O xadrez é um dos esportes mais antigos da história mundial e, até hoje, é considerado um dos mais difíceis de dominar. Símbolo de autocontrole e uma bela metáfora acerca de conhecer seus oponentes, prever suas jogadas e mergulhar de cabeça na faca de dois gumes que é a propriocepção, o famoso esporte dá a falsa sensação de ser simples, mas vai muito além de um tabuleiro de madeira com 64 casas – ele é, na verdade, um complexo exercício físico-mental de paciência e que requere completa atenção e destreza e que culmina em uma das maiores competições do globo, o Campeonato Mundial de Xadrez (o qual, eventualmente, é o centro gravitacional da mais nova minissérie original da Netflix, O Gambito da Rainha).

Não se deixem enganar – a premissa por trás da produção é bem mais enervante do que parece e até mesmo se afasta de obras que partem da mesma raiz, como o cândido ‘Rainha de Katwe’ e o denso documentário ‘Bobby Fischer contra o Mundo’. Aqui, o foco expande-se para além do embate entre dois adversários distintos, destinando boa parte dos holofotes para a vida da jovem Elizabeth “Beth” Harmon (Anya Taylor-Joy no papel de sua carreira), que perdeu a mãe em um trágico acidente de carro com apenas oito anos e foi transferida para o orfanato de garotas Methuen onde cruzou caminho pela primeira vez com as técnicas do xadrez. Conhecendo todas as jogadas possíveis com a orientação do sagaz zelador Sr. Shaibel (Bill Camp), o qual, por mais ríspido e duro que fosse, serviu como principal tutor para que ela se tornasse um dos nomes mais quentes do esporte em questão.

Baseado no romance homônimo de Walter Tevis, a convincente narrativa nos leva a acreditar piamente que Beth Harmon realmente existiu e que seu nome foi esquecido décadas após suas consecutivas vitórias contra jogadores mais experientes e até mesmo Grandes Mestres, sendo redescoberto em uma época onde o poder da mulher deve ser enaltecido da maneira correta. Entretanto, Beth é apenas uma criação da exímia mente de um romancista apaixonado pelo conturbado universo do enxadrismo, permitindo que seus competentes personagens e seus múltiplos arcos se condensem em uma análise, se não profunda, sólida o suficiente sobre feminismo, questões de gênero e raça e comportamentos autodestrutivos que, quando levados para as telas, engolfam o público em um dinâmico frenesi do começo ao fim. Ademais, os sete longos episódios do show passam em um piscar de olhos, mais pela química irretocável de seu elenco protagonista e pelo cuidado estético de uma aplaudível equipe criativa.



Para levar a história de Beth à plataforma de streaming, a dupla Scott Frank e Allan Scott foi contratada para ficar responsável pelo roteiro – com Frank, conhecido por seu trabalho no aclamado ‘Logan’, tomando posse da cadeira de direção. Apesar de não acertar todos os movimentos, os realizadores tentam ao máximo se afastar das fórmulas coming-of-age de filmes e séries do gênero e fogem das datadas concepções maniqueístas de “bem” e “mal” (algo que parece estagnado dentro do cosmos que é explorado). Seguindo os passos do dêitico livro, Beth começa sua jornada ao dominar a base do xadrez, enfrentando semi-profissionais com apenas nove anos e vencendo a competição local com quinze. Não demora muito para que ela e sua mãe adotiva, Alma (Marielle Heller em uma interpretação adorável), se tornem parceiras de uma carreira repleta de conquistas e de problemas que se escondem entre quatro paredes.

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THE QUEEN’S GAMBIT (L to R) ANYA TAYLOR-JOY as BETH HARMON in episode 103 of THE QUEEN’S GAMBIT Cr. PHIL BRAY/NETFLIX © 2020

Segundo o crítico Harold C. Schonberg, a construção arquetípica da protagonista é o que permite que ela insurja como força majestosa e imparável, subestimada por aqueles que se julgam melhores do que ela, como Harry Beltik (Harry Melling), que se torna seu amigo próximo e seu mentor após ser derrotado, ou por aqueles que a diminuem por ser mais nova e por não ter tanto requinte quanto deveria ter, como Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster), o qual também se rende a seu charme e se torna um de seus grandes apoiadores, ajudando-a a vencer o campeonato na Rússia. Afinal, essa originalidade é o que realmente define a maestria quase orquestral do enxadrismo, afastando Beth da prepotência objetiva e aliando-a à dedicação de uma santa bíblica, de uma sã louca que deseja ter o mundo a seus pés. Mas nem tudo são flores – e a jovem por vezes se vê entrelaçada na tênue fronteira entre a insanidade e o equilíbrio.

Taylor-Joy poderia ficar horas e horas apenas quebrando a quarta parede cinematográfica ou com o olhar fixado no tabuleiro imóvel, prevendo as jogadas e analisando as infinitas possibilidades de derrotar seu oponente, que nada conseguiria diminuir seu brilho. Amarrando-se à essência individualista estadunidense que a dá impulso para seguir em frente, a atriz, que já havia entregado performances honráveis em ‘A Bruxa’ e em ‘Fragmentado’, humaniza uma persona endeusada e intocável, deixando claro que Beth é um ser humano e é passível de falhas – seja pelo vício em álcool ou em pílulas calmantes, seja por sua frustração desmedida ao perder qualquer partida. Taylor-Joy usa as fragilidades da protagonista a seu favor com sabedoria apaixonante e com carisma que transcende os limites cênicos da produção.

THE QUEEN’S GAMBIT (L to R) ANYA TAYLOR as BETH HARMON in THE QUEEN’S GAMBIT. Cr. CHARLIE GRAY/NETFLIX © 2020

É um fato dizer que O Gambito da Rainha é uma ótima adição ao catálogo da Netflix – talvez um de seus melhores, considerando o pífio amontoado de reciclagens dos últimos anos. Apesar de não estar livre de deslizes óbvios, como a por vezes pedante trilha sonora ou alguns fillers desnecessários que não contribuem em nada para o desenvolvimento da história, a minissérie segue uma clássica estrutura técnico-narrativa que se prova útil o bastante para uma época que exige escapismo e dinamismo.



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