Há exatos 10 anos, os cinemas brasileiros paravam para receber a estreia de um dos filmes mais aguardados daquele ano: Capitão América: Guerra Civil. Lançado em 28 de abril de 2016, o longa estreou primeiro no Brasil, em uma estratégia adotada pela Marvel focando o público brasileiro, que pôde assistir essa aventura antes mesmo do que os fãs dos Estados Unidos, país cuja estreia ocorreu em 1º de maio daquele ano.

Adaptando uma das sagas mais populares das histórias em quadrinhos da Marvel, o longa tinha a missão de conseguir condensar mais de 120 fascículos que envolveram todos os títulos disponíveis da empresa entre 2006 e 2007. Na trama, um grupo de jovens heróis que buscavam viralizar seus atos de heroísmo em um reality show acabaram ocasionando a explosão de uma escola. Diante da tragédia, a sociedade chegou ao limite com os super-heróis e deu início a uma série de manifestações para que eles fossem responsabilizados por suas ações. Para isso, o governo americano estabeleceu uma lei de registro. Os super-heróis deveriam revelar suas identidades secretas e assinarem como funcionários do governo, recebendo salário e atuando sob ordens das autoridades, como policiais superpoderosos.
A medida é encabeçada pelo Homem de Ferro, que patrocina a ação enquanto o governo caça os heróis que se recusarem a assinar o registro. Do outro lado, o Capitão América lidera uma rebelião contra a medida autoritária. Ele defende que o heroísmo não deve seguir um partido, mas sim o que é certo. Diante dessa cisão, heróis que eram amigos acabaram virando inimigos. Em uma das mais influentes sagas das HQs, personagens morreram, um clone do Thor apareceu e até mesmo a ideia da invasão Skrull na Terra começou a ser plantada. Em meio a esse embate de gigantes, o Homem-Aranha virou personagem central da disputa. Após aceitar revelar sua identidade secreta publicamente – na época, ele era um dos heróis que mais levava a sério essa questão -, ele passou a ser um tipo de garoto propaganda do registro. Porém, ele logo começou a sentir na pele as consequências de seus atos. Mary Jane ameaçada e Tia May baleada por todos saberem onde os entes queridos do herói moravam foram algumas delas. Esse evento, inclusive, daria rumo à infame saga “Um Dia a Mais“. Diante dessa nova realidade, Peter percebe que fez besteira e muda de lado. Ele acaba sendo atacado pela milícia de Stark, que o deixa quase morto nos esgotos. Ele sobrevive graças ao Justiceiro, que o leva para cuidados com o “Team Cap”. O resultado dessa saga são diversos combates históricos e uma guerra que termina com o Capitão América se rendendo ao ver o que essas batalhas estavam fazendo com o cidadão comum.

Fato é que a versão dos quadrinhos deixou marcas históricas. E mesmo com a rendição do Capitão, o tempo provou que ele estava certo, já que o próprio viria a ser assassinado na escadaria de seu julgamento e personagens importantes pró-registro viriam a se revelar Skrulls na saga seguinte. Além disso, vilões como Norman Osborn conseguiram status de herói – ele assumiu a armadura do Patriota de Ferro -, mostrando que os temores do Capitão estavam certos.
Aí veio a grande questão: como adaptar uma saga tão marcante e poderosa, que tomou literalmente todas as publicações da casa por sete meses em um filme de 2h de duração? A ideia da casa era conseguir criar um evento tão marcante e relevante para a linha do tempo do Universo Cinematográfico Marvel quanto o evento foi para os quadrinhos. Para isso, a Marvel adaptou os sete capítulos principais da saga, deixando muita coisa de fora. Além disso, personagens centrais da trama foram substituídos em tela. Por exemplo, em vez do Homem-Aranha mudar de lado, o filme mostrou a Viúva Negra (Scarlett Johansson) traindo o ‘Time Stark’. Outro ponto que trouxe bastante preocupação para a Disney foi tentar replicar essa campanha do quem está certo: Time Capitão ou Time Stark?

Por incrível que pareça, apesar das diferenças gritantes, a campanha funcionou. No entanto, mais do que uma vertente ideológica, a disputa dos “times” acabou sendo muito definida pelos membros de cada equipe. O Time Stark foi formado por Homem de Ferro, Máquina de Combate, Pantera Negra, Visão, Viúva Negra e o estreante Homem-Aranha. Do lado do Capitão América, Falcão, Soldado Invernal, Homem-Formiga, Feiticeira Escarlate e Gavião Arqueiro compuseram o selecionado. Foi uma disputa desleal, falando em níveis de poderes, mas deu resultado. As redes sociais se dividiram sobre quem supostamente estaria certo neste embate, que foi adaptado de forma menos racional e mais passional.
O filme adaptou a tragédia com uma missão dos Vingadores no continente africano, onde um deslize da Feiticeira Escarlate acaba criando mais um conflito internacional. E após os heróis terem explodido a cidade europeia de Sokovia em Era de Ultron, a situação estava realmente crítica para eles. Para piorar, durante a votação do tratado que colocaria os heróis sob controle do governo, um ataque supostamente atribuído ao Soldado Invernal explodiu uma conferência da ONU, vitimando o pai de T’Challa, o rei T’Chaka. Com o acordo aprovado, o governo passa a caçar o Soldado Invernal, o que toca numa questão muito sensível ao Capitão América. Ele alega que seu motivo para não concordar com o acordo é entender os perigos que dar poder total a governos pode ter. Já Stark começa a sentir o peso de suas ações, em mais uma tentativa do MCU em transformá-lo em um herói responsável – somente para que ele viesse a esquecer dessas responsabilidades nos longas seguintes, como era feito até o momento.

Se o filme seguisse esse embate ideológico até o fim, seria sensacional, porque Steve Rogers realmente tinha motivos para não confiar no governo. Ele tinha acabado de sair dos eventos de Capitão América: O Soldado Invernal (2014), em que descobriu que a organização nazista da H.I.D.R.A. havia se infiltrado, ao longo de cinco décadas, na S.H.I.E.L.D. e nas principais autoridades de governança dos Estados Unidos. Como confiar que isso não continuaria acontecendo? Como garantir que os heróis não passariam a atuar pelos interesses dos vilões?
Pelo lado do Stark, a ação de se aliar ao governo poderia ser um sinal de maturidade, de mostrar que estava pronto para atuar pelo bem coletivo em vez de apenas ser um herói porque era “muito legal”. Sentir o peso de suas ações seria um grande desenvolvimento para um personagem que sempre foi muito autocentrado. Uma visão mais coletiva ao herói.

Porém, tudo isso foi jogado fora quando o longa decidiu mostrar que nenhum dos heróis estava realmente ligando para o tal Tratado de Sokovia, tanto que eles seguram seus golpes no grande confronto do aeroporto. A guerra civil acaba virando uma briga de mágoas e egos entre o Capitão, que quer proteger seu amigo de uma injustiça, e o Homem de Ferro, que quer vingança por um segredo mantido pelo Capitão há dois anos. Nessa mudança brusca, eles transformaram Steve em um egoísta e Stark num bebê chorão. Uma temeridade. Tudo isso por conta de uma escolha narrativa extremamente conservadora de construir esse filme com um vilão clássico. Neste caso, o Barão Zemo. Dentre todos os filmes do MCU, esse aqui era o único que realmente poderia ser construído sem esse vilão estereotipado. O grande foco deveria ser o confronto e qual limite os heróis estariam dispostos a ultrapassar por um ideal. Infelizmente, a trama acabou sendo muito simplificada por essa decisão polêmica.
Foi algo tão simples, mas tão lesivo para o filme que fica até difícil de definir qual era o lado certo. Até aquele momento, pelas informações que havia na época, o Time Stark realmente tinha bons argumentos. Porém, com o passar dos anos e das fases do MCU, foi revelado que o governo queria desmontar e replicar o Visão, que o Máquina de Combate era um Skrull disfarçado, assim como Nick Fury, grande líder da S.H.I.E.L.D. também era um alienígena disfarçado. Indo mais adiante, o responsável pelo projeto, o General Ross, viria a ser manipulado pelo Líder, a ponto de transformá-lo em um Hulk, quando o mesmo era presidente dos EUA, quase dando início a uma guerra mundial. Sem contar que o próprio Stark, que pregava responsabilidade, levou um garoto de 16 anos para uma guerra num aeroporto na Alemanha, dando ao Peter Parker uma tecnologia muito avançada para alguém daquela idade.

Contra o Capitão América, o que pesou contra foi a Wanda. Sem apoio ou responsabilidade, a Feiticeira perdeu o controle sobre a própria mente, sequestrando uma cidade inteira e prendendo sua população em uma sitcom doentia, após perder o Visão e não conseguir lidar com o luto, dando início a uma saga interdimensional que ocasionou uma chacina sem precedentes no Multiverso até então. O que pesa ao favor de Steve é que, naquele momento, os poderes de Wanda eram praticamente disparar raios mágicos e voar. Ela ainda não manipulava realidade. Ainda assim, um monitoramento constante dela poderia ter ajudado a controlar os poderes da bruxa ou tê-la encaminhado para acompanhamento psicológico.
No fim das contas, uma década depois, ainda é difícil definir quem estava certo, apesar dos filmes seguintes indicarem que o Time do Capitão tinha motivações melhores do que as do Stark. Fato é que o filme foi muito importante para a construção de Vingadores: Guerra Infinita (2018), já que os heróis terem terminado a aventura divididos foi fundamental no fracasso de tentar impedir a chegada de Thanos. Mais do que isso, o filme introduziu o Pantera Negra e parte de sua mitologia, que viraria parte fundamental das aventuras seguintes dos super-heróis mais poderosos da Terra, e o Homem-Aranha, que virou o grande rosto do MCU pós-Ultimato. Mesmo com muitas falhas e escolhas narrativas questionáveis, Capitão América: Guerra Civil é uma aventura muito divertida, que promove momentos de entretenimento puro e conseguiu passar essa sensação de “filme-evento” nos cinemas da época. Não é uma obra-prima, como muitos esperavam, mas também não é uma desgraça, como outros pintam.

Capitão América: Guerra Civil está disponível no Disney+.


