Crítica | O Vendedor de Passados

Crítica | O Vendedor de Passados

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UM IMPRESSIONANTE CONCEITO QUE PODIA IR MAIS LONGE

Apesar da variedade de gêneros explorados pelo cinema brasileiro, o chamado thriller nunca foi um dos estilos mais ventilados, até mesmo nesta produtiva era contemporânea. Quando Fernando Coimbra nos entregou o excepcional O Lobo Atrás da Porta (2014), a reação geral foi de total surpresa, pois há algum tempo não víamos nada parecido. Pode-se dizer que Quando Eu Era Vivo (2014) e Isolados (2014) são outros exemplos, mesmo que transitem em área mais heterogêneas. No entanto a carência por um trabalho com maior complexidade textual ainda era presente.

Isso até o lançamento deste O Vendedor de Passados, longa dirigido por Lula Buarque de Hollanda e estrelado por Lázaro Ramos e Alinne Moraes, que traz uma premissa interessantíssima, digna de ser comparada ao fabuloso Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) – Hollanda que, não por caso, homenageia o gênio roteirista Charlie Kaufman, repare no nome da empresa do protagonista.

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Para melhor situa-los, como bem diz o título, o script de Isabel Muniz fala sobre Vicente (Ramos), um homem que ganha a vida criando novos passados para pessoas que, por alguma razão e/ou frustração, querem apagar sua biografia. A coisa fica mais interessante quando vemos marcantes momentos serem esmiuçados em tela e ao mesmo tempo extinguidos instantemente. A relação de Vicente com o trabalho é tamanha que às vezes ele inventa passados para si. Ou quando compra objetivos antigos e começa a contempla-los.

Numa dessas consultorias, o sujeito encontra a misteriosa personagem sem nome de Alinne Moraes, que pede algo inusitado: quer que Vicente crie um passado partindo do zero, que invente totalmente uma nova história, tendo apenas uma única exigência: ter cometido um crime. Sem se dar conta, ele acaba se envolvendo com a garota e cria algo que no fim das contas a ficção se confunde com a realidade, ocasionando riscos maiores, principalmente quando ela toma pra si o acordo. Fazendo depois algo absolutamente inesperado.

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O maior mérito de Lula Buarque é deixar o espectador curioso pela resolução da trama, do início ao fim, através de uma narrativa linear que se matem orgânica nos três atos. O ritmo é pulsante, a trama é intrigante e os atores oferecem uma veracidade impressionante aos seus personagens. Talvez a trilha sonora imprimisse um pouco mais de tensão, caso apostasse em melodias mais enigmáticas, porém o que vemos aqui são notas repetidas. O acerto só acontece quando, no fim da sessão, a canção You Don’t Know Me de Caetano Veloso é inserida fechando o conflito, casando bem com a ideia do desfecho.




Que nos leva a contestar algumas escolhas que, a bem da verdade, mostraram-se covardes no desenvolver da trama. São muitas as perguntas: quem são aquelas pessoas, estão vivendo uma mentira desde o início (o que seria uma muleta pavorosa) ou onde será que o tal caso foi parar? Vemos o que deve ser o passado real de Vicente, mas que também se mostra ambíguo pelos olhares de sua mãe. E todo esse plano foi arquitetado desde o início? Isso pode até ser encarado como um trunfo, da plateia criar respostas e esticar o debate, mas são informações básicas que talvez não foram dadas pelo simples receio dos produtores soar pedestres.

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Assim, vemos aqui um filme que possui inúmeros pontos e elementos curiosíssimos, um trabalho estético correto e uma direção arrojada, mas que também exibi um texto unidimensional em certos aspectos. É fato que Lula Buarque conseguiu tirar o máximo da obra e fazer, no frigir dos ovos, um trabalho eficiente, que vai deixar parte do público maravilhado com a proposta genuína. Como também constamos a fragilidade do roteiro e lamentos o quanto o troço devia ser ainda mais perturbador.

Texto originalmente publicado na cobertura do Cine PE 2015.

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