Fazer arte nunca foi algo fácil, principalmente quando pensamos na falta de apoio e de incentivos às expressões artísticas no Brasil. Seja no cinema, na literatura ou no teatro, são vários os nomes que passam longe do radar mainstream, permanecendo na obscuridade por um tempo criminosamente longo antes de, com sorte, serem descobertos por obra do destino. E, em meio a inúmeras produções que despontam nos quatro cantos do nosso país, algumas delas são dotadas de uma profundidade marcante e que, através de uma irrequieta quietude, nos convidam a refletir sobre a falsa sensação de solidez que mascara uma sociedade marcada por rachaduras e fragilidade.
Esse é o caso da peça ‘Agora’. Em cartaz no Centro Cultural São Paulo (CCSP) até o dia 26 de abril, a produção autoral nos apresenta a uma distopia em que o tempo foi abolido e, em meio ao colapso iminente de tudo o que se conhece, uma pequena e peculiar loja de relógios tenta sobreviver, espremida entre uma epidemia de farmácias que domina a cidade e que oferece conforto e uma pseudo-solução aos destituídos do tempo. Sarah Lessa e Vitor Albuquerque encarnam os protagonistas dessa idiossincrática história e nos convidam para uma cíclica metalinguagem que nunca perde seu momento e sua contundência nos breve sessenta minutos de espetáculo.
Lessa e Albuquerque desenvolvem a peça dentro de uma peça, singrando pelas personalidades narradoras com que se apresentam ao público e pelas nostálgicas contrapartes que pertencem à loja de relógios e à efêmera ideia de permanência que ela representa. Borrando a linha divisória entre o passado e o presente e reafirmando a abolição da cronologia como a conhecemos da sociedade – e cuja mera menção já é motivo de repreensão -, o enredo assinado por Cecilia Ripoll não apenas abraça o conceito dessa ruptura com convenções abstratas, mas faz questão de uma metadiegese que explode em reflexões existencialistas, um humor ácido e pungente, e uma preocupação cênica que beira o espetáculo cinemático.
O projeto é de complexa digestão, mas não por ser prolixo ou rocambolesco, e sim por ressoar de diferentes maneiras com cada espectador, abrindo um leque considerável de possibilidades de compreensão que singra entre o individual e o universal. E, à medida que se expande como um reflexo intrincado da humanidade, a direção de Chia Rodriguez mergulha em um estudo de personagens que transforma a dupla de protagonistas em emblemáticas materializações da ruína social. O mais interessante é a maneira como ela se apropria de uma sombria fábula contemporânea que amalgama, sob um mesmo espectro, as pulsões do surrealismo e da performance.
O colapso do tempo se reflete na multiplicidade estética que se desenrola no palco: logo de início, Lessa e Albuquerque dançam pelo espaço em uma breve exploração da jocosidade circense que, de forma derradeira, prenuncia a agourenta atmosfera da qual a narrativa é tomada. A fragilidade humana é explorada, destarte, através do encontro entre comédia e drama, entre melancolia e suspense, em que os personagens se tornam reféns de um conceito que foi criada pelos próprios indivíduos e que, quando deixa de existir, leva consigo vestígios de uma civilização que transmuta numa velocidade inconsequente e incontrolável. A partir daí, constrói-se uma abertura para tratar sobre a contínua batalha contra o envelhecimento, em que o agora é vendido como método de contentamento compulsório e de controle.
A peça não tem medo de ser incisiva quando precisa, e faz isso de maneira exemplar com a química explosiva dos protagonistas: Albuquerque acompanha o ritmo do projeto em um crescendo interminável e que encontra o equilíbrio entre a soturnidade e o exagero até os segundos finais; Lessa, por sua vez, nos encanta com um magnetismo excepcional e uma habilidade camaleônica inexplicável que a faz tomar as rédeas do próprio enredo – do qual, inclusive, ficou responsável pela idealização e pela realização. Caminhando pela complacência de um passado que não existe e de um presente que escorre pelas mãos como grãos de areia, a dupla nos guia por uma desvanecida memorabília que os enclausura cada vez mais em um beco sem saída.
A vibrante e onírica imagética entra em exuberante conflito com a densa temática da história: Victor Paula, responsável pela direção de arte e pelo design gráfico, aposta em cores quentes e vibrantes que criam atrito com a complacência mandatória da cruel realidade em que os personagens se encontram; o desenho de luz assinado por Dimitri Luppi navega pela falsa sensação de estabilidade que dá espaço, pouco a pouco, para o torpor labiríntico do violeta e do dourado – tudo convergindo para a esplêndida trilha sonora de André Papi e para um primoroso e genial grand finale.
Mesmo com breves deslizes estruturais (como certos momentos longos de pausa e algumas deixar perdidas), ‘Agora’ respira arte e mostra que o teatro brasileiro precisa de mais atenção, tanto nacional quanto internacional – não devendo nada a produções mainstream ao passo que deixa sua marca no cenário independente com um comprometimento inestimável.



