Sem filmes brasileiros nas competições oficiais, Marinheiro das Montanhas é um dos dois filmes nacionais presentes no Festival de Cannes 2021, realizado entre os dias 6 e 17 de julho. Neste 9 de junho, o diretor Karim Aïnouz apresentou para o mundo o documentário sobre a sua primeira ida a Argel, cidade de nascimento do seu pai, em busca de suas origens a partir da narrativa do romance entre seu pai argelino e sua mãe cearense.

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Discurso de abertura



Antes de começar a sessão, Karim Aïnouz fez um discurso emblemático sobre a atual situação da cultura e da política do Brasil, em inglês. Veja abaixo, completo (traduzido livremente pela autora do artigo): 

Obrigado ao festival pelo convite novamente. Algum tempo atrás, durante a pandemia, tive receio que momentos como este de compartilhar um filme no cinema tenham ficado no passado. Estes momentos tão essenciais juntos, rindo, chorando, vibrando, toda a mágica que um filme provoca. A felicidade de estar aqui esta noite é ainda maior. Marinheiro das Montanhas é um filme íntimo, talvez o meu primeiro filme. O filme que sempre sonhei em realizar e me dei conta alguns anos atrás. A história de amor entre os meus pais esteve na minha imaginação desde que me entendo por gente. De alguma forma, a vontade de torná-la um filme foi o que me trouxe ao cinema.
Devo lembrar que agora somos centenas de milhares de brasileiros mortos devido a absoluta negligência do governo na condução da pandemia (aplausos). A democracia brasileira está em situação crítica, respirando com ajuda de aparelhos. Parece que falar do Brasil hoje é como falar como um ente querido entre a vida e a morte. Ações urgentes são necessárias para parar este governo, em que uma das principais características é destruir e matar deliberadamente. Além do número de mais 500.000 mortes por conta da Covid-19, existem outras muitas vidas perdidas em resultado direto dessa administração genocida.
Como resultado deste governo, arte, ciência e universidades públicas são os primeiros a serem afetados. Uma enorme cadeia produtiva de cinema no Brasil está lutando para sobreviver neste cenário. A produção cultural ao longo do país está quase totalmente paralisada por conta de atos calculados de destruição impostos pelo governo.
Ao realizar o Marinheiro das Montanhas estive em contato com a atmosfera dos anos 1960, tanto na revolucionária Argélia, quanto no Brasil, em resistência à ditadura. Não estou falando sobre nostalgia, mas sobre vitalidade, sobre a capacidade de sonhar. Voltar nesses momentos, mostrou-me como a possibilidade de pensar sobre o futuro não pode ser negada. Espero que esse filme possa nos ajudar, de alguma forma, a entrar em contato com essas necessidades. Precisamos sonhar com nosso futuro novamente, com alegria e fúria”. 

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Manifestação contra Bolsonaro



Logo depois da salva de aplausos e ainda na subida dos créditos com as luzes apagadas, um grupo de pessoas se reuniu em frente à tela com uma faixa escrita: “Brasil: 53.000 mortos fora gangster genocida”. A palavra “gângster” faz menção direta à fala de Spike Lee, presidente do júri deste ano, na coletiva de abertura do festival, na última terça-feira, dia 6 de julho. O diretor norte-americano disse: “esse mundo é dirigido por gângsteres“, o qual ele citou o ex-presidente Donald Trump, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o russo, Vladimir Putin

Durante a extensão da faixa, o grupo gritava: “Fora Bolsonaro!”, acompanhados por pessoas presentes na plateia. Outro grupo levou bandeiras da Argélia e de Kabylie, em homenagem ao tema do filme que traça uma ponte entre os dois países, Brasil e Argélia, onde a ganância de poucos poderosos deixa milhares na pobreza. Os paralelos são desenhados entre os período da ditadura militar, no Brasil, e da guerra de independência da Argélia, contra a colonização da França, ambos acontecimento tiveram ápice no início da década de 1960. 

Vale lembrar

Esta semana, a Variety anunciou o primeiro passo do diretor brasileiro em direção a Hollywood. Renomado por filmes como Praia do Futuro (2014) e A Vida Invisível (2019), Aïnouz escolheu Michelle William (Depois do Casamento) para protagonizar seu primeiro filme em língua inglesa. Ela viverá Katherine Parr, a sexta esposa do rei Henrique VII, no projeto intitulado como Firebrand. De acordo com o site norte-americano, a produção começa no início de 2022 no Reino Unido.

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