Não é de hoje que um debate urgente vem tomando conta de todos os países: os perigos ocultos no uso da internet. Mais especificamente, o uso da internet pelos jovens. Enquanto países como a Austrália colocaram em vigor uma lei que proíbe o uso e a criação de perfis em redes sociais por jovens menores de dezesseis anos, no Brasil, por exemplo, muitas escolas passaram a adotar, nos últimos meses, a proibição do uso de celular em sala de aula, de modo que as crianças e adolescentes devem guardar seus aparelhos em caixas lacradas que só são abertas ao final do turno letivo. Ambos os casos são tentativas de preservar a saúde, em muitos aspectos, desses mesmos jovens, mas não são medidas que resolvem de vez a coisa. E, numa tentativa de mostrar a urgência que essa questão precisa ser considerada, a Globoplay lançou esse mês o documentário ‘Anatomia do Post’, que teve exibição prévia dentro do BBB para os participantes.

Em quase setenta minutos, o documentário aborda absolutamente todos os pontos cruciais que deveriam ser refletidos pelas sociedades acerca dessa realidade da qual não podemos fugir: a internet faz parte da vida de todo mundo no mundo inteiro, mas também é uma verdade que não há regulação segura o suficiente para ninguém. Então, se ao mesmo tempo os mais velhos ficam suscetíveis a golpes virtuais, os jovens, por suas vezes, ficam vulneráveis a abordagens que muitas vezes ferem e/ou ameaçam a saúde deles – moral, mental, física, emocional, financeira, etc.
O roteiro de Eliane Scardovelli e Caio Cavechini divide o longa em seis partes, seis capítulos que abordam os pontos principais de como a internet – e mais especificamente as redes sociais – têm colaborado para a queda drástica em desempenho escolar, somados ao aumento do isolamento, baixa autoestima, do bullying, da automutilação e das múltiplas formas de violência. Para contar essa história, o roteiro fez uma pesquisa dedicada e extensa, partindo da escuta de duas jovens de mundos distintos e distantes – uma influenciadora digital que trabalha com a mãe e uma seguidora, que se inspira na primeira – para mostrar como a dinâmica entre produtores de conteúdos juvenis e seus mundos é bem distante da dinâmica dos consumidores de conteúdos, e a mecânica da influência exerce de maneira avassaladora nesses jovens. Para construir a linha de raciocínio, os pesquisadores ouviram delegados, investigadores, policiais, moderadores de conteúdo, ex-funcionários das gigantes Meta e TikTok, pais, mães, psicólogos. A conexão que foi traçada entre tantos especialistas, vítimas e até mesmo criminosos impressiona e, ao final, nos deixa a sensação de que não faltou nada a ser abordado: todos os lados foram ouvidos.

Eliane Scardovelli ficou à frente na direção desse ‘Anatomia do Post’ e fez um ótimo trabalho, tanto na seleção do material que entrou nesse corte final quanto na montagem e edição, intercalando bem os depoimentos com ilustrações impactantes que retratavam o sentimento que estava sendo abordado naquele momento. Além disso, a diretora também teve muita sensibilidade e responsabilidade em trazer o impactante e tristíssimo depoimento de uma mãe e um pai que perderam um filho, que tirou a própria vida após ser chantageado na internet. O arco do documentário se fecha, assim, com o chocante impacto de uma realidade que só aumenta: o fim da vida de tantos jovens por conta da internet.
Didático, corajoso, forte, direto e muito bem construído, ‘Anatomia do Post’ é um filme que precisa passar em todos os cantos e ser assistido por todo mundo, para que a internet possa se tornar apenas uma ferramenta útil a todos, e não um instrumento de prejuízo. Felizmente, ‘Anatomia do Post’ está disponível para assistir gratuitamente na Globoplay até mesmo para não assinantes.



