Crítica 2 | Resident Evil 6: O Capítulo Final

O Fim é o início

As adaptações de vídeo games para o cinema ainda não encontraram seu lugar ao sol. Tais filmes parecem existir num limbo próprio, no qual se encontravam por décadas as adaptações de quadrinhos de super-heróis também. Durante três décadas (1970, 1980 e 1990), os filmes de heróis eram um material delicado, nos quais não se depositava fé. Hoje, são o que há de mais rentável dentro da indústria cinematográfica. Seus “primos”, os filmes baseados em games, sofrem um exílio maior, já que o primeiro dentro do subgênero data de 1993 e atende pelo nome de Super Mario Bros – com Street Fighter: A Última Batalha chegando logo no ano seguinte.

Acelerando algumas décadas e os filmes de games ainda tentam emplacar. Warcrat: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016) trazia um diretor talentoso (Duncan Jones, filho de David Bowie) e apaixonado pelo material. Resultado? O filme naufragou, se pagando apenas no mercado asiático (fortíssimo atualmente). Assassin´s Creed tentou de novo neste início de ano, usando a seu favor o trio de Macbeth: Ambição e Guerra (2015) – o astro Michael Fassbender (também o produtor do longa), a vencedora do Oscar Marion Cotillard e o diretor Justin Kurzel, desta vez alegando não serem fãs ou se aterem ao produto original. Resultado? A unanimidade pende para o lado negativo.

Mas nem tudo são trevas. Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002) custou pouco para os padrões de um blockbuster e segue dando dinheiro, agora chegando ao seu sexto exemplar na franquia. O segredo, você pergunta. Pertencer ao gênero mais rentável do cinema, o terror, onde gasta-se pouco e fatura-se muito. Os filmes da franquia não são o que podemos chamar de sucesso, no entanto, continuam lucrando o suficiente para seguirem sendo produzidos. Com os críticos então, a coisa só piora. Mesmo assim, é inegável o valor de prazer culposo que tais filmes possuem, variando em níveis de qualidade e entretenimento.

Cinco anos após o malfadado quinto episódio (uma embromação sem tamanho, que segue como o pior exemplar da franquia) e a guerreira Alice (Milla Jovovich) está de volta, pronta para enfrentar outra horda de zumbis mais famintos do que nunca e principalmente a maligna corporação Umbrella, responsável pela criação do vírus que dizimou a raça humana e devastou o planeta Terra. Assim como nos episódios anteriores, a abertura traz uma rápida retrospectiva dos acontecimentos que precederam o que estamos agora assistindo – em caso da plateia ter involuntariamente (ei, não é culpa deles, estes filmes são altamente esquecíveis) ou voluntariamente (os mais espertos) perdido o fio da meada.

O interessante de Resident Evil 6, novamente escrito e dirigido pelo marido da estrela da franquia, Paul W. S. Anderson, é que amarra, ou tenta, todos os episódios anteriores, finalmente dando um passado para a protagonista e narrando pela primeira vez o desenvolvimento do vírus, seu propósito e os primórdios da companhia mais inescrupulosa desde a Odebrecht de todos os tempos no cinema. Novamente a série pega carona no estilão Mad Max e cria um filme sujo, árido e devastado, que tem como principal desassociação de Extinção (a parte três com tais características) o fato deste passar quase que exclusivamente à noite, o que cria uma obra extremamente escura e difícil de acompanhar. Junte a isso a montagem videoclíptica, completamente picotada, na qual Anderson cria seu filme (tanto que deixaria Michael Bay orgulhoso) e temos o longa de menor impacto visual da franquia.

Na trama, Alice se junta a um novo grupo de sobreviventes, no qual encontra-se a aliada Claire (Ali Larter) e destacam-se Doc (Eoin Macken), Abigail (Ruby Rose, a musa blockbuster do momento, também presente em Triplo X: Reativado) e Razor (Fraser James). Mas o verdadeiro destaque no elenco fica com a volta do vilão Dr. Isaacs (Iain Glen, de Game of Thrones), que havia morrido na terceira parte (quem fica verdadeiramente morto nesses filmes?), criando mais um elo com o mais elogiado episódio da franquia. O sexto capítulo de Resident Evil volta a se concentrar nos mortos-vivos, mas não esquece as criaturas pra lá de esquisitas que permeiam a saga – desta vez o espaço é dado para estranhos cachorros mutantes (e não mais os costumeiros dobermans) e seres alados semelhantes a dragões.

Resident Evil 6 começa de forma promissora, mas seu maior pecado é não brincar suficientemente, reconhecendo o quão ridículo é tudo, como fizeram alguns dos episódios anteriores – em especial o dois e o três. Aqui, eles resolvem se levar a sério, criando um clima pesado e fúnebre, mais próximo realmente do gênero terror (o que não é algo negativo). Temos também recriadas algumas famosas cenas que pontuaram esta franquia, em especial quando o grupo de sobreviventes precisa adentrar a Colmeia, a base científica do primeiro filme. Como Canto dos Cisnes, o Sexto Exemplar não se esforça em ser apoteótico o suficiente, terminando com gosto de empate e não de vitória. Em tempo, como este que vos fala suspeitava a cada nota dada sobre o filme, de último este Capítulo Final não tem nada, então aguardem mais Resident Evil em breve.

Crítica | Resident Evil 6 – O Capítulo Final 

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