Para compreender o drama compartilhado por Luiz Bolognesi (Ex-Pajé, 2018) e Davi Kopenawa, é preciso um pouco de contexto histórico, dado no início e no fim do documentário A Última Floresta, o único representante brasileiro no Festival de Berlim 2021. A tribo Yanomami vive na floresta amazônica, na divisa entre a Venezuela e o Brasil, há mais de 1000 anos. Ao longo de várias décadas, os habitantes sofreram com a invasão de garimpeiros e a disseminação de doenças na área. O ápice desta disputa foi o Massacre de Haximu (1992/93), o qual levou a óbito mais de 1.500 indígenas. 

De lá para cá, o líder Davi Kopenawa lutou por uma lei de proteção ao governo, que estabeleceu 25 anos de tranquilidade ao seu povo. No início de 2019, no entanto, com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República, 20.000 mineiros adentraram o território e trouxeram o vírus da Covid-19 aos nativos. Estabelecida a dimensão da luta em questão, A Última Floresta não somente aumenta a consciência sobre as consequências devastadoras da industrialização e da urbanização dos habitantes da floresta, mas também estimula a reflexão sobre a nossa própria compreensão de bem-estar. 

A denúncia realizada por Bolognesi não é direta a um culpado e nem enfática em apresentar evidências de um crime. O documentário apoia-se de modo híbrido em acompanhar o cotidiano dos nativos e na simulação de lendas locais. A imaginação, portanto, ganha espaço para contar a origem desse povo e a sua luta incansável para manter a natureza longe da exploração industrial.



Assim como a maioria dos relatos etnográficos de linhagem indígena, a história dos Yanomami é repleta de mitos e folclores. Pela narração de Davi Kopenawa, o documentário representa a lenda dos irmãos Ohmama e Yoasi, os quais eram os únicos humanos na Terra e conviviam com seres sobrenaturais. Os outros humanos nasceram da união de Ohmama com Thuëyoma, uma mulher mítica que vivia sob as águas. 

Segundo a lenda, é a traição de Yoasi e a sua expulsão do território os fatos causadores da vinda de espíritos malignos à tribo. Assim, Ohmama teria escondido os minerais, ou seja a riqueza da região, embaixo da terra para ninguém tocar. Entre os contos lúdicos e os afazeres do dia a dia, como caçar, preparar beiju e trançar cestas, A Última Floresta nos transporta ao habitat desse povo e enriquece a compreensão do embate entre a tribo e os invasores. Afinal, como dito, a presença estrangeira contamina a água de consumo, faz os rios secarem e impede o sossego do sono alheio. 

Em um momento simbólico, o líder da tribo conversa com um dos mais jovens e apresenta sua experiência de ter ido trabalhar para os brancos, levado pela sedução de suas ofertas. Ele, entretanto, esclarece como os índios, que servem de operários da exploração industrial e destruição da floresta, são tratados como indigentes, sem raízes e estrangeiros na sua própria terra por não dominarem o português. Um relato tocante que enfatiza a máxima do xamã: “apesar de ter muitas mercadorias, o branco não divide”. 



Na reta final, A Última Floresta apresenta a passagem de Davi Kopenawa na Universidade de Harvard a compartilhar o extermínio da sua tribo, hoje com apenas 35.000 habitantes. Para encerrar esta denúncia lúdica, Luiz Bolognesi mostra o seu narrador a olhar por uma janela e a escutar o som ao redor bem diferente dos cantos de pássaros e da correnteza dos rios. Uma mensagem pessimista dentro de uma narrativa de luta pela sobrevivência. 

A Última Floresta será exibido pela primeira vez no Brasil no Festival É Tudo Verdade 2021, dia 18 de abril, às 19h. 

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