A Blumhouse é conhecida por algumas das produções mais interessantes dos últimos anos, apostando suas fichas principalmente em obras de terror e de suspense que se mesclam a narrativas sólidas o bastante para nos deixar à beira de um ataque de nervos. Temos, por exemplo, o vencedor do Oscar ‘Corra!’, a adorada sequência direta de ‘Halloween’ e a franquia escrachada ‘A Morte Te Dá Parabéns’. Entre mais acertos do que erros, é inegável dizer que a produtora, supervisionada por Jason Blum, revitalizou enredos considerados datados demais para serem levados a série pelos apreciadores de cinema contemporâneos com reviravoltas inteligentes e de tirar o fôlego. E é claro que, em plena comemoração de Dia das Bruxas, ela não deixaria de nos presentear com peças audiovisuais ousadas – nesse caso, unindo-se numa antologia sem precedentes intitulada ‘Welcome to Blumhouse.

Aliando-se à Amazon Studios, os quatro filmes episódicos viriam para salvar um mês de outubro entregue ao isolamento social e a uma pandemia derradeira, talvez para nos fazer esquecer de tantos problemas – e, ainda que com seus defeitos, o capítulo inicial ganhou forma como The Lie, um drama psicológico com toques de suspense estrelado por ninguém menos que Joey King (que não é estranha a obras do gênero, visto que participou de ‘Invocação do Mal’ e ‘Sete Desejos’). A trama é simples o suficiente para não se perder ao longo do caminho, mas convencional demais para ser ousada, limitando-se às fronteiras que se autoimpõe e esbarrando em certas fórmulas monótonas até explodir em um finale chocante. King dá vida à jovem aspirante à bailarina Kayla, que está em viagem com o pai, Jay (Peter Sarsgaard), para uma espécie de retiro artístico. No meio do caminho, os dois cruzam com Brittany (Devery Jacobs), sua melhor amiga – e, depois de um acesso de raiva, Kayla a empurra de uma ponte para um rio.


Não demora muito para que Jay faça o que tem de ser feito: proteger a filha a qualquer custo. Kayla tem apenas quinze anos e, levando em conta as turbulências adolescentes e os desentendimentos, ele tem certeza de que ela não fez aquilo de propósito. A jovem também conta o que aconteceu para a mãe, Rebecca (Mireille Enos), e os pais se jogam de cabeça numa jornada claustrofóbica para impedir que alguém descubra o que aconteceu – e, mais do que tudo, proteger a filha de pessoas que desejam vingança. O problema é que, no final das contas, o filme se volta para qualquer melodrama novelesco de baixo orçamento que é centrado mais na dinâmica familiar do que naquilo que se esconde no exterior, esquecendo-se das forças que ameaçam destruir uma estrutura outrora sólida.

Veena Sud comanda o longa-metragem e tenta trazer alguns elementos de trabalhos anteriores para uma perspectiva interessante do quão longe os pais estão dispostos para protegerem seus filhos. Temos a frieza da paleta de cores de ‘The Killing’ estendendo-se através de um bairro enevoado e uma floresta congelada que são marcados pela sobriedade escassa do azul – e que se transforma num narcótico cosmos de opressão e mentiras; temos a veia criminal investigativa que nos mostra dois lados: Jay e Becca fazendo de tudo para esconder evidências e culpar o pai de Brittany, Sam (Cas Anvar), inventando desculpas de que ele abusava fisicamente da filha e a maltratava, eventualmente colocando a polícia em seu encalço. Quando as coisas esquentam, Sam até mesmo chega a ameaçá-los, culpando-os pelo desaparecimento da filha e encontrando sua ruína em uma sequência arrepiante e muito bem conduzida.

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Como se pode ver, as partes funcionam melhor de modo separado do que quando unificadas em uma narrativa de três atos. O começo, o meio e o fim parecem aglutinados forçosamente em um convulsionado panorama regado a lágrimas falsas e a certas atitudes e foreshadowings que não condizem com o que nos é apresentados – nem mesmo King, que sai de uma performance surpreendente em ‘The Act’, parece à vontade até a segunda metade, rendendo-se à canastrice. A única que utiliza de construções mais recuadas e ofegantes é Enos, que centra cada uma das emoções em seus olhos e numa trêmula boca que se recusa ao explícito e opta pela consternação imagética. E, enquanto a história fala sobre um amor incondicional, ela também abre margens para discussões interessantes sobre hipocrisia, cumplicidade e traição que são coesos em sua completude, mas não fogem muito daquilo a que estamos acostumados.

A falta de identidade estética é o deslize de maior voz no filme – e nem as boas intenções de Sud, que também fica responsável pelo roteiro, conseguem salvá-lo de tangenciar a monotonia. Há algo monumental demais tentando se erguer sobre uma base oscilante e que ameaça desmoronar a qualquer momento. Talvez como uma última esperança desolada de entregar algo que fuja das previsibilidades cinematográficas, o twist final vem de forma tão sutil que nos deixa atônitos, desacreditados da mesma forma que os protagonistas quando Brittany entra pela porta de garagem como se nada tivesse acontecido – e como se eles estivessem cientes de que ela e Kayla haviam inventado toda aquela história.

The Lie se vale muito de sua evocativa resolução para superar a si mesmo, mas não podemos deixar de considerar os múltiplos equívocos que antecedem o finale. Cada aspecto parece preso a limitantes estereótipos que não permitem que a obra alce voo como deveria.


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