Em 2016, quando ‘Esquadrão Suicida’ estreou nos cinemas, uma das poucas coisas que a opinião pública salvou foi a personagem Arlequina. Embora a moça fosse muito carismática, é preciso observar que o diretor David Ayer hipersensualizou a Arlequina em todas as oportunidades que teve. A título de exemplo, a primeira cena do longa é a moça enrolada em tecidos aéreos dentro de uma cela; o policial se aproxima e Arlequina li-te-ral-men-te lambe a barra de ferro da prisão (e a câmera ali, focada na língua da moça); o policial, com uma cara de safado, vai lá e dá um choque na moça, exercendo todo o seu poder sobre o corpo feminino simplesmente porque se acha no direito e na autoridade para fazê-lo. Sem contar a clássica cena de Arlequina roubando a loja, quando, trajando um shortinho tão minúsculo que parecia uma calcinha, a menina se inclina de costas para a câmera, que coloca a bunda da atriz no centro da tela de cinema.

Então, nesse ‘Aves de Rapina’, dirigido por Cathy Yan (uma mulher!) e cuja história é centrada em personagens femininos, era de se esperar que as personagens fossem retratadas pelas suas histórias de vida – ainda bem, é exatamente isso que acontece.

A trama é centrada e narrada pela própria Arlequina (Margot Robbie, bastante à vontade em voltar a encarnar a icônica vilã, mesmo já tendo sido indicada ao próprio Oscar 2020), que, após o Coringa terminar com ela, sente uma mistura de nostalgia pelo amor perdido e um brilho de liberdade para fazer o que quiser. Um dia, seu caminho cruza com o da adolescente Cassandra Cain (a revelação Ella Jay Basco), que roubou um importante diamante do temível Roman Sionis (Ewan McGregor, um pouco caricato demais), que coloca todos os mercenários de Gotham City atrás da garota, inclusive Arlequina.

Primeiramente, vamos exaltar o fato de Cathy Yan ter transposto cinco personagens femininas para um filme sem explorar o corpo de nenhuma das atrizes. O figurino é adequado para todas, de acordo com o que fazem: Arlequina tem roupas mais coloridas e chamativas, a policial se veste com seriedade, a Canário prefere roupas estilosas com descrição, etc. Nem mesmo nas cenas de luta a câmera desliza por esses corpos: ao contrário, filmas as personagens batendo/apanhando com naturalidade, preocupada com os movimentos de ação, não com o arrocho dos collants de malha.

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Aliás, as cenas de luta e de perseguição são muito bem coreografadas, sincronizadas e chistosas, parecendo uma dança mesmo. Neste quesito, o filme cumpre o que o espectador busca.

Arlequina parece estar muito mais à vontade consigo mesmo neste ‘Aves de Rapina’ do que no ‘Esquadrão Suicida’ – tanto a personagem quanto a atriz. Sem ser obrigada a sensualizar em todos os seus movimentos, Margot/Arlequina parece se divertir em cena, genuinamente feliz com as decisões que toma. A gente fica querendo se tornar a melhor amiga dela nesse rolê doido por Gotham.

O filme não é todo perfeitinho, e tem suas pequenas máculas. Uma delas é o desempenho bem insosso da atriz Rosie Perez, que faz a detetive Renee Montoya, que fica muito distante e destoante do resto do elenco. Outro ponto que pode incomodar é no primeiro arco do longa, em que Arlequina está narrando a história e, por três vezes, ela volta no tempo para explicar alguma coisa que deixou de mencionar – a repetição dessa técnica pode dar uma enjoada no início.

Apesar dessas pequenas nódoas, o roteiro de Christina Hodson entretém, traz uma boa história e deixa espaço para possíveis continuações, embora tenha focado mais na tríade Arlequina-Canário-Cassandra. A trama é redonda, não necessita de conhecimento prévio e ainda encontra espaço para situar o espectador sobre elementos essenciais no universo da DC.

Dirigido por uma mulher, escrito por uma mulher, produzido por uma mulher e estrelado por cinco atrizes que conduzem toda a trama do longa, ‘Aves de Rapina’ fala da emancipação feminina, pois agora as mulheres vão contar as histórias em quadrinho de acordo como elas querem ser vistas e representadas no universo nerd. Finalmente!

 

 

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