A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte chegou ao fim celebrando a força, a diversidade e, principalmente, a inquietação do cinema latino-americano. Na noite de domingo, 27 de setembro, o festival revelou os grandes vencedores das Mostras Território e Horizonte, além dos projetos contemplados pelo Brasil CineMundi – 17th International Coproduction Meeting. A cerimônia de encerramento aconteceu no tradicional Cine-Theatro Brasil, em Belo Horizonte, coroando uma edição marcada por encontros, debates e produções que desafiaram formatos e fronteiras.
Ao todo, as duas mostras competitivas apresentaram ao público 12 filmes, sendo sete deles dirigidos por mulheres. Segundo o coordenador curatorial Cleber Eduardo, as obras selecionadas dialogaram, cada uma à sua maneira, com uma espécie de prenúncio do fim do mundo e com as condições concretas — e nem sempre favoráveis — enfrentadas por cineastas que precisam negociar seus desejos criativos com as dificuldades de produzir cinema atualmente.
O grande vencedor da Mostra Território foi o mexicano ‘Nuestro Cuerpo es una estrella que se expande’, dirigido pela dupla Semillites e Tania Hernández Velasco. O júri oficial, formado por Alice Riff, Gregorio Rodríguez e Wilssa Esser, destacou a maneira como o longa ‘encontra no gesto, no jogo e na imagem a possibilidade de tentar encontrar, juntes, este lugar em que cabem perguntas, riscos, experimentações, inventar outros modos de habitar o mundo e de fazer do cinema um território vivo, sensível e em permanente movimento’.
Foi o primeiro prêmio conquistado pela dupla, tornando o momento ainda mais emocionante. Semillites aproveitou o palco para celebrar um cinema ‘transrevolucionário que resiste’, enquanto Tania Hernández Velasco destacou a importância simbólica de receber o reconhecimento no Brasil. ‘Esse espaço foi um alento, quando nos sentimos, do México, tão perto do império e tão longe do coração de Abya Yala. Agradeço aos nossos ancestrais que nos ensinaram o caminho’, declarou.
O Brasil também ganhou destaque na Mostra Território. O júri concedeu uma menção especial a ‘Telúrica: a íntima utopia’, de Mariana Lacerda, ressaltando a capacidade do filme de ‘produzir presença, de fazer existir o que antes não encontrava lugar’. A produção mergulha nos processos criativos da Cia Teatral Ueinzz, transformando criação artística, corpos e convivência em matéria cinematográfica. Ao receber a homenagem, Lacerda agradeceu à equipe e compartilhou um desejo: ‘Que a gente possa viver, de fato, a mais íntima utopia’.
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Já o Prêmio Abraccine, concedido por críticos de cinema a uma produção da Mostra Território, ficou com ‘La vida que vendrá’, da cineasta chilena Karin Cuyul, em coprodução com a Colômbia. O júri ressaltou o ‘rigoroso trabalho de pesquisa em acervos pouco explorados’, além da maneira como a obra combina memórias pessoais com acontecimentos históricos que atravessaram a América Latina.
Ao falar sobre o processo de realização do filme, Cuyul lembrou o peso de revisitar cinco décadas da história chilena. ‘Foi um filme muito difícil, lidar com imagens de 50 anos da história do Chile, e sem elas não conseguiríamos entender muitas coisas que estão acontecendo atualmente. Voltar a vê-las foi muito importante para entender que a derrota não é algo permanente. Ela é circunstancial, e um estado do qual devemos sair’, afirmou a diretora.
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‘Cuba y la noche’ vence a Mostra Horizonte
Em seu primeiro ano como competição, a Mostra Horizonte consagrou ‘Cuba y la noche’, de Sérgio Fernandez Borras, coprodução entre Cuba, Espanha e Colômbia. O júri formado por Cíntia Lima, Clarisa Navas e Marcos Pimentel destacou a maneira como ‘forma e discurso caminham juntos em uma narrativa extremamente tensa construída com mínimos elementos’.
Os jurados também elogiaram ‘o rigor de suas decisões estéticas e políticas que abraçam o mundo virtual para abordar as complexidades e contradições presentes nas relações entre Estado e Sociedade’, além da aposta ‘na possibilidade de construir um filme com corpos que, em meio a fragilidades, escolhem gritar’.
Emocionado, Borras falou sobre o carinho recebido durante sua passagem pelo Brasil e dedicou a conquista aos artistas perseguidos e ‘às mães cubanas, com mais de mil filhos presos políticos, que todo dia tentam buscar uma solução por uma Cuba melhor’.
Entre os longas de estreia, o cinema brasileiro também saiu prestigiado. ‘Sabes de mim, agora esqueça’, dirigido por Denise Vieira, recebeu o destaque do júri por suas escolhas estéticas e narrativas, pela ‘espontaneidade das performances e frescor das interpretações’, pelos ‘corpos diversos que exalam potência e tesão por todos os poros’ e pela maneira sincera como mergulha no universo retratado.
No palco, Denise Vieira celebrou uma semana marcada pela troca entre realizadores, filmes e público. ‘Que a gente tenha coragem e continue fazendo filme com muito tesão’, declarou.
Outra novidade da 20ª edição foi o Júri Jovem, formado pelos estudantes Erik Abreu, Lucas Enrique e Sharon Fernandes. O grupo escolheu o mexicano ‘Jankee’, de Yamel Thompson, como destaque da Mostra Horizonte. Segundo os jovens jurados, a produção se diferencia pela ‘recusa de linearidades e temporalidades já postas’, subvertendo o chamado ‘pacto documental’ e estabelecendo uma dinâmica singular entre quem está diante e atrás da câmera.
Brasil CineMundi revela seus grandes destaques
A cerimônia também reservou espaço para o futuro do cinema. A 17ª edição do Brasil CineMundi anunciou os projetos contemplados por seus diversos parceiros, reforçando o papel do encontro como uma importante ponte para coprodução, desenvolvimento e circulação internacional de novos filmes brasileiros.
O principal prêmio do júri oficial, formado por Joana Oliveira, Fred Burle e Jesús Pimentel, foi concedido a ‘Muganga’, projeto de Rodrigo Ribeyro, produzido por Julia Alves. Escolhido por unanimidade, o projeto foi celebrado por unir de maneira singular ‘visão cinemática, perspectiva artística, relevância contemporânea, direcionamento e uma produção apaixonada que saberá guiar caminhos para a trajetória nacional e internacional do filme’.
Na categoria Work in Progress, o Prêmio O2 Pós contemplou ‘Bom retorno’, dirigido por Breno Alvarenga e produzido por Carol Silva, e ‘Fogo adentro’, de Daniel Calil, produzido por Renato Ogata, Eliane Ferreira e Ludmilla Rodrigues. ‘Bom retorno’ ainda levou o Prêmio Mistika.
O Prêmio The End ficou com ‘Sol a pino’, de Ana do Carmo, com produção de Rubian Melo. Já na categoria Foco Minas, ‘A luta que não pode parar’, de Ewerton Belico, produzido por Vitor Graize, conquistou o prêmio Cinecolor/CTAV/Edina Fujii/Parati Films e também foi contemplado pelo DocSP Study Center.
Outro projeto que saiu da edição carregado de reconhecimento foi ‘Aña’, de Mariana Lacerda, com produção de Carol Ferreira. O filme recebeu os prêmios DocBrasil, Conecta e Casa Latina Films. Esta última também contemplou ‘Coração Americano’, projeto mineiro dirigido por Aiano Benfica e produzido por Tatiana Mitre, que ainda recebeu reconhecimento do Eurodoc.
‘Primas’, de Bruno Barreto, com produção de Marina Torre, conquistou o DOCSP, o prêmio do Forum RIDM e uma das premiações do #LINK. O outro reconhecimento do #LINK foi destinado a ‘Em nome do pai e do filho’, dirigido por Gabriel Freire e produzido por Marília Cunha.
A lista de premiados continuou com ‘O presidente negro’, de Gabriel F. Marinho, produzido por Carolina Villalobos, escolhido pelo Nuevas Miradas. O Prêmio Burning foi entregue a ‘Cavalo’, de Valentina Homem, com produção de Mayra Faour Auad, enquanto o Mecas reconheceu ‘Boi de conhas’, dirigido por Daniel Barbosa e produzido por Sabrina Garcia e Nikolas Maciel.
O MAFF – Málaga Festival/Projeto Paradiso selecionou ‘Kiki – uma ponte entre mundos’, codirigido por Dario Aldana, Werá Alexandre e Patrícia Para Yxpau, com produção de Siril Freitas. Fechando a extensa lista de reconhecimentos da noite, a Filmes de Plástico contemplou ‘Dona da minha cabeça’, de Nash Laila, produzido por Letícia Simões e João Vieira Jr., e ‘BPM: batidas pelo mundo’, dirigido por Gabriel Marcos e produzido por Marina Soares.
Assim, a 20ª CineBH encerrou sua programação não apenas premiando os filmes que se destacaram nas telas de Belo Horizonte, mas também lançando um olhar para aquilo que ainda está por vir. Entre produções latino-americanas já finalizadas e projetos que começam a construir seus caminhos pelo circuito nacional e internacional, a edição reforçou uma das características mais importantes da mostra: fazer do cinema um espaço permanente de descoberta, encontro, provocação e resistência.
LISTA DE PREMIADOS
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem – JURI OFICIAL HORIZONTE
Direção/Dirección: Sérgio Fernández Borrás
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL HORIZONTE
SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
Direção/Dirección: Denise Vieira
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem – JURI JOVEM HORIZONTE
Direção/Dirección: YAMEL THOMPSON
MOSTRA TERRITÓRIO
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem JÚRI OFICIAL TERRITÓRIO
NUESTRO CUERPO ES UNA ESTRELLA QUE SE EXPANDE
Direção/Dirección: Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL TERRITÓRIO
TELÚRICA: A ÍNTIMA UTOPIA
Direção/Dirección: Mariana Lacerda
PRÊMIO ABRACCINE
LA VIDA QUE VENDRÁ
Direção/Dirección: KARIN CUYUL
PRÊMIOS PROJETOS 17º BRASIL CINEMUNDI
JÚRI OFICIAL – 17BCM – Joana Oliveira, Fred Burle, Jesús Pimentel
MUGANGA, DIREÇÃO DE RODRIGO RIBEYRO E PRODUÇÃO DE JULIA ALVES.
WIP – O2 PÓS – Ana Sanz
PRÊMIO 1º PROJETO
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
PRÊMIO 2º PROJETO
FOGO ADENTRO, DIREÇÃO DE DANIEL CALIL, PRODUÇÃO DE RENATO OGATA, ELIANE FERREIRA, LUDMILA RODRIGUES.
WIP – MISTIKA – Eduardo Gasparian
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
WIP – THE END – Maisa Joanni
SOL A PINO, DIREÇÃO DE ANA DO CARMO E PRODUZIDO POR RUBIAN MELO.
FOCO MINAS – CINECOLOR, CTAV, EDINA FUJII, PARATI FILMS – Yanis Gaye
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR, DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
DOCBRASIL – CINECOLOR, CTAV, DOT, EDINA FUJII, O2 PÓS, PARATI FILMS – Leonard Cortana
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
CONECTA – Paola Castillo
AÑA, COM DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA E PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
DOCSP – Paulo de Carvalho
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO BARRETO E PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
DOCSP STUDY CENTER– Paulo de Carvalho
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
#LINK – Isona Admetlla
1º PREMIO
EM NOME DO PAI E DO FILHO, DIREÇÃO DE GABRIEL FREIRE, PRODUÇÃO DE MARÍLIA CUNHA.
2º PRÊMIO
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
RIDM – Séverine Roinssard
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
EURODOC – Leonard Cortana
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
CASA LATINA FILMS – Gregório Rodriguez
1º PREMIO
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
2º PRÊMIO
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
NUEVAS MIRADAS – Ivette Liang
O PRESIDENTE NEGRO, DIREÇÃO DE GABRIEL F. MARINHO, PRODUÇÃO DE CAROLINA VILLALOBOS
BURNING – Diego Castillo
CAVALO, COM DIREÇÃO DE VALENTINA HOMEM E PRODUÇÃO DE MAYRA FAOUR AUAD.
MECAS – Paulo de Carvalho
BOI DE CONHAS, DIRECCIÓN DE DANIEL BAROSA, PRODUCCIÓN DE SABRINA GARCIA E NIKOLAS MACIEL.
MAFF / PROJETO PARADISO – Leo Ordonez
KIKI – UMA PONTE ENTRE MUNDOS, DIRIGIDO POR DARIO ALDANA, WERÁ ALEXANDRE E PATRICIA PARA YXAPY, E PRODUZIDO POR SIRLI FREITAS.
FILMES DE PLÁSTICO – Maurílio Martins e André Novais
DONA DA MINHA CABEÇA, DIREÇÃO DE NASH LAILA, PRODUÇÃO DE LETÍCIA SIMÇES E JOÃO VIEIRA JR.
MENÇÃO ESPECIAL, com consultoria coletiva
BPM: BATIDAS PELO MUNDO, DIREÇÃO DE GABRIEL MARCOS, PRODUÇÃO DE MARINA SOARES


