Por que assistir filmes dos anos de 1940? Primeiro, a idade de ouro de Hollywood atingiu o seu ápice nesta década. Os oito maiores estúdios (Warner, MGM, RKO Radio, Fox, United Artists, Paramount, Universal e Columbia) controlavam mais de 90% da produção e distribuição de filmes. Ao menos um filme por semana era lançado pelo grupo, entre eles estão os clássicos Cidadão Kane (1941), Casablanca (1942) e A Felicidade não se Compra (1946). 

Do outro lado do oceano a Itália fazia história com Roma, Cidade Aberta (1945) e Ladrões de Bicicleta (1948). Vale lembrar que o período é marcado pela Segunda Guerra Mundial, no entanto, 95% dos filmes realizados nos Estados Unidos durante a década não tinham nenhuma relação com o tema, de acordo com a enciclopédia online Cengage. A grande exceção é O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin, antes mesmo dos Estados Unidos entrarem na disputa em 1941. 

Outro símbolo da época é o film noir, um gênero apoiado no mistério e nos tons sombrios. O estilo tornou-se popular e também trouxe às telas o papel heroico do detetive, já famoso entre os leitores de romances das décadas anteriores. Os clássicos apresentados nesta lista correspondem ao gênero suspense, marcaram sua época e encantam os espectadores mesmo 80 anos depois. Afinal, observar o passado é sempre uma ótima forma de entender a linguagem cinematográfica do presente.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940)

Disponível em Looke



Obviamente, a obra original de Alfred Hitchcock é melhor que o remake Rebecca (2020), de Ben Wheatley, lançado pela Netflix. Sem querer comparar os diretores, se você gosta de mistério e reviravolta, indico o segundo e terceiro longa de Wheatley: Kill List (2011) e Turistas (2012). Já a adaptação do romance Daphne Du Maurier deve ser apreciada na versão de 1940, com Joan Fontaine e Laurence Olivier. O plot inicial do filme já apresenta uma sombria tensão no ar, algo retirado da produção recente, que perpassa todo o relacionamento do recém-casados Winter. Atormentada pelo fantasma da ex-esposa do Sr. Winter, a jovem Sra. Winter vive sob uma ameaça velada dos corredores da mansão, dos empregados e até mesmo do próprio marido. A personagem título não tem rosto, mas sua presença é marcante e sua morte, controversa. 

Relíquia Macabra (1941) 

Disponível em Vimeo



Cinematograficamente, Relíquia Macabra é um marco por tornar Humphrey Bogart (Casablanca) estrela de Hollywood e ser a estreia de John Huston como diretor. Contudo, a história do filme noir é complexa e complicada. O enredo dá várias voltas com uma enorme quantidade de personagens e problemas colaterais. A chance de compreender o filme é focar em Sam Spade (Bogart), um detetive super auto-confiante e egoísta, com um grande sorriso, mas árido. Outro ótimo jogo da trama é a batalha de inteligência entre Spade e a femme fatale Brigid (Mary Astor). A obra ganhou três indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Roteiro para a rocambolesca narrativa de John Huston

Laura (1944)

Disponível em Petra Bela Artes à La Carte

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No melhor estilo de Agatha Christie, whodunit (da contração inglesa “who [has] done it” – quem fez isso), Laura, de Otto Preminger (Anatomia de Um Crime), mantém o seu enigma mesmo depois de uma reviravolta no meio da trama. A personagem título, vivida pela encantadora Gene Tierney, é uma jovem executiva publicitária, a qual foi assassinada na porta do seu apartamento. Charmosa, inteligente e bem-sucedida, Laura atraia a atenção de diversos pretendentes, mas estava noiva do playboy Shelby Carpenter (Vincent Price) e era amiga do egocêntrico colunista Waldo Lydecker, interpretado de forma excepcional por Clifton Webb. Entre tramas e conflitos, o detetive Mark McPherson (Dana Andrews) apaixona-se pela fantástica imagem da vítima. Ganhador do Oscar de Melhor Fotografia, Laura é atemporal e hipnotiza os espectadores de todas as gerações.  

Monsieur Verdoux (1947) 

Disponível em Telecine Play 

Dirigido, escrito e protagonizado por Charles Chaplin, Monsieur Verdoux é mais uma comédia criminal que um suspense, no entanto, acompanhar as picaretas e farsas de Verdoux é um carrossel de emoções. O filme é baseado no real serial killer francês Henri Landru. Na trama, Verdoux é um ex-bancário falido, que se casa e mata mulheres por dinheiro. Para ele, as ricas esposas eram negócios a serem explorados. Em outras palavras, o personagem faz em menor escala o que estava sendo feito por ditadores ao redor do mundo: as pessoas não são tratadas como seres humanos, mas apenas como ganho econômico. Soa brutal e realmente é, porém Chaplin, como sempre, consegue expressar sua mensagem em comédia. Lembre-se que o filme passa-se no período entre guerra, e é lançado após a Segunda Guerra Mundial.



Festim Diabólico (1948) 

Disponível em Looke

 

O mestre do suspense, Alfred Hitchcock, abre e fecha a nossa lista. Conhecido mais pela sua técnica de plano sequência, Festim Diabólico possui uma trama simples enriquecida pelo brilhantismo do diretor e de seus atores. O enredo acompanha os jovens amigos Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) auto-considerados superiores e aventureiros. Eles decidem assassinar o colega David Kentley (Dick Hogan) e colocam o cadáver em um baú, ao redor do qual durante uma festa com os familiares e os amigos da vítima comem e conversam. Quando o tema “assassinato perfeito” é levantado no evento, o ex-professor Rupert (James Stewart) começa a desconfiar que suas teorias podem ter sido convertidas num crime brutal. O suspense não é do espectador, mas de todos os personagens em cena e acompanhá-los nesta narrativa é um deleite cinematográfico.

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