A 79ª edição do Festival de Cannes consagrou uma das vitórias mais debatidas dos últimos anos ao entregar a Palma de Ouro ao cineasta romeno Cristian Mungiu por Fjord. O júri presidido por Park Chan-wook destacou a “coragem moral” do filme e sua capacidade de provocar debates sem recorrer a simplificações ideológicas. A escolha confirmou o tom político e identitário desta edição, marcada por obras sobre memória, pertencimento e choque cultural.
Estrelado por Renate Reinsve e Sebastian Stan, o longa acompanha uma família cristã conservadora romena que tenta reconstruir a vida na Noruega, mas acaba enfrentando hostilidade em uma sociedade progressista incapaz de aceitar seus valores culturais e religiosos.

Ao inverter o perspectivas tradicionalmente adotado pelo cinema europeu contemporâneo, Mungiu constrói um drama moral provocador sobre intolerância ideológica, pertencimento e os limites do progresso quando este passa a rejeitar diferenças em nome da uniformidade social. Sem transformar seus personagens em mártires nem em vilões absolutos, Fjord aposta justamente na ambiguidade humana para questionar como sociedades consideradas abertas podem também produzir exclusão.
A vitória marca a segunda Palma de Ouro da carreira de Cristian Mungiu — a primeira foi por 4 meses, 3 semanas e 2 dias, em 2007 — e reforça o retorno do diretor ao centro do cinema político europeu. Conhecido por retratar conflitos éticos com rigor quase documental, o cineasta entrega aqui uma obra menos austera emocionalmente, porém igualmente afiada em sua crítica social. A obra também foi vencedora do prêmio da FIPRESCI, a Federação Internacional de Críticos de Cinema.
Noite histórica marcada por três empates
A cerimônia também ficou marcada por um feito inédito: três empates em categorias principais, algo sem precedentes na história recente do festival. O primeiro deles ocorreu na categoria de melhor interpretação feminina, entregue às atrizes Virginie Efira e Tao Okamoto por suas atuações em De repente (Soudain/ All of a Sudden) dirigido por Ryûsuke Hamaguchi.

Emocionada, Virginie foi às lágrimas ao escutar o anúncio e destacou a beleza da amizade feminina retratada no longa. “Nunca vimos duas amigas assim desde Thelma & Louise”, afirmou a atriz, em referência ao clássico de 1991 de Ridley Scott, homenageado no cartaz oficial desta edição do festival.
Outro momento de grande emoção aconteceu com o prêmio de melhor interpretação masculina, concedido conjuntamente aos jovens Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por Covarde (Coward), do diretor belga Lukas Dhont.

O filme retrata um grupo de soldados que organizava apresentações de dança, teatro e música para entreter companheiros durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos interpretavam papéis femininos sob um acordo tácito de cumplicidade entre os militares. Contudo, um jovem tímido acaba desenvolvendo sentimentos mais profundos por um dos performers, em uma narrativa sensível sobre desejo, identidade e afeto em tempos de guerra.
O empate triplo que consagrou estilos opostos
O terceiro empate da noite foi ainda mais surpreendente: duas produções dividiram o prêmio de melhor direção. A dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como “Los Javis”, venceu por La Bola Negra, obra poética inspirada em uma peça perdida de Federico García Lorca. O longa utiliza a reconstrução artística como instrumento de defesa da liberdade sexual e da memória cultural.

Em contraste de estilo, o polonês Pawel Pawlikowski também foi premiado por Fatherland, austero drama em preto e branco sobre o retorno do escritor Thomas Mann à Alemanha dividida após 16 anos de exílio nos Estados Unidos.
Apesar das diferenças formais entre os filmes, ambos compartilham o interesse por grandes figuras literárias e pelas marcas deixadas pelo exílio, pela repressão e pela identidade europeia.

Barbra Streisand recebe Palma de Ouro honorária
Após as homenagens a Peter Jackson e John Travolta ao longo desta edição, Barbra Streisand tornou-se a terceira personalidade a receber uma Palma de Ouro honorária em Cannes 2026. A artista, porém, não pôde comparecer à cerimônia devido à recuperação de uma lesão no joelho. Em comunicado enviado aos jornalistas, Streisand agradeceu a homenagem e lamentou sua ausência:
“Sob orientação dos meus médicos, enquanto continuo me recuperando de uma lesão no joelho, infelizmente não posso comparecer ao Festival de Cannes este ano. Estou profundamente honrada em receber a Palma de Ouro honorária e estava ansiosa para celebrar os filmes extraordinários desta 79ª edição.”
Lista completa dos vencedores da 79ª edição do Festival de Cannes
Competição Oficial
Palma de Ouro
Fjord, de Cristian Mungiu
Grande Prêmio do Júri
Minotaure, de Andreï Zviaguintsev
Prêmio do Júri
L’Aventure rêvée (Das geträumte Abenteuer), de Valeska Grisebach
Melhor Direção (empate)
Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra
Pawel Pawlikowski, por Fatherland
Melhor Roteiro
Emmanuel Marre, por Notre Salut
Melhor Atriz
Virginie Efira e Tao Okamoto por De repente (Soudain/ All of a Sudden)
Melhor Ator
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por Covarde (Coward)
Curtas-Metragens
Palma de Ouro de Curta-Metragem
Para los Contrincantes, de Federico Luis
Un Certain Regard
Prêmio Un Certain Regard
Everytime, de Sandra Wollner
Prêmio do Júri
Elefantes na névoa, de Abinash Bikram Shah
Prêmio Especial do Júri
Iron Boy, de Louis Clichy
Melhor Ator
Bradley Fiomona Dembeasset por Congo Boy
Melhor Atriz
Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas por Siempre Soy Tu Animal Materno
Caméra d’Or
Melhor Primeiro Filme
Ben’imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo
La Cinef
Primeiro Prêmio
Laser-Gato, de Lucas Acher (NYU, EUA)
Segundo Prêmio
Silent Voices, de Nadine Misong Jin (Columbia University, EUA)
Terceiro Prêmio (empate)
Aldrig Nok, de Julius Lagoutte Larsen (La Fémis, França)
Growing Stones, Flying Papers, de Roozbeh Gezerseh e Soraya Shamsi (Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf, Germany)




