Crítica | A Vastidão da Noite – Filme da Amazon é um verborrágico thriller sobre alienígenas

Ao longo da História, diversas narrativas míticas sobre os mistérios do espaço insurgiram em praticamente todas as culturas: fosse com os deuses astronautas dos impérios latino-americanos, fosse com a nebulosa Área 51 localizadas nos Estados Unidos, inflexões sobre a existência de vida fora do planeta nunca deixaram de povoar a imaginação das pessoas – não é surpresa que inúmeros dramas apocalípticos e sci-fi aventurescos tenham caído no gosto popular e colocado em xeque o futuro da raça humana várias e várias vezes (aqui, posso citar o subestimado Guerra dos Mundos, o complexado Independence Day e o irreverente ‘Marte Ataca!’). Agora, chegou a vez da crescente Amazon Prime nos entregar uma versão dessas tramas mirabolantes com o intimista e surreal A Vastidão da Noite – que ganha mais pontos por sua estética do que pelo enredo em si.

Logo de cara, nos deparamos com o primeiro deslize da obra: sua lentidão. Apesar de apresentar com profundidade maior que o necessário os protagonistas Everett (Jake Horowitz), um conhecido radialista e faz-tudo da pequena cidade de Cayuga, Novo México, e Fay Crocker (Sierra McCormick), uma jovem de dezesseis anos que parece viver na sombra de seu amigo (se é que podemos chamá-lo disso), o primeiro ato do filme estende-se em andanças sem rumo pelas ruas desertas que cerceiam a escola local. Ainda que Andrew Patterson faça sua estreia diretorial com solidez indiscutível, mostrando seu apreço constante por derradeiros planos sequências e um flerte estético com as tendências expressionistas da contemporaneidade, ele parece se esquecer de apresentar o arco principal até quase metade do longa-metragem.

Se as circinais delineações rendem-se a uma espiral de vaivéns sem sentido, ao menos elas ganham uma estruturação mais palpável conforme a câmera nos convida para um suspense construído com calma no momento em que Fay despede-se de Everett e começa seu turno na operadora de telefonia local – cujo semblante cinquentista é traduzido para as telas de modo impecável. É nesse momento que a história tem início: conforme ela ouve o programa de seu colega, tenta, em vão, atender a ligações que nunca se completam ou que são interrompidas por um inexplicável e tríptico ruído. As coisas ficam ainda mais estranhas quando uma mulher desconhecida a liga em desespero anunciando que há algo se movendo no desfiladeiro ou então quando a chamada entre ela e a amiga cai sem mais nem menos.

Patterson mostra domínio das fórmulas cinematográficas – tamanha é a desconstrução que investe para um claustrofóbico cenário que, frame após frame, se torna mais opressor. Na verdade, a sequência focada apenas em Fay, que poderia muito bem carregar o filme inteiro nas costas, é construída com aptidão e cautela extremas, adicionando um elemento arrepiante aqui e ali até que culminemos na epifania de cada protagonista e coadjuvante que é-nos apresentado. O problema é quando o diretor resolve se afastar de sua ideia original, dividindo o escopo primário em dois e, então, realizando sucessivos sulcos que refletem o problema de dinamismo presente desde os minutos iniciais.

A sagacidade em trabalhar com ambiguidades estéticas mantém-se firme quando ambas as personas supracitadas reúnem-se em uma tentativa de compreender o que está acontecendo. Entre relatos sobre objetos voadores brotando no céu noturno e convidados inesperados contando suas experiências com o obscuro e o sobrenatural, Everett e Fay saem em uma missão para desvendar o mistério que caiu sobre Cayuga – nem que isso signifique que eles entrem em um mortal perigo premeditado com um cru foreshadowing. Os deslizes, entretanto, voltam a aparecer com força quando essa linha narrativa é precocemente finalizada, mais precisamente no momento em que a dupla visita a velha senhora Mabel Blanche (Gail Cronauer), que confirmou as anedotas de tantas outras pessoas ao revelar que seu próprio filho fora abduzido pelo “povo do céu”.

A partir daí, as coincidências começam a falar mais alto e, ainda que o diretor canalize nossa atenção para uma exuberante ousadia que nunca nos deixa completamente a par do que acontece, o roteiro assinado por James Montague e Craig W. Sanger cai nas ruínas que constrói ao querer contar com complexidade várias subtramas extras e nunca conseguindo entregar o que promete. O casal que aparece do nada para levá-los até a espaçonave é descartado em um piscar de olho e nem mesmo representa uma mudança considerável para a história; Mabel, por sua vez, pede para que Everett e Fay levem-na para ver o filho – coisa que também nunca acontece; o único momento proveitoso e realmente simbólico da produção ocorre nos minutos conclusivos, em que a dupla encontra o receptáculo espacial e some, enquanto todos os outros membros da comunidade que assistiam ao jogo de basquete do ano permanecem alheio a tudo que ocorreu nas últimas horas.

A Vastidão da Noite até consegue mascarar seus equívocos com uma imagética interessante e instigante, mas, quando paramos para analisar, o caótico desenrolar dos eventos seria muito mais promissor caso focado em um dos personagens e seu completo isolamento do resto do mundo perante uma ameaça invisível.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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