Situada no sul de Minas Gerais, a Mostra de Fama, que acontece na cidade que empresta seu nome ao título do evento, celebra a produção nacional brasileira – em especial, os curtas-metragens. O evento teve início neste último dia 27 de agosto e estende-se até hoje, 30 de agosto, com o anúncio dos grandes vencedores – e o line-up contou com títulos que merecem menção.
No segundo dia do evento e primeiro dia oficial de exibição dos curtas, os participantes foram convidados não apenas a participar do Cineclube Gesto – Mostra Infantil, uma sessão especial voltada para as crianças – mas a uma mesa que reuniu o Fórum dos Festivais. O Fórum foi fundado com o objetivo de articular políticas públicas, promover a integração entre eventos audiovisuais e fortalecer a circulação do cinema brasileiro – reunindo representantes de festivais, mostras e eventos de mercado nacionais e internacionais. Durante a mesa, promoveu-se a interlocução estratégica entre o setor audiovisual, o poder público, instituições culturais e agentes do mercado, defendendo os festivais, como o de Fama, como janelas essenciais de difusão, formação, inovação e soberania audiovisual – principalmente em um momento em que o cinema brasileiro passa por uma segunda retomada após o sucesso incomparável de títulos como ‘O Agente Secreto’ e ‘Ainda Estou Aqui’, além de obras independentes que ganharam espaço nos circuitos mundiais.
Às 19h, ocorreu o início oficial da exibição dos curtas-metragens, com início da Mostra de Animação Nacional – facilmente uma das melhores ramificações de Fama. A sessão teve início com a animação futurista ‘Hacker Leonilia’, que se apoiou nas clássicas incursões do sci-fi para oferecer uma perspectiva um tanto quanto pessimista do futuro da humanidade em subjugação à tecnologia e ao uso indiscriminado de IA – tudo isso com um tempero do brasiliense Gustavo Fontele Dourado. Pouco depois, fomos apresentados a um curta sem falas intitulado ‘Esperança’, que foi seguido pelo ótimo ‘Quarentena’ (com traços que nos remetem à aclamada produção ‘Irmão do Jorel’); ‘Eu Volto pra Te Buscar’, ampliando-se em vários estilos de animação, trouxe uma perspectiva mais crítica ao nos levar à zona leste de São Paulo através do olhar de Roger Bravo; e, por fim, o tresloucado suspense surrealista ‘TV: Entreaberta’, facilmente uma das melhores entradas do festival.
O evento foi seguido da Mostra Mineira, com o drama jovem-adulto ‘Atrás e Além’ dando o pontapé inicial com uma estética dupla que explorou os altos e os baixos do relacionamento – trazendo Matheus Barreto Faria, Welberton Felipe Siqueira e Karol Rocha à frente do projeto. Logo depois, Marcelo Cesar, que estava presente na mostra, nos apresentou ao documentário ‘Entre o Ontem e o Sempre’, nos levando para a capital mineira e esquadrinhando uma narrativa de luta contra a dependência química. ‘O Caderno de Avenca’, dirigido e estrelado por Aisha Brunno, nos leva aos intrincados bastidores do show business ao trazer às telas Avenca, uma jovem atriz que, depois de sofrer assédio moral, abandona seu grupo e recomeça a vida ao cuidar da sobrinha – encontrando uma “luz no fim do túnel” através de um caderno de memórias que a faz superar as adversidades.
Tobias Rezende foi o próximo diretor a agraciar a programação com o breve ‘O Ingazeiro’. Estendendo-se por breves 4 minutos, o curta tem suas raízes fincadas no clássico ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski, e acompanha um fazendeiro que, após encomendar o assassinato de um rapaz, se vê num vórtice de temor e de tormento que se desenrola durante o cortejo fúnebre da vítima. A seção, então, se seguiu com ‘O Sagrado que Dança’, que conta a história de Maria Aparecida, uma figura emblemática na preservação da tradição do Congado na cidade de Passos, discorrendo sobre a religiosidade afro-brasileira, e encerra-se com ‘O Último’, de Rodrigo Brandão e Cassiel Weitzel.
A noite chegou ao fim com a Mostra Internacional, que entregou ao público presente mais cinco curtas – com três vindos diretamente da Itália, um da França e um do Irã. ‘L’Oro della lama: O Vale Dourado’ foi o primeiro filme italiano a ser exibido nas telas, abrindo espaço para que Francesco Carlo Lorenzini explorar o intrincado relacionamento entre dois irmãos que moram nos Alpes e que, em uma iminência inescapável, dão adeus um ao outro – e deixam que Riccardo Bissolo e Damiano Bissolo brilhem em seus respectivos papéis. A presença da Itália estendeu-se também para ‘Um Ensaio de Empatia’, de Jacopo Cullin, e ‘Quando o Céu Desabar’, de Jay Ruggiano, enquanto Fuad Lotfi deu as caras com ‘Colegas’, uma simples e honesta narrativa que acompanha um grupo de crianças que se reúne para jogar futebol – e que encontram um obstáculo quando dois jogadores precisam dividir um único par de óculos disponível.
A conclusão dessa leva de curtas-metragens se deu com ‘Cale-se’, de Alexis Sarremejane. A produção francesa, que nos leva de volta a 1992, é uma crítica ao capitalismo predatório e à submissão inconsciente do proletariado aos donos do meio de produção da maneira mais incisiva possível ao acompanhar um funcionário que está prestes a ter um surto psicótico após dias incessantes e repetitivos em uma empresa labiríntica e opressiva – mergulhando no melhor do drama e do suspense psicológico.


