As tendências são movimentos muito curiosos. É só percebermos que algo deu certo, que lá estamos para fazer o nosso nos mesmos moldes. Apesar do esforço, não adianta, é o público quem dita o que funciona e o que não funciona e sempre será assim. Por mais que executivos de marketing enfiem por nossas goelas abaixo certos produtos, ele só será de fato aceito se cair no gosto popular. Dito isso, a qualidade em si também não importa muito, é só percebermos o sucesso de certos fenômenos midiáticos, digamos, duvidosos.

Sendo assim, uma curiosa tendência tomou forma no início dos anos 2000 e continua rendendo frutos até hoje. Estou falando dos chamados “filmes versus”, nos quais dois ícones da cultura pop são colocados para se digladiarem nas telonas. O mais recente exemplar se mostrou um dos blockbusters mais bem sucedidos deste início de 2021, trata-se de Godzilla vs Kong. Mais do que um duelo entre personagens queridos do grande público, o objetivo de tais produções é integrar duas franquias bem sucedidas visando um sopro para reenergizá-las, ou simplesmente lucrar mais ao unir “impérios milionários”.

No passado, tais filmes “versus” não se mostraram uma fonte muito rentável, mas o resultado mais que positivo de Godzilla vs Kong pode vir a animar novamente os produtores para novas uniões de marcas pré-estabelecidas muito famosas. Confira abaixo alguns dos encontros mais icônicos entre franquias do cinema.

Freddy vs Jason



Lançado em 2003, este pode ser considerado o “marco zero” para o subgênero. Durante a década de 1980, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo reinaram como as franquias de terror adolescente mais adoradas e bem sucedidas do cinema. De fato, seus filmes eram lançados quase todo ano naquela época. Mas quando chegaram os anos 90, o suco dos filmes slasher já havia sido todo espremido, sobrando apenas exemplares minguados e longe do que haviam sido um dia. Justamente por isso, ainda nos anos 90, é que começou a ser planejado o primeiro encontro entre franquias do cinema.

Tudo aconteceu após a Paramount vender os direitos de Sexta-Feira 13. O estúdio já havia produzido oito filmes com o selo, e após Jason Ataca em Nova York (1989) a empresa percebia que a propriedade já não tinha mais valor para eles. Assim, para o resgate chegava a New Line Cinema, a casa erguida por Freddy Krueger e A Hora do Pesadelo. Com os direitos de Jason agora nas mãos do mesmo estúdio, era inevitável o que produtores vinham sonhando há tempos: um único filme com os dois psicopatas imortais. Mas veja bem, devido a problemas de direitos autorais envolvendo os criadores, a New Line adquiria somente o personagem Jason e não o título Sexta-Feira 13 – assim, tratava de lançar Jason Vai para o Inferno (1993).

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E foi justamente durante a produção de Jason Vai para o Inferno, que os realizadores decidiram aguçar seu público com uma última cena (algo que seria exibido numa cena pós-credito na atualidade) em que a mão de Freddy buscava a máscara de Jason e a levava ao inferno. Parecia batata que o próximo passo em ambas as franquias seria o encontro dos maníacos. Mas não foi. A New Line lançava no ano seguinte a volta de Wes Craven para um capítulo metalinguístico que soa mais como uma grande brincadeira com a mitologia do que um capítulo da franquia em si: O Novo Pesadelo (1994). Assim, o encontro dos monstros ocorreria, devido a muitos embargos, somente dez anos depois. O resultado de Freddy vs Jason, ao menos financeiramente, agradou. Mesmo assim, os produtores ainda não tiraram do papel uma continuação e optaram por seguir com refilmagens de ambas as franquias.

Alien vs Predador



Sabemos que o encontro de figuras icônicas no cinema não é novidade e já ocorre desde a época dos monstros clássicos da Universal, em filmes em preto e branco durante a década de 1940. Lá, Drácula, o Lobisomem e o monstro de Frankenstein, em especial, se digladiavam em diversas produções. O que importa é que nenhum deles era chamado “Drácula vs Frankenstein”, por exemplo, enfatizando nosso ponto.

No ano seguinte de Freddy vs Jason, chegava um novo exemplar dos filmes “versus”. Esse, saído de um movimento na cultura pop que já havia criado quadrinhos e inclusive jogos de vídeo game para compor sua mitologia. Alien – O Oitavo Passageiro (1979), revolucionou os filmes de terror e ficção científica na década de 70. Porém, com Aliens – O Resgate (1986), a marca ganhava ares de superprodução pop. O sucesso grandioso do filme talvez tenha sido inspiração para um novo longa de ação com um alienígena e soldados armados até os dentes, este passado na Terra. O Predador (1987) foi muito comparado por críticos em seu lançamento a uma mistura entre Aliens e Rambo. Fez sucesso e gerou uma continuação três anos depois. E justamente em Predador 2 (1990) ocorria a referência que fez os fãs aguarem pelo encontro dos extraterrestres mais mortíferos do cinema. Dentro da nave do vilão do filme, ao desfecho, o público pôde notar a o crânio do Xenomorfo colecionado pelo Predador.

O encontro das criaturas interplanetárias num aspecto legal era mais viável, já que ambas as franquias Alien e Predador estavam nas mãos do mesmo estúdio, a 20th Century Fox – e hoje estão nas mãos da Disney. Mesmo assim, após a porta escancarada para tal encontro, o estúdio não se animou e resolveu lançar duas continuações para o filme com Sigourney Weaver, uma em 1992 e outra em 1997. Foi só depois, em 2004, que o encontro finalmente seria viabilizado. No entanto, sem qualquer envolvido nas produções anteriores disposto a embarcar, além da falta de personagens humanos interessantes, o resultado de Alien vs Predador (2004) não animou muito. Apesar disso, três anos depois gerou uma continuação, de resultado ainda mais problemático. Assim, a opção foi por tentar reinventar as franquias de forma separada novamente.

Batman vs Superman 

Este é um filme que já deu tanto o que falar, mas parece que sempre será um tópico polêmico. O primeiro crossover envolvendo o Superman, na verdade, ocorreria ainda na época de Christopher Reeve, com o encontro do herói com sua prima Supergirl no filme solo dela de 1984. O resultado de Superman III (1983), no ano anterior, não havia sido o esperado, assim os produtores davam espaço para ampliar a mitologia. O tópico escolhido foi a loirinha dona dos mesmos poderes do maior herói de todos e para introduzi-la em seu primeiro longa, Reeve a daria as boas-vindas.

Em cima da hora, Christopher Reeve desistiu de sua participação em Supergirl, mas os filmes ainda assim existem dentro do mesmo universo. Podemos ver imagens do Superman nas formas de Reeve ao longo da projeção e o mesmo Marc McClure é quem interpreta o fotógrafo Jimmy Olsen em ambas as produções. Mais tarde, em 1997, o Superman é citado pelo Batman de George Clooney em Batman & Robin. A ideia era por um encontro após o lançamento do filme de Joel Schumacher. Mas bem, vocês sabem no que resultou aquele filme. Se as duas franquias tivessem seguido de forma inicialmente planejada, poderíamos ter tido o encontro entre o Batman de Michael Keaton e o Superman de Christopher Reeve. Já imaginou? Era o que todo fã queria. Ao invés o que ganhamos foi somente o encontro dos atores numa comédia romântica de 1994 intitulada Apenas Bons Amigos.

Aqui também temos o caso das duas marcas pertencendo ao mesmo estúdio, a Warner. E a ideia de juntar os maiores heróis da casa era sim uma realidade, durante anos gerando burburinhos e rascunhos do projeto. Em 2007, dez anos depois de Batman & Robin, uma nova provocação era proposta pela Warner no filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, onde um logo do filme “fictício” aparecia em cartaz num cinema abandonado. Praticamente dez anos após a brincadeira foi quando ganhamos de verdade o tão aguardado Batman vs Superman. Na época, Christian Bale havia se despedido do personagem, mas durante um tempo especulou-se um possível retorno do ator. Até mesmo Michael Keaton foi cogitado para retornar, mas quem terminou com o papel foi mesmo Ben Affleck enfrentando o Superman de Henry Cavill. Keaton finalmente voltará ao papel do Homem Morcego no vindouro filme do Flash (2022).



O Chamado vs O Grito

No mesmo ano em que Superman e Batman se enfrentavam gerando muita polêmica num filme de Zack Snyder (que terminou não atingindo o esperado), outras marcas muito famosas se colidiam num filme. Essas, dois ícones do terror japonês. Para a grande maioria do público, o conhecimento em relação aos itens citados vêm das refilmagens hollywoodianas. O Chamado (2002) foi um sucesso grandioso protagonizado por Naomi Watts e teve duas continuações. O Grito (2004) veio no embalo dois anos depois, protagonizado por Sarah Michelle Gellar e gerou duas sequências e um remake americano. Ambos, no entanto, iniciaram suas trajetórias lá na terra do sol nascente.

Parte de um movimento que viu surgir no Japão filmes sobre assombrações e casas amaldiçoadas, o primeiro a chegar foi Ring: O Chamado (1998), sobre a investigação de uma fita maligna e a lenda de uma menininha trágica que surgia para levar sua alma. A Sadako original dava lugar para a Samara no remake. Já quando o remake americano de O Chamado estreava, no Japão era a vez de Ju-On (O Grito) ser lançado, que falava sobre a história de espíritos vingativos residindo numa casa. Nesta história, a principal assombração era a atormentada Kayako. Pois bem, estimulados por uma brincadeira de primeiro de abril, os produtores realmente levaram a sério a ideia de colocar os fantasminhas das moças sobrenaturais para se enfrentar num crossover. Nessa nem mesmo um exorcista ou os caça-fantasmas salvam.

Godzilla vs Kong

O mais recente exemplar deste “subgênero” é a convergência de três filmes anteriores do chamado universo dos monstros gigantes da Warner. Godzila vs Kong dá sequência à narrativa iniciada em 2014, com o segundo remake americano de Godzilla (após uma versão não muito querida de 1998). Depois vieram Kong: Ilha da Caveira (2017) e Godzilla: Rei dos Monstros (2019). Voltando ainda mais no tempo, o primeiro a surgir em cena foi o gorilão nos primórdios de Hollywood, protagonizando seu próprio filme em preto e branco, e stop-motion, ainda em 1933. A história trágica do animal gigantesco tirado de seu habitat e levado para ser exibido ao público possui todo um viés ecológico e uma mensagem humanitária que ecoa até hoje.


Godzilla, segue na contramão desta proposta. Criado como crítica devido ao medo de uma guerra atômica, Godzilla é um lagarto radioativo surgido através de testes com bombas no Japão. Curiosamente, o nome Gojira no original significa uma mistura entre as palavras japonesas para baleia e macaco. Parece que os monstros gigantes não são tão diferentes assim. Foi em 1954 que o primeiro filme da criatura escamosa chegava aos cinemas, dono de um cunho sócio-político forte por trás de sua fachada de entretenimento e cinema de monstro. A opção dos realizados, ao contrário do stop-motion americano, foi por vestir um ator num traje de borracha da criatura. Marca registrada em diversas produções, até atuais, com o lagartão.

Godzilla vs Kong se tornou o verdadeiro sucesso destino tipo de filme versus, e pode abrir portas para novas investidas como nunca antes. Mas o filme lançado em 2021 não foi verdadeiramente o primeiro encontro destes titãs. Voltando para 1963, numa produção japonesa do mesmo estúdio que criou o personagem em 1954, era King Kong que ganhava protagonismo, ao menos no título. King Kong vs Godzilla mantém a origem das criaturas fiel, mas se passa no Japão. É dele a cena que já virou meme em que o gorilão enfia uma árvore goela abaixo do lagarto. Momento que tenho certo que muitos queriam ver também no duelo moderno entre os gigantes, e que de certa forma foi homenageado na nova produção.

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