em determinada cena, por exemplo, um grupo de pessoas fecha uma rua para assistir herói e vilão se digladiarem, enquanto torcem para o mocinho. A coisa desce melhor se pensarmos na pretensão de proximidade com o material fonte.

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A fragilidade de Luke Cage também se encontra nos vilões, os mais genéricos e verdadeiramente bidimensionais, beirando o cartunesco, da leva de séries da casa. O destaque ficaria apenas com a performance sobressalente de Ali como Boca de Algodão, mesmo que o roteiro não dê continuidade em seu aprofundamento. Ele é muito mais interessante, por exemplo, do que a prima Mariah e o grande nêmesis Diamondback (me vejo recusando a proferir Kid Cascavel sem dar risadas), que funcionam basicamente em uma nota só. No final, o traje usado pelo vilão assume de vez as tintas de uma série baseada em quadrinhos. Além disso, o elo de ligação entre as contrapartes vilão e herói não poderia estar mais cansada – é algo que os especialistas vêm reclamando constantemente das últimas produções do gênero. Por que tudo precisa estar interligado?

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Talvez Luke Cage precisasse ser uma série com menos episódios, mesmo que isso não respeitasse o formato imposto pelas empresas parceiras. É nítida a perda de gás em variados momentos e os trechos acrescentados para preencher as lacunas são alguns dos piores já confeccionados pelas produções da casa de ideias (o que é o trecho com Misty sendo interrogada por seus atos e avaliada por um psicólogo, ah, o sofrimento). As maquinações dos criminosos muitas vezes não levam a lugar algum e a sensação de perseguir o próprio rabo é constante. Ficamos à espera do programa decolar e explodir, coisa que não ocorre.

As referências são legais e muitas (vão desde o uniforme do herói nos quadrinhos até inúmeros name drops de outros personagens da casa), e Luke Cage também encontra solução na deficiência de ter um protagonista à prova de balas, superforte e quase (ênfase no quase) sem pontos fracos.

Luke Cage é uma série a ser consumida aos poucos e talvez funcione melhor assim, se você não perder totalmente o interesse até lá. Assistir de uma tacada só, façanha realizada por este que vos fala, se mostrará um grande exercício em paciência e boa vontade. Entre erros e acertos, Luke Cage é a série de representatividade da Marvel – ainda prefiro os temas, e a forma como são lidados, de Jessica Jones – mas a que menos envolvimento desperta com o público. No lote do panteão da casa é a que chega em último, mas de forma alguma sendo dispensável. Em tempo, Luke Cage tirou a Netflix do ar em sua estreia, mais um feito para as produções da Marvel.

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