O Último Samurai Branco

A cultura japonesa dominou Hollywood em 2013. O subgênero dos monstros gigantes Kaiju nunca esteve tão bem representado quanto em Círculo de Fogo, de Guillermo del Toro. E até mesmo um herói da Marvel viajou para a terra do sol nascente e imergiu na cultura nipônica, em Wolverine – Imortal, o primeiro filme de super-herói de Hollywood falado em outra língua (não americana) por grande parte de sua projeção. Agora, é a vez de Keanu Reeves usar seu status de astro para promover a milenar cultura japonesa para uma grande audiência (ou pelo menos tentar).

Reeves conquistou o mundo com a série Matrix (1999, 2003), e por causa dela entrou no patamar dos grandes astros de Hollywood. No entanto, o ator não aparecia numa grande produção desde a recepção fria que o remake de O Dia em que a Terra Parou (2008) teve com os críticos e o público. Desde então o ator participou apenas de três produções independentes, que passaram basicamente em branco: A Vida Íntima de Pippa Lee (2009), A Ocasião faz o Ladrão (2010) e Sem Destino (2012). 47 Ronins era planejado como a grande volta do astro ao topo. A coisa não aconteceu bem assim.

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A produção problemática sofreu diversos atrasos em seu lançamento. Durante muito tempo, pouco se sabia além do anúncio de que o filme existia e de uma foto que figurava na rede de Reeves com parte do elenco nipônico. Devido à interferência do estúdio Universal, o filme sofreu várias mudanças no roteiro durante as filmagens, além de uma radical reestruturação já na fase de pós-produção. Entre as mais significativas, um personagem de grande importância na trama terminou cortado e com uma participação muda. Casos assim não são inéditos e quase sempre resultam no que vemos nas telas.

Ao contrário do igualmente conturbado Guerra Mundial Z, que deu a volta por cima conseguindo lucro após um orçamento inflado por problemas, 47 Ronins se tornou um dos maiores fiascos recentes da Universal em seu lançamento no fim do ano passado (sem exibição para a imprensa americana). A trama baseada em fatos reais dos 47 guerreiros sem mestre, que buscam vingança por sua morte, já foi levada ao cinema anteriormente em pelo menos outras seis produções. Essa é a primeira versão americana, transformada em um blockbuster recheado de efeitos.

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No filme Keanu Reeves é Kai, um garoto mestiço criado por um clã de samurais e por eles treinado em sua arte, na época do Japão feudal. O sujeito nunca é totalmente aceito por alguns integrantes devido a sua raça, mas desperta o interesse amoroso da filha do idoso líder do clã. Durante uma exibição para o Imperador, o treinamento de Kai já adulto é descoberto. Após um incidente, o líder do país ordena o Seppuku (técnica de suicídio) do chefe do clã por acreditar que este caiu em desgraça. Dessa forma, Kira (Tadanobu Asano), o vilão da obra, assume o poder guiado pela feiticeira maligna interpretada pela bela indicada ao Oscar Rinko Kikuchi (Babel).

O que aparenta é que 47 Ronins era um filme de samurais para ser levado a sério. Feito nos padrões de épicos como O Último Samurai (2003) e 13 Assassinos (2010). Talvez os executivos do estúdio tenham mudado bruscamente a proposta para ressoar mais próximo ao público jovem, dessa forma os elementos de fantasia foram introduzidos. Assim temos ogros em duelos, armaduras de samurais gigantes e vivas, bruxas, bestas colossais na floresta e monges mutantes ultra velozes. Nada contra o fato, já que superstição deste tipo está entranhada na cultura japonesa.

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O que causa estranhamento (para alguns) é esta mescla. Por um lado temos a história real de um importante fato cultural muito respeitado e levado a sério. E por outro temos o confronto final entre Reeves e a bruxa transformada em um dragão que parece ter saído diretamente de um vídeo game. Apesar disto, eu digo que existe bastante material aqui para satisfazer os dois lados da moeda. Existe inclusive mais seriedade e empenho em entregar um entretenimento que respeite seu histórico, do que efeitos e uma tendência pela fantasia.

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A trama (ou seu retalho) pode ser considerada simplista, mas ao menos não é tão incompetente e cheia de furos no roteiro quanto a de Frankenstein – Entre Anjos e Demônios (outro blockbuster recente feito nos mesmos moldes para o mesmo público). As cenas são violentas, mas não existe sangue por causa da censura. Mesmo assim o filme consegue ser muito menos visceral do que Wolverine – Imortal.

O visual é fantástico e o estreante Carl Rinsch (vindo de curtas) faz um bom trabalho levando em conta todas as dificuldades que enfrentou (fortes o suficiente para encerrar carreiras mal começadas). Para os que procuram entretenimento não muito profundo, porém acima do descartável, a produção é recomendada. Assim como em Vigaristas (2009), a presença da ótima Rinko Kikuchi é o que mais chama a atenção, mesmo tendo pouco tempo em cena como a bruxa que não tem nome e faz uso de um penteado a la Amy Winehouse.

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