Recentemente, a atriz e diva californiana Kristen Stewart soltou uma declaração polêmica e também sincera: “Provavelmente eu fiz cinco filmes realmente bons… de uns 45 ou 50? Mas esses cinco são aqueles que eu olho e penso: nossa, aquela pessoa [o diretor] fez um belo trabalho do começo ao fim.” Sejamos francos, ela tem toda razão, basta uma rápida olhada em sua filmografia para notar uma enorme quantidade de bombas e vergonhas alheias, algo que é dito por ela mesma. E que não se resume apenas a saga Crepúsculo, risível por si só, mas que muita gente adora e foi um sucesso, eu me refiro a pérolas recentes como As Panteras (2019), Seberg Contra Todos (2019) e JT LeRoy (2018). Afinal, ela tem que pagar as contas daqueles vestidos caríssimos que usa, né?

Quase a mesma coisa acontece com o seu ex-namorado e parceiro de cena, Robert Pattinson, que precisou se afastar dos blockbusters e tentar a sorte fazendo várias produções independentes ou, no mínimo, autorais. E se engana quem pensa que Pattinson também manchou o seu currículo apenas com os Crepúsculos e suas continuações, alguns filmes que ele protagonizou, como Uma Vida Sem Regras (2008), Lembranças (2010) e Bel Ami – O Sedutor (2012), são absolutamente indefensáveis quando levamos para uma análise mais sóbria. No entanto o ator nunca deixou de ser comentado, tanto que, em 2010, foi incluído na revista Time como uma das ‘100 Pessoas mais Influentes do Mundo’.

Contundo, tanto Robert Pattinson quanto Kristen Stewart começaram, de maneira surpreendente, a construir uma carreira bastante promissora, recheada de grandes filmes que se beneficiaram bastante por suas performances e presença de cena. Pattinson já havia planejado esse movimento desde que começou a trabalhar com David Cronenberg (Marcas da Violência) em Cosmópolis (2012); e Stewart quando apareceu completamente diferente na adaptação do clássico literário de Jack Kerouac, Na Estrada (2012), feito pelo experiente cineasta brasileiro Walter Salles (Central do Brasil).



De lá pra cá vieram filmes interessantes e até obras marcantes que estiveram presentes em várias listas de melhores do ano. E é justamente o que faremos aqui, uma lista com cinco excelentes filmes dos dois atores mais comentados da atualidade, que devem crescer ainda mais com a chegada dos aguardadíssimos The Batman e Spencer, com Robert e Kristen, respectivamente – ela que pode faturar o Oscar interpretando a Princesa Daiana. Enfim, já falamos demais, vamos então a lista. Ah, espero que vocês também coloquem nos comentários os seus favoritos deles.

The RoverA Caçada (2014)

Aproveite para assistir:

Pattinson, pela primeira vez, mostrou que era muito mais que aquele vampirinho brilhante de Crepúsculo, entregando uma atuação corporal impressionante. A história se passa num futuro próximo, os habitantes australianos vivem uma rotina perigosa, onde a criminalidade impera. Com o passar dos anos, Eric (Guy Pearce) já perdeu quase tudo o que tem, e torna-se um homem duro e impiedoso. Quando sua última posse, seu carro, é roubado por uma gangue, ele vai atrás destes homens. No caminho, ele é obrigado e levar consigo Reynolds (Robert Pattinson), o ingênuo membro da gangue, abandonado por seus comparsas.



Personal Shopper (2016)

Depois de fazerem juntos o incrível Acima das Nuvens (que ainda será comentado aqui), a dupla de diretor e atriz, Olivier Assayas e Kristen Stewart, emendaram mais um filme, esse chamado de Personal Shopper. Um longa que retrata o vazio dar a entender que não será lá tão empolgante, e foi isso que aconteceu, o público se decepcionou. Porém Stewart brilha com uma atuação sutil e delicada, num filme que não tem pressa e traz elementos interessantes. Na trama Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como “personal shopper” para uma celebridade local. Maureen também tem uma capacidade especial de se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos. Muito curioso.

O Diabo de Cada Dia (2020)

O filme da Netflix O Diabo de Cada Dia se passa em vários recortes temporais, com a história que envolve Robert Pattinson e Tom Holland sendo a que fecha o filme. O Pattinson faz aqui talvez o seu personagem mais cruel e escroto, um pastor que se aproveita das jovens e virgens de sua congregação para abusa-las. Uma delas acaba ficando grávida e algo terrível está prestes a acontecer, e muito desse medo é passado pelos olhos de Pattinson, que está assustador em cena. Essa é uma adaptação do livro homônimo escrito por Donald Ray Pollock, onde o filme também possui uma estrutura dividida em capítulos, algo que pode funcionar no sentido de contar histórias distintas com alguns personagens que mal chegam a se conhecer. Ao mesmo tempo pode dar a impressão de que alguns pontos não se fecham de forma natural.

Certas Mulheres (2016)



Chamado no original de Certain Women, esse é um filme muito sensível sobre a mulher e os seus sentimentos a partir da perspectiva de três delas, que se descobrem e se revelam a cada momento através de histórias que nem chegam a se cruzar, mas que partem da mesma ideia. Em meio a tantas atrizes espetaculares, como Laura Dern e Michelle Williams, Kristen Stewart consegue marcar presença e até se destacar num dos papéis mais humanos de sua carreira. Nas vidas dessas mulheres, há pouca coisa em comum além do fato de que elas moram no estado de Montana. No entanto, as circunstâncias farão com que suas histórias se entrelacem de uma maneira íntima e profunda, ainda que distante, conforme buscam seus lugares no mundo.

Z: A Cidade Perdida (2016)

The Lost City of Z traz a história de um explorador do século XX, Percy Fawcett (Charlie Hunnam), que entra na mata amazônica em busca de uma cidade perdida e acaba vivendo uma espécie de odisseia, e não apenas com os perigos que ele vai ter que enfrentar, mas também com os delírios da sua mente. Aqui Robert Pattinson faz o papel de um dos ajudantes de Fawcett, que acaba também sofrendo com tormentos graves, e o ator consegue entregar a performance necessária pra essa obra sensorial do sempre ótima James Gray. Tudo isso acontece depois de Percy Fawcett ter sido ridicularizado pelo corpo científico que considera as populações indígenas como “selvagens”, mas Fawcett está determinado a retornar à sua amada selva e provar seu caso.


Café Society (2016)

Este não é lá um dos grandes filmes da carreira do veterano cineasta Woody Allen, que coleciona quase 50 longas em toda sua obra. Contudo é possível dizer que Allen, pra variar, enxergou em Kristen Stewart a atriz certa para trazer o ar de uma Greta Garbo mais contida. Kristen está à vontade em tela e deslumbrante com sua beleza delicada. A história se passa nos anos 30 e traz como protagonista Bobby (Jesse Eisenberg), um jovem aspirante a escritor, que resolve se mudar para Los Angeles. Lá ele deseja ingressar na indústria cinematográfica, mas encontra dificuldade, então, após um bom tempo de espera, Bobby consegue o emprego de entregador de mensagens. Enquanto aguarda uma oportunidade melhor, ele se envolve com Vonnie (Stewart), a secretária particular do seu tio. Só que ela, por mais que goste de Bobby, mantém um relacionamento secreto.

Bom Comportamento (2017)

É possível que Robert Pattinson tenha perdido uns bons quilos após fazer esse filme completamente surtado dos irmãos Benny e Josh Safdie, algo comum pra eles. Chegando ao que eu considero ser o seu limite, Pattinson não para um minuto em cena e consegue convencer o espectador do início ao fim. Vemos que o plano de Constantine Nikas, a quem Pattinson interpreta, era assaltar um banco e descolar uma boa quantia em dinheiro, mas nada sai como o planejado e seu irmão mais novo acaba sendo preso. Decidido a resgatá-lo, Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia. Simplesmente de tirar o fôlego.

Para Sempre Alice (2014)

Sim, Julianne Moore ganhou quase 40 prêmios por sua atuação no drama Para Sempre Alice, incluindo aí Oscar, Globo de Ouro, Spirit Award, BAFTA, SAG e Hollywood Awards, mas muito da sua grandiosa atuação depende do apoio de Kristen Stewart, que interpreta sua filha e mostra todo sofrimento de uma família que trata de uma pessoa que sofre de Alzheimer. As duas parecem muito conectadas em cena. Aqui temos a Dra. Alice Howland (Julianne Moore), uma renomada professora de linguística que, aos poucos, começa a esquecer palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer e a doença coloca em prova a força da sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), se fragiliza, ela e a filha caçula, Lydia (Kristen Stewart), se aproximam cada vez mais.

O Farol (2019)

O filme que tem como inspiração dois cineastas com obras distintas e ao mesmo tempo geniais, Bergman e Hitchcock, tem como destaque o todo. No entanto salta aos olhos o duelo de atuações entre William Defoe e Robert Pattinson, por suas interpretações viscerais e totalmente desprovidas de qualquer vaidade. Sim, eles são beneficiados por um texto brutal e quase primitivo, mas, diferente de Defoe, que já tinha feito muita coisa insana, Pattinson deixou todos atônitos por onde conseguiu chegar. O Farol se passa no início do século XX. Thomas Wake (Willem Dafoe), responsável pelo farol de uma ilha isolada, contrata o jovem Ephraim Winslow (Robert Pattinson) para substituir o ajudante anterior e colaborar nas tarefas diárias. Porém o acesso ao farol é mantido fechado ao novato que se torna cada vez mais curioso com este espaço misterioso e quase lovecraftiano.

Acima das Nuvens (2014)

Voltemos então para Acima das Nuvens, um filme que possui muitas camadas. Maria Enders, a famosa atriz interpretada pela magnifica Juliette Binoche, encontra-se em meio a um caos emocional que envolve um aspecto de nossas vidas sobre o qual não temos controle: o famigerado tempo. Prestes a voltar aos palcos na peça que a fez famosa vinte anos antes, Maria luta para aceitar e entender as nuances de sua nova personagem: Helena, uma executiva da sua idade que, por isso, reflete a realidade do envelhecimento. Nada disso teria a mesma força sem a ajuda de sua assistente, vivida por uma Kristen Stewart, na época, irreconhecível e bastante verossímil. Beirando sutileza em diversos momentos e ajudando Binoche na construção de uma personagem dramaticamente rica. Apesar de não ser protagonizado por Kristen, Clouds of Sils Maria (no original) ainda é o seu melhor filme e um dos seus momentos mais marcantes.

Não deixe de assistir: