O cinema é uma forma bem prática de entendermos melhor as relações próximas de nossa realidade. Quem nunca teve problemas com seu pai ou com sua mãe? Na maioria dos casos, são anos e anos de conflito até conseguirem ter asas e voar para a vida adulta. Eu mesmo tenho uma estremecida relação com meu pai e minha mãe, mas busco pelos filmes alguma saída para tentar entendê-los de outra forma. Terapias podem ser importante mas o cinema é um complemento. Quem conseguir sugar analogias que saem da tela direto para nossa reflexão sairá fortalecido e com melhor compreensão sobre o poder da relação pais e filhos.

Pensando nisso e longe de ser uma grande receita com fórmula certa para sua felicidade, seguem abaixo 10 filmes onde o debate sobre esse relacionamento do título, às vezes nas entrelinhas, às vezes direto, dão boas reflexões.

 



Pais e Filhos (2013)

Depois do maravilhoso trabalho O Que Eu Mais Desejo (2011), o diretor japonês Hirokazu Koreeda volta a falar sobre a relação da família no cativante Pais e Filhos. Usando de uma simplicidade e uma delicadeza impressionante, o filme é uma grande jornada sentimental nas escolhas difíceis que pais e filhos se envolvem. O espectador é alvo fácil de cada palavra, cada sentimento, contidos em todas as linhas desse roteiro.

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Na trama, acompanhamos Ryota Nonomiya (interpretado pelo ótimo ator Masaharu Fukuyama), um homem bem resolvido na vida que vive com sua mulher Midori Nonomiya (Machiko Ono) e seu único filho, Keita. Muito disciplinador e sempre se decepcionando com seu filho, Ryota faz de tudo para que nada fuja mais do seu controle. Certo dia, o hospital onde Keita nasceu surpreende essa família com a notícia de que o menino não é o filho biológico deles. A partir disso, escolhas difíceis terão que ser tomadas se unindo num mar de razão e emoção complicado de navegar.

O que mais deixa o público envolvido com a história é a construção belíssima do personagem Ryota. Um Workaholic assumido, deixa sua família em segundo plano, assim como seu pai no passado fizera com ele. Perdido em meio ao caos emocional estabelecido pela trágica notícia, Ryoto, a cada passo que tenta dar pra frente se esquece dos pequenos detalhes afetivos e comete uma série de ignorâncias, fruto de sua frieza característica. Quando a mudança se torna eminente, o filme ganha contornos tão emocionantes que fica impossível os olhos não se encherem de água.



A cultura e a disciplina, própria dos orientais, são muito bem exploradas pelas lentes certeiras do diretor. As diferenças no modo em educar uma criança, o paradigma entre o rico e o pobre, as diferenças entre o ser feliz com pouco e o ser infeliz ganhando muito são também algumas das profundidades das ações dos personagens. Pais e Filhos é um filme que de superficial não tem nada. Todas as situações são bem desenvolvidas, o que justifica os deliciosos 120 minutos que o espectador fica refém.

Se você já teve uma relação difícil com seus pais, esse filme chegará como um cometa colorido que vai atingir a superfície de seu coração. O poder dessa história, juntamente com a mágica do cinema, é enorme e pode fazer você querer mudar certas situações, quem sabe até mesmo perdoar. As lições são inúmeras, esteja de coração aberto para receber esse lindo trabalho. Sábio, é o pai que conhece o seu próprio filho. E vice-versa. Não perca esse filme.

 

Os Cowboys (2015)

Até onde devemos ir por quem amamos, mas não querem estar perto com nossa presença? Um dos filmes mais fortes do Festival Varilux de Cinema Francês 2016, sem dúvidas nenhuma, foi o espetacular drama Os Cowboys, protagonizado pelo ótimo ator François Damiens e com uma atuação digna de Oscar do ator britânico Finnegan Oldfield. Ao longo dos tensos 105 minutos de projeção, onde não conseguimos desgrudar os olhos da tela, vamos sendo apresentados a personagem movidos pela angústia e uma série de consequentes ações desesperadas em prol de um único objetivo, que acaba consumindo e destruindo uma família de classe média francesa. Em seu primeiro longa-metragem como diretor, o cineasta francês Thomas Bidegain brinda o público com uma trama muito bem dirigida e com atuações bem acima da média.



Na trama, conhecemos brevemente toda a família de Alain (François Damiens), um trabalhador de classe média que mora com sua mulher e os dois filhos no leste francês. Alain é um amante da cultura country e sempre vai com sua família a um famoso encontro onde confraterniza com outros amigos. Certo dia, num desses encontros, sua filha Kelly desaparece misteriosamente, levando Alain a uma desesperada busca por informações sobre a jovem. Os anos se passam e somente seu filho Kid (Finnegan Oldfield), que praticamente sacrifica sua adolescência, acredita e ajuda seu pai a tentar encontrar Kelly.

O clima é tenso desde o início. A trilha sonora composta por Moritz Reich (Fique Comigo, 2015) encaixa como uma luva e consegue deixar o público em total sinal de atenção às sequências fortes. François Damiens, na pele de Alain está possuído, embarca em um caminho sem rumo desesperado em busca de sua filha. A angústia é constante e impressionante. Isso obviamente destrói seu relacionamento com o restante de sua família. Essa estrada sem fim é acompanhada de perto por seu filho Kid, que é o único que também ainda acredita que eles possam encontrá-la. Os Cowboys é um filme sobre família mas também sobre até onde o ser humano pode ir para defender suas convicções.

O longa é recheado de surpresas. O porquê do sumiço dela (que não vou contar aqui) é um dos grandes trunfos do filme, que explora muito bem a reação da família ao saber o que aconteceu com ela. Uma segunda surpresa é a troca de protagonismo já entre o segundo e o terceiro ato, com o mesmo objetivo só que com um olhar um pouco diferente sobre a situação. A trama cresce demais nos últimos 30 minutos de projeção.



 

Nimby (2020)

A coragem na busca de contar ao mundo quem você ama versus o grito é o primeiro patamar da violência. Quase inédito no mundo todo, o ótimo longa-metragem finlandês Nimby é um drama cômico trágico que busca reflexões mas que gera risos altos. Escrito (também assina Jani Pösö) e dirigido pelo cineasta Teemu Nikki, o filme em um pouco mais de 90 minutos consegue explorar com profundidade conflitos existenciais como: imigração, orientação sexual, religião, política, conflitos familiares, entre outros. Os embates dialogados, inclusive com uma linha vertical na tela (cada um no seu quadro) é uma ótima sacada, talvez até mesmo um alerta para prestar atenção à reflexão.

Na trama, conhecemos Marvi e Kata, duas jovens inteligentes que namoram faz um ano, só que ambas ainda não contaram para suas famílias sobre esse relacionamento. Buscando resolver essa situação, aproveitam a ida da mãe de Kata (uma famosa comissária da União Europeia) e de seu pai até a Finlândia para talvez conversar sobre o assunto. Mas nesse meio tempo, Marvi convence a namorada a irem primeiro contar para sua família no interior da Finlândia. Muitas situações acontecem, mas as famílias das duas se encontram e precisarão de muita compreensão para todos se entenderem.



O roteiro é muito bem elaborado, com ótimas subtramas. O filme se transforma de repente e entramos em um clima inusitado de tensão de vários tipos, principalmente o psicológico. Nos encontros inusitados é onde somos testemunhas de desabafos como se fossem confissões ou uma ida ao consultório do psicólogo. Há muitas doses de hipocrisia camufladas na não aceitação das opções de relacionamento dos pais, pela ótica de Mervi. O roteiro contorna com elegância e eficácia todas as polêmicas e sabe como dividir sobre as óticas de cada personagem. Ainda há tempo, nas ótimas divisões de arcos, para tentarmos entender as razões de demitidos de uma fábrica de tintas virarem neonazistas, uma excentricidade camuflada de inconsequência e alimentada pelo preconceito contra o próximo.

Com ritmo intenso, nem vemos os minutos passarem, podemos dizer que Nimby, resumidamente, é a eterna busca pelo entendimento mútuo, mas o mundo nunca foi nem nunca será simples.

 

Pilatos (2020)


Ninguém mexe nas memórias do passado. Dirigido pela cineasta Linda DombrovskyPilatos é um filme húngaro que aborda uma relação conturbada entre mãe e filha. Com muitos méritos, usa do Simbolismo como referência ao tempo, principalmente, reflexões em forma de metáforas com curtos flashbacks sobre épocas passadas vividas por essa família. Delicado, com harmônicos arcos (Terra, Fogo, Água e Ar), o filme possui duas atuações destacadas: Ildikó Hámori e Anna Györgyi. A trama é uma adaptação do livro homônimo da autora húngara Magda Szabó.

Na trama, conhecemos Anna (Ildikó Hámori), uma senhorinha de vida simples que acaba de perder o marido. Tentando achar uma solução para não deixar a mãe sozinha, sua filha Iza (Anna Györgyi), uma importante médica, resolve levar a mãe para morar com ela. Isso acaba gerando uma série de problemas por conta da distância e diferença entre as duas, mesmo sendo mãe e filha. Há eminências de um conflito por todos os arcos.

Parece uma peça filmada, o ritmo se baseia na belíssima condução dos personagens. Há uma melancolia em todo canto nos menos de 80 minutos de projeção. Uma batalha emocional das memórias contra uma filha autoritária que parece desconhecer a trajetória simples de seus pais. Com diálogos profundos, a difícil tarefa de dizer adeus ganha luz nas visões de Anna, e um desfecho emblemático surge com diversas respostas que podem ser dadas para tal. Um filme simples e profundo. Um bom trabalho.

 

Capitão Fantástico (2016)

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe. Escrito e dirigido pelo pouco conhecido ator e também cineasta Matt RossCapitão Fantástico é um daqueles filmes que deixam nosso coração na boca, faz nosso raciocínio brilhar e mexe intensamente com nosso modo de ver e viver tudo que aprendemos até hoje em nossas vidas. Com uma atuação brilhante do grande ator Viggo Mortensen, o longa-metragem de objetivos 118 minutos é um dos melhores filmes sobre esse tema.

Na trama, conhecemos Ben (Viggo Mortensen) e sua família para lá de diferente. Ben e sua esposa resolveram criar os seus seis filhos em um lugar muito bonito e longe da sociedade, deixando eles distantes de qualquer contato com as novidades e besteiras do mundo e sua globalização. Quando sua esposa, que precisou ser hospitalizada por conta de uma doença terrível, falece, Ben resolve ir até o encontro dela e leva junto seus filhos. Após o choque natural da criançada com o mundo da maioria das pessoas que os cercam, mas que nunca tiveram contato, o capitão fantástico desta turma terá que fazer escolhas difíceis e confrontar pessoas que consideram seu modo de vida prejudicial aos seus filhos.

A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. Pensador desse lema, o protagonista criou seus filhos com rigidez e muita disciplina. Livros complexos são passados como dever de casa para todas as crianças, não importa a idade. As verdades são uma só e vários tabus de outras casas, para Ben, são apenas verdades que precisam ser ditas da única maneira que existe. O ambiente é de total harmonia, músicas (a cena da família cantando ‘Sweet Child o’Mine’ é emocionante e arrepia), brincadeiras mas também alguns excessos como exercícios físicos que não respeitam idade e que podem machucar. O personagem principal é intenso em seus princípios, a ideia de ter uma família vivendo longe dos vícios e futilidades, além dos alimentos que só prejudicam, é vivida intensamente mas falta equilíbrio, no fundo, Ben sabe disso.

No terceiro arco em diante, a mudança começa a acontecer. Ben, personagem complicado, de bom coração, interpretado com maestria por Mortensen se vê cercado de situações que o fazem repensar alguns de seus conceitos. Seus filhos, sua única riqueza nesse mundo, percebem rapidamente e o ajudam nesse momento de transição, transformando uma linda história em uma história inesquecível. Capitão Fantástico é algo assim, único, um presente para quem gosta de se emocionar com filmes que mexem com nosso coração. A grande lição que aprendemos com essa fita é que Capitão Fantástico é qualquer um que acredita que uma boa ideia pode mudar um pouquinho nosso mundo, ou mesmo que um filme inesquecível faz com que reflitamos sobre nossa própria existência. Seja o Capitão da sua vida, viva fantasticamente. Bravo!

 

As Faces de Toni Erdmann (2016)

Sábio é o pai que conhece o seu próprio filho. Depois de um hiato de sete anos na direção de um longa-metragem, a cineasta alemã Maren Ade volta à telona em grande estilo com a hilária e doce dramédia Toni Erdmann. Contando a história de um pai cheio de impulsos cômicos na busca constante pela atenção de sua sisuda filha, o projeto, indicado a muitos prêmios internacionais, é um daqueles filmes imensos (2 horas e 40 minutos de projeção) mas que desejamos que nunca acabe, sempre à espera da próxima gracinha que Toni Erdmann vai aprontar.

Na trama, acompanhamos a árdua saga de Winfried Conradi (Peter Simonischek), um dedicado pai que muito se entristece com o distanciamento na relação com sua única filha Ines (Sandra Hüller), essa última, uma jovem em ascensão na empresa onde trabalha o que a transforma em uma Workholic sem limites. O problema é que Ines trabalha demais e pouco tempo de sua agenda é dedicada à sua família. Quando o cachorrinho de Winfried morre, ele decide encarar o desafio de ter mais atenção de sua filha e para isso, entre outras coisas, viaja para vê-la quando ela está a trabalho e desenvolve um personagem, um Alter ego de nome Toni Erdmann. Não é preciso nem dizer as inúmeras e hilárias que esses dois vão se meter ao longo desse complexo processo de melhoramento na relação pai e filha.

Escolhido o Melhor Filme Estrangeiro de 2016 pelos críticos de Nova York, Toni Erdmann navega pelo humor para mostrar o cotidiano de um relacionamento conturbado entre pai e filha. De personalidades completamente diferentes, os dois embarcam em uma jornada basicamente de auto descoberta. Aos poucos, após uma quantidade absurda de insistência, Ines vai conseguindo se reconectar com seu pai, o que provoca uma cena de desfecho para lá de emblemática. Mesmo tendo quase três horas de duração, o que dificultou sua entrada no circuito de cinema brasileiros (talvez um dos pontos para nenhuma distribuidora ter ainda comprado os direitos no filme no Brasil), o filme é uma delícia de assistir e essas horas passam voando.

O foco no primeiro arco é a personalidade forte de Ines em paralelo as trapalhadas e atos incompreendidos de Winfried. Tudo começa a fazer mais sentido, praticamente a virada na trama, quando chega o Sr. Toni Erdmann, com sua peruca para lá de chamativa e dentes falsos para lá de explícitos. Esse Alter Ego transforma demais a visão de Ines sobre a personalidade cativante de seu pai. Assim, o longa-metragem cresce demais em emoção, o inusitado começa a ter sentido, ficando num tom cômico na medida conforme as situações antes constrangedoras, mas agora compreendidas. Toni Erdmann rouba a cena, transforma o mais difícil dos conflitos paternos em uma aula de amor e afeto.

 

Querido Menino (2018)

Depois de devastar nossos corações cinéfilos com o drama Alabama Monroe, o cineasta belga Felix van Groeningen volta a atingir em cheio nossas emoções com seu novo trabalho, Querido Menino. Baseado nos livros Querido Menino, de David Sheff, e Tweak: Growing up on Methamphetamines, de Nic Sheff, o filme preenche a maioria das lacunas sobre o sentimento de um pai em busca de uma solução para os problemas de drogas do filho. Em atuações cativantes e dignas de Oscar, Timothée Chalamet e Steve Carell formam filho e pai nesse projeto importante também para mostrar essa realidade, para alguns distante para outros nem tanto, do desespero emocional que passa não só a pessoa que possui problema com drogas, mas também todos que estão ao seu redor.

Na trama, conhecemos David Sheff (Steve Carell), um homem de meia idade, bem sucedido em sua profissão pai amoroso que vive em uma casa confortável com sua atual esposa Karen (Maura Tierney). David é pai de Nick (Timothée Chalamet), um jovem que com o passar do tempo começa a ter sérios problemas com as mais diversas drogas que existem. Ao longo de uma passagem de tempo, vamos acompanhando David, suas lembranças, e principalmente sua busca em encontrar alguma solução para esse problema complicado que o filho passa.

O roteiro, baseado nos livros de pai e filho que são os personagens principais da trama, é um grande vai e vem entre recordações, solidão, desespero, medo e muitos outros sentimentos conflituosos que chegam como uma flecha principalmente para David. Ao longo de um pouco mais de duas horas de duração, conseguimos enxergar a situação de Nick através não só dos olhos de seu pai, mas também de sua madrasta (mãe de seus outros dois irmãos pequenos), e de sua mãe que mora em outra cidade. Em busca de alternativas para curar esse sofrimento que paira sobre a família, principalmente David embarca em uma jornada de redescobertas, estudo e desabafo mesmo quando suas forças para lutar estão limitadas.

Há uma carga de emoção muito grande em tudo que vemos nesse filme, Van Groeningen já mostrou que sabe como nos atingir desse lado daqui da tela, sua maneira de filmar te embarca para dentro daqueles cenários, aquelas conversas, que por mais difícil que possam parecer, tem o poder também de conscientizar. Querido Menino não é um filme fácil, toca bem forte nossos corações. É um forte e marcante filme.

 

O Tiro que não Saiu pela Culatra (1989)

Problemas familiares não tem endereço, a eterna roda gigante da educação. No final da década de 80, chegou aos cinemas O Tiro que não Saiu pela Culatra, dirigido por Ron Howard, um drama com pitadas cômicas que mostra um arranjo familiar complicado com tipos de educações diferentes. Passando um raio-x em uma família com as mais diversas crises, o brilhante roteiro da dupla Lowell Ganz e Babaloo Mandel nos faz refletir a todo instante. A atriz Dianne Wiest foi indicado ao Oscar por esse filme e Randy Newman, autor da trilha sonora, concorreu com a canção I Love To See You Smile ao Grammy, ao Globo de Ouro e ao Oscar.

Na trama, conhecemos uma família de classe média norte-americana e seus conflitos diários entre pais, mães, filhos e filhas. Tem o pai que pressiona na rigidez educacional de uma garotinha (até ler Kafka a garota é forçada) e a mãe não consegue se impor para evitar a pressão; uma mãe que cria os dois filhos sozinha e ambos passam por problemas e descobertas e tem problema com sua autoridade inexistente; Um advogado e sua esposa com três filhos e um com um deles sendo aconselhado a ir no psicólogo pela escola; O pai de muitos desses, que até hoje não conseguiu controlar os vícios do filho mais novo. A biologia, os motores da educação, nada tem muita lógica quando o assunto é educar. O elenco é ótimo: Steve Martin, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Rick Moranis, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix (em um de seus primeiros filmes), entre outros.

Durante as pouco mais de duas horas, que nem vemos passar, uma coisa é certa: todos os núcleos tem os seus problemas. Por mais que o protagonista seja Steve Martin e seu Gil (os pensamentos futuros do personagem sobre erros e acertos são hilários – brincar com um tema tão sério não é fácil), todas as subtramas são muito bem detalhadas pelas lentes de Howard. O ritmo é recheado de objetividade, mas com lacunas a se preencherem talvez até por um julgamento reflexivo que podemos ter durante os assuntos mostrados. Não há fórmula para se educar, nunca será como queremos. Um dos filmes mais amplos em discussões sobre o tema pais e filhos.

 

Benzinho (2018)

Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida. Exibido no importante Festival de Sundance, Benzinho conta todas as dificuldades de uma família moradora da região de Petrópolis no Rio de Janeiro, seja no lado financeiro, seja no lado emocional com a eminente partida do filho mais velho para uma nova oportunidade na Alemanha. O longa, dirigido por Gustavo Pizzi (do ótimo Riscado), gira todo em torno da forte personagem Irene, interpretada magistralmente pela excelente atriz brasileira Karine Teles. Entre as dificuldades do cotidiano, o amor não falta nesse grande retrato de família brasileira.

A trama, super elogiada pelos críticos não só no Brasil, conta a saga de Klaus (Otávio Müller) e Irene (Karine Teles), pai e mãe de quatro filhos que vivem a cada dia tendo que matar um leão para que a felicidade reine no lar deles. Os negócios de Klaus, que tem uma copiadora, e o trabalho de vendedora sem dinheiro fixo de Irene, não vão muito bem e associado a isso, a irmã de Irene, Sonia (Adriana Esteves), busca refúgio na casa deles após ser agredida pelo marido Alan (César Troncoso). Para completar as variações emocionais presentes nesse “laço” da família, o filho mais velho do casal Fernando (Konstantinos Sarris) é chamado para jogar handball profissionalmente na Alemanha, fato esse que mexe demais com Irene.

Buscando retratar o cotidiano também de muitas famílias brasileiras, que buscam com bastante esforço ter o melhor para dar na criação de seus filhos, Benzinho navega com muita profundidade sobre as angústias, alegrias e surpresas que chegam a eles diariamente. Todos em cena brilham, mas o foco principal fica com Irene e o grande conflito que enfrenta por não aceitar muito bem a ida de Fernando para longe de casa por tanto tempo. Mesmo reconhecendo ser uma oportunidade de vida para o filho, Irene não consegue esconder sua insatisfação. Mas o longa-metragem (que poderia ser o indicado do Brasil ao Oscar tranquilamente) não se prende só a esse conflito, as razões financeiras e dificuldades de uma vida melhor chegam como pano de fundo assim como a situação de Sonia que busca refúgio na casa da irmã.

A emoção não deixa de estar contida em cada cena, seja nas felicidades, seja nas tristezas. Benzinho é um retrato muito bem feito sobre milhares de outras famílias, seus dramas e suas forças para enfrentar de cabeça erguida as loucuras desse mundo tão cheio de obstáculos em que vivemos, principalmente aqui no Brasil.

 

Sem Amor (2017)

Não se pode viver em desamor. Na era das selfies e das vitrines matrimoniais que a sociedade impõe para que a tal da incerteza da normalidade fique evidente e você não seja alvo de fofocas ou preconceitos, o novo trabalho do excepcional cineasta russo Andrey Zvyagintsev (dos excelentes Elena e Leviatã), Loveless, sensação nos festivais que fora exibido mundo afora, é um filme que fala sobre, acima de tudo, família. Em uma Rússia dos tempos modernos, repleta de idas e vindas em relacionamentos, Zvyagintsev faz o espectador navegar nas emoções mais profundas quando nos sentimos olhando pelo buraco da fechadura.

Na intensa trama, conhecemos o casal Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin) que estão se separando em meio a muitas brigas. Eles tem um filho de 12 anos chamado Alyosha (Matvey Novikov), que sofre bastante pelas discussões diárias dos pais. Tanto Zhenya quanto Boris já estão em outros relacionamentos, o segundo inclusive já está esperando um outro filho com a nova namorada. Em meio a essa tumultuada relação, Alyosha some certo dia e os pais precisam reunir forças para enfrentar essa difícil situação.

Entendemos melhor as características emocionais dos personagens nos diálogos profundos que ambos possuem com seus novos parceiros, principalmente Zhenya, que possui uma dificuldade de relacionamento com a mãe, nunca amou o ex-marido e se joga completamente nessa nova relação. Seu cotidiano com o filho é distante e agressivo, a impaciência e o comportamento distante com o filho são reflexos da impaciência e solidão que vivia com seu ex-marido. Quando o jovem desaparece, tanto mãe quanto pai se sentem perdidos e começam a perceber aos poucos o quanto existia uma barreira entre todos eles.

A frieza da polícia na condução do início do caso chama atenção. Durante o pequeno interrogatório com o grupo de salvação e resgate, fica nítido o grande descaso e falta de observação dos pais com o próprio filho, principalmente da figura materna. Alyosha sofria bastante com as brigas e principalmente com o que escutava dos pais. A ausência de amor, desafeição, desprezo, indiferença eram algumas das características que distanciavam os pais do filho.

Com belíssimas cenas de fundo e uma atmosfera melancólica que se envolve intensamente em pontos importantes, Loveless (no título original) é um retrato humano, que assusta mas acontece, das imperfeições na roda familiar. Zvyagintsev se consagra mais uma vez com suas lentes que conseguem transmitir com muita intensidade o que acontece entre quatro paredes e nos mostra os detalhes como se estivéssemos olhando pelo buraco de uma fechadura.

 

Belos Sonhos (2016)

“Tudo aquilo que sou, ou pretendo ser, devo a um anjo, minha mãe”. Filme de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de anos atrás, a co-produção Itália/França dirigida pelo marcante cineasta italiano Marco Bellocchio é um daqueles filmes que conseguem chegar bem fundo em nossas emoções, trazendo um encanto de poesia na relação impactante de um filho com as lembranças de sua mãe.  Profundo, elegante, emotivo, a produção passa com louvor na avaliação criteriosa dos corações cinéfilos, principalmente aos que percebem uma analogia extraordinária entre seu enredo e uma letra famosa escrita por Renato Russo anos atrás. Belos Sonhos é sem dúvidas um dos mais belos sobre o tema.

Baseado no livro Fai Bei Sogni, de Massimo GramelliniBelos Sonhos, conta a história de Massimo, um amante do futebol que tempos mais tarde vira jornalista de um importante jornal. Ele possui um grande trauma, quase uma lacuna não preenchida sobre as lembranças que cercam o falecimento de sua mãe – quando Massimo era apenas uma criança. Percorrendo uma linha do tempo que vai e volta, no melhor estilo Bellochio, vamos juntando aos poucos o complexo quebra cabeça da trajetória emocional de Massimo com muitas surpresas e momentos de redenção ao longo dos emocionantes 134 minutos de projeção.

Dorme agora, é só o vento lá fora. O roteiro explora com louvor toda a tempestade de lembranças que passa o protagonista ao longo de sua tumultuada trajetória de vida. Desde a infância e os momentos dançantes com sua mãe, até os horrores da guerra vistas de uma maneira bastante profunda.  O trabalho do ator italiano Valerio Mastandrea (o Michael Fassbender da Itália), que interpreta Massimo em sua fase adulta, é irretocável, passa uma pureza no olhar que impressiona. O espectador sai do filme sabendo que assistiu a uma baita atuação.

Me diz, por que que o céu é azul? Explica a grande fúria do mundo! Os embates cheios de cargas emocionais entre o pequeno Massimo e o religioso que lhe ensinava na escola sobre a origem das coisas é muito interessante e traça um paralelo certeiro com a história de vida do menino. Há uma saudade que ele sente de tudo que ele ainda não viu.

Você diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. Um dos mais marcantes clímax que possui a película, o reencontro do protagonista com seu pai em uma reunião simbólica para lembrar de jogadores de futebol do time do Torino que morreram em uma trágico acidente aéreo anos atrás. Já mais velhos e mais calejados pela vida, o desabafo do pai ao filho ao falar sem mistérios sobre sua mãe, é bastante emocionante e toda a emoção contida nessas fortes sequências mexem muito com quem possui fortes ligações com a família.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. O filme é tão bem realizado que prepara o espectador para um gran finale repleto de sentimentos guardados e que precisavam escapar para que o protagonista seguisse em frente com sua vida. Lindos momentos, reflexões sobre sua vida. Nesse final de ano, sendo uma gota d’água ou um grão de areia, veja esse filme e corra para abraçar as pessoas que você ama.

 

Seu Filho (2018)

Sábio é o pai que conhece o seu próprio filho. Com uma interpretação de tirar o fôlego do veterano e excelente ator espanhol Jose Coronado (do ótimo Não Haverá Paz Para os Malvados), está disponível no catálogo da Netflix Brasil o suspense Seu Filho, uma grata surpresa em meio a tantos títulos interessantes nesse streaming. Com um roteiro composto por um cirúrgico plot twist, vamos acompanhando a saga de um pai que pensa ter a família perfeita e sua busca sobre as verdades do seu único filho homem. A força dos personagens é um dos pontos fortes desse intenso filme.

Na trama, conhecemos o dedicado cirurgião Jaime (Jose Coronado), um homem já no terço final de sua vida que costuma ter uma relação muito amistosa com seu filho Marcos (Pol Monen) e um pouco distante com a filha Sara (Asia Ortega). Em uma certa noite, durante um de seus plantões, Jaime descobre que seu filho chegou de ambulância completamente ferido após uma briga em uma boate bastante frequentada no centro da cidade onde moram. O acontecimento mexe demais com o protagonista que começa uma investigação por conta própria o que o leva a limite mental e emocional que desdobrarão consequências para ele e o restante de sua família.

O thriller camuflado de drama vem com aquela pegada de todo bom filme espanhol dos últimos tempos. Intenso, impactante, sem previsões ou achismos de como termina as consequências em que se metem os personagens. Há um mistério correndo em volta de Jaime, isso o atormenta, entra em conflito com tudo e todos e busca de sua própria verdade, ou pelo menos a interpretação que deseja para o que aconteceu. Nem tudo é o que parece ao longo dos 103 minutos de fita. A atuação de Jose Coronado é o alicerce, um ponto cheio de clímax e repleto de intensidade, nossos olhos não conseguem desgrudar em descobrir pela ótica do protagonista o que realmente aconteceu naquela noite.

Os arcos são bem definidos, mesmo que haja um aceleramento descompassado no último, talvez fruto de uma história cheio de detalhes que precisa ser contada em menos de duas horas. O roteiro consegue extrair dos personagens toda a força que é preciso para nunca se perder o ritmo dessa reflexiva história que fala sobre o amor de pais e filhos e até onde é a linha tênue entre a razão e a emoção do argumentar ao favor de quem é próximo de nós.

 

Longe da Árvore (2017)

O consenso cultural nem sempre retrata a melhor maneira de enxergamos como podemos nos amar sendo quem somos. Explorando a montanha russa, os altos e baixos, da relação de pais e filhos, Longe da Árvore, impactante documentário dirigido pelas cineastas Rachel Dretzin e Jamila Ephron, baseado em partes em um livro (Far from the Tree) do escritor Andrew Solomon, percorre um olhar por dentro da vida de algumas famílias. São profundos e alguns dolorosos relatos, emocionante em muitos momentos, pais e filhos e suas descobertas diárias nessa relação que para uns parecem fáceis mas que sempre vão ter bons e nem tão bons momentos.

São vários os olhares que acompanhamos ao longo de cerca de 90 minutos de projeção. Jason tem síndrome de Down e seus pais sempre enfrentaram todo o tipo de preconceito com avanços corajosos na educação dele, que, mesmo com essa deficiência, consegue realizar tarefas básicas como a rápida matemática de maneira igual aos de sua idade; os relatos emocionados da mãe de Jack, um dos personagens, um jovem com autismo, sobre todas as maneiras que buscarão para melhorar a situação dele, principalmente na hora de interagir com os outros; Loini, que sofre por ser diferente e não ter contato com outras como ela que possuem o nanismo mas acaba se encontrando em uma convenção anual da associação de gente pequena dos Estados Unidos; O idealizador do livro e sua batalha antes perdida em entender seus pais após anunciar para a família que era gay; Pais que levam uma culpa para sempre após uma tragédia impactar suas vidas.

São registros por meio de vídeos, depoimentos atuais, reflexões sobre os impactos da criação de uma família. Não é uma escolha os pais amarem seus filhos. Em Longe da Árvore vamos acompanhar batalhas emocionais, força de vontade, novas descobertas, desejos, condições, tudo isso de maneira muito reflexiva e que de alguma forma deixa muitas lições para todos nós.

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