A Netflix fez um anúncio um tanto quanto chocante e que, apesar de já ter sido ruminado nos últimos anos, havia sumido do mapa: a sequência da clássica e aclamada animação A Fuga das Galinhas. Coincidentemente, a plataforma de streaming confirmou o lançamento da continuação (em 2021) no aniversário de duas décadas do longa-metragem, o que o fez ganhar a atenção da geração que já havia se deliciado com a envolvente história de empoderamento, drama e ação – e também do novo público que, a cada dia, vem redescobrindo obras que merecem lugar especial em nossos corações.

No arco cronológico do cinema, o gênero em questão acabou se transformando em um recuo confortável para os outros tipos narrativos circundantes – principalmente o drama fantástico. Em outras palavras, é possível contar nos dedos as iterações animadas que fogem da zona de conforto e apresentam coisas novas. Com exceção da exemplaridade irretocável do Studio Ghibli e da conhecida Laika, ambos tendo nos entregado volumes de tirar o fôlego e com uma competência exímia, o restante dos estúdios rende-se ao fator mercadológico para dar vida a seus produtos – o que não é condenável, inclusive quando consideramos o infindável lobby da esfera do entretenimento. E, nesse seleto grupo, existe A Fuga das Galinhas, cujo lançamento em 2000 não poderia ser usado como reflexo melhor das polêmicas sociopolíticas atuais.

À prima vista, o próprio título parece nos guiar em uma direção errônea, talvez como marketing não premeditado para nos fazer assistir à obra e entender o que realmente vai acontecer. No final das contas, a obra britânica, seguindo os passos de tantas outras antes dela, cria uma análise antropológica sobre autoritarismo, fascismo e luta de classes, utilizando elementos científico-históricos para fazer o paralelo entre a execrável “mão invisível” do capitalismo e até mesmo aos campos de concentração nazistas da década de 1930. Entretanto, a pesada atmosfera é mascarada tanto com uma caprichosa trilha musical quanto o uso de animais antropomorfizados como protagonistas – deixando que as nuances falem por si mesmas em níveis diferentes com os pequenos e com os adultos.

Arquitetada pelas geniais mentes de Peter Lord e Nick Park, a trama é centrada em um grupo de galinhas que, sendo observadas pela obtusa e arbitrária Sra. Tweedy (Miranda Richardson), tentam fugir de seu galinheiro todo custo para começar uma nova vida para além das colinas – mas acabam sendo capturadas e mandadas de volta para a prisão. As coisas ficam mais complicadas quando a Sra. Tweedy, percebendo que a venda dos ovos não está rendendo lucros, decide comprar uma monstruosa máquina de fazer tortas e usar seus animais como recheio. No topo de tudo isso, temos a determinada Ginger (Julia Sawalha), uma jovem galinha que pretende salvar todas as suas colegas, dando ideia de construírem um avião improvisado para fugirem de uma vez por todas.



O fantástico e incrível cenário parece impalpável, mas é recheado de construções exuberantes com as mais chocantes críticas sobre praticamente todos os assuntos que consiga pensar. Para começar, temos a representação imagética do próprio galinheiro: afastando-se do convencionalismo com brutalidade, cada viveiro é erguido para nos relembrar dos encarceramentos austríacos da II Guerra Mundial, cujos muros altos e a vigilância constante cercavam os judeus, homossexuais e negros da Europa Ocidental. Aqui, as galinhas ocupam o lugar dos humanos e, sendo controladas pela Sra. Tweedy e pelo estúpido marido, são obrigada a se enfileirar e a botar ovos todos os dias para que não sejam degoladas e descartadas. Em um âmbito mais metafórico (e talvez não tão complexo assim, considerando as cartas de que o longa se vale), há a dicotomia funcional do operário e do patrão transferidas para as telonas em uma didática explicação que oscila entre o levante da minoria contra o opressor.

A Fuga das Galinhas ganha mérito ao homenagear o atemporal Fugindo do Inferno, drenando inspiração do épico drama bélico dirigido por John Sturges. Até mesmo os personagens nutrem de similaridades inegáveis e que aumentam a complexidade do que é apresentado aos espectadores: assim como os prisioneiros de guerra desta obra são versados em especialidades diferentes e unem esforços para criar um plano de escape, os galináceos também tem habilidades distintas e, apesar de conflitos internos e um certo ceticismo por parte das personagens mais rebeldes, elas também se juntam para arquitetar o escape. Ginger, assim como Big X (vivido por Richard Attenborough no longa de Sturges), é uma meticulosa e organizada líder cujo propósito já sólido sofre um desnivelamento na presença do irreverente Rocky (Mel Gibson), um ex-galo de circo egocêntrico que tem outros planos em mente – o equivalente ao personagem de Steve McQueen no drama de 1963.

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O roteiro cuida para que a massificação, espectro imprescindível para a pesquisa psicossocial, não seja o mote principal, mas exista enquanto premissa para unir as galinhas em uma comunidade que, com a força coletiva em detrimento do individualismo, consigam superar os obstáculos e alcançar a glória – no caso, fugir para uma paradisíaca ilhota em que possam viver livres, longe das amarras e das grades de seus antigos “lares” e, mais do que isso, longe da temível Sra. Tweedy. Não é surpresa que cada construção arquetípica represente um medo escondido ou um temor subconsciente da nossa própria sociedade, movimentando-se da frustração à passividade, do conformismo ao pessimismo.



A Fuga das Galinhas continua com um legado vivo e como uma das maiores análises sociológicas da história do cinema, servindo inclusive como resiliente estrutura para diversos artigos científicos que ousem explorar as sutilezas dessa obra-prima. Guiado pela perfeição saudosista do stop-motion e pelo propositalmente exagerado viés artístico de sua equipe técnica (a mesma responsável pela joia Wallace e Gromit), reassistir à animação é um convite singelo a descobrir mais e mais detalhes inteligentes sobre sua criação – e também sobre nós mesmos.

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