“Tudo que você faz musicalmente deve provocar algo”.

A frase dita pela aclamada e icônica produtora, cantora e compositora Sophie Xeon, que faleceu tragicamente no último dia 30 de janeiro de 2021, é a que resume sua breve e explosiva carreira. Com apenas 34 anos, a artista conseguiu os mesmos feitos de lendas da música, como Madonna e Lady Gaga, ao transmutar a trajetória delimitada pela indústria fonográfica para um espaço de pura inovação e sensorialidade. Em outras palavras, a performer conhecida simplesmente como SOPHIE utilizou sua crescente voz no cenário do entretenimento para entregar algo além das meras fabricações – utilizando maniqueísmos imaginativos para criticar o próprio ato de criar.

SOPHIE pertence a um estilo artístico conhecido como PC music. A princípio construído como uma marca e um coletivo fonográfico por A.G. Cook, ela se transformou em um movimento de contracultura que retoma os moldes do rap, do hip hop e, mais anteriormente, do blues, como uma forma de resposta aos convencionalismos contemporâneos. Desde seu nascimento, o PC music ajudou a colocar nos holofotes nomes como Hannah Diamond e Charli XCX, afastando-se do que outrora conhecíamos como pop e como eletrônica. Afinal, a principal ideia por trás dessa revolução instrumental é abraçar uma estética superconsumista, exagerada e aceleracionista, incorporando elementos da cibercultura e controversos, como sons de computador, sintetizadores e aspectos industriais.



Envolvendo-se com pessoas com quem realmente se conectara, ela estava “animada em fazer parte de algo que se afastava das constantes reciclagens do gênero dance da época”, em suas próprias palavras. Pela recepção ambivalente por parte dos especialistas em música do PC music, SOPHIE e tantos outros artistas permaneceram “às escondidas”, trabalhando em incursões sonoras bastante diferentes até conseguirem angariar a fidelidade de um público sedento por novidades. Mais do que isso, ela ficou bastante agradecida pela abertura de um espaço bem maior às mulheres do que o pop, por exemplo, cujo território foi pejorativamente caracterizado como um “clube dos meninos” por Gaga em 2015. Afinal, Xeon, como uma mulher trans, não se via representada naquilo que ouvia ou assistia, tornando-se, sem quaisquer intenções, uma das pioneiras nessa necessária militância.

Sua presença ganhou notoriedade após o lançamento de singles como “Bipp” e “Lemonade”, que integraram diversas listas de fim de ano e de década pela arquitetura bizarra e refrescante em uma época em que o electro-dance dominava as paradas e as rádios. Em entrevistas, algo raro da própria persona de SOPHIE em virtude de sua reclusão opcional e sistemática, ela deixava claro que tecia narrativas do zero, recusando-se às limitações impostas pelo mercadológico e expandindo as ousadias para qualquer coisa que se lançasse a produzir. Não é surpresa que, em sua brevíssima carreira, tenha colocado sons semelhantes a “látex, balões, bolhas, metal, plástico e elástico” em convergências e divergências sinestésicas e chocantes – motivo pelo qual foi rechaçada pelos engessados ritmos dos anos 2010.

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Isso não a impediu de ascender a uma carreira de extremo sucesso que lhe rendeu uma indicação ao Grammy na categoria de Melhor Álbum Dance – a primeira artista trans a conseguir tal feito e a terceira a ser relembrada na premiação ao lado de Teddy Geiger e Jackie Shane. A obra que lhe garantiu aclame universal por parte da crítica e uma legião de fãs que devem revisitá-la após o trágico falecimento é ‘Oil of Every Pearl’s Un-Insides’. Lançada em 2018, as nove faixas não se comportam do jeito esperado, mas erguem-se em uma declaração vanguardista que reflete um mundo em decadência – decadência essa que reflete a inevitabilidade da libertação e da expressão da arte.

Colocar tanto a performer quanto sua magnum opus em um gênero é querer limitá-la a rótulos, algo que definitivamente não pode existir quando analisamos sua discografia: as dissonâncias cosmológicas dos sintetizadores e do industrial pop servem de base para declamações intimistas, como “It’s Okay to Cry”, enquanto a impactante des-organização proposital de “Whole New World/Pretend World” rende-se ao glitch e à maximização eletrônica conhecida como hyperpop; “Immaterial”, uma alusão às incursões oitentistas e noventistas, já se rende às peculiaridades do avant-pop à medida que critica e a reutilizada, numa desconstrução experimental e envolvente; mesmo “Infatuation”, que flerta com baladas, é diferente daquilo a que estamos acostumados, talvez tentando explicar o que significa estar apaixonado por alguém ou alguma coisa, talvez mostrando que tais explanações não são necessárias.



SOPHIE não deixou de aparecer no escopo mainstream; afinal, foi uma das compositoras e produtoras da reinvenção de Madonna em “Bitch I’m Madonna, do álbum Rebel Heart (2015), que alcançou o primeiro lugar do Hot Dance Club Songs. A artista foi responsável por recolocar a rainha do pop em um patamar de abertura às tendências da atualidade, afastando-se de suas inflexões anteriores e definitivamente reutilizando sua imagem como choque – apesar da recepção mista. Pouco depois, trabalharia na faixa-título de Vroom Vroom, EP de Charli XCX, com quem colaboraria diversas vezes. Ela também emprestou seus dotes a para “Nights With You” e ao rapper Vince Staples para o álbum Big Fish Theory. Ela também produziu algumas canções para o aclamado Chromatica, de Gaga, mas as iterações infelizmente não entraram para o corte final do CD – nos levando a imaginar o que ela havia criado.

SOPHIE nos deixou muito cedo, isso é inegável. Felizmente, não nos deu adeus antes de deixar um infindável legado para trás, que a coloca numa A-list sem precedentes e que será redescoberto com o passar dos anos. À frente de seu tempo e subestimada por muitos nomes, ela, a passos curtos e poderosos, vinha deixando sua marca no mundo sem se preocupar em pertencer a qualquer grupo – e é por esse motivo que sua despedida deve ser honrada.

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