Crítica | Beyoncé celebra o house e o disco com o nostálgico álbum ‘Renaissance – Act I’

Fazia seis anos desde que Beyoncé Knowles-Carter nos agraciava com projetos solos – sendo que a última vez que parou o mundo da música com suas produções icônicas foi com o aclamado e revolucionário Lemonade. Desde então, lançou uma colaboração ao lado do marido, Jay-Z, participou do remake em live-action de O Rei Leão (entrando como curadora do ótimo ‘The Gift’, em celebração ao longa-metragem), e comandou o incrível ‘Black Is King’, que foi ovacionado ao redor do mundo por suas mensagens de empoderamento e de exaltação da cultura afro-americana. Agora, ela está pronta para causar mais um impacto no cenário fonográfico com a estreia do vindouro Renaissance – Act I’.

O anúncio não poderia ter vindo em melhor hora – e o próprio material promocional nos dava algumas dicas do que poderíamos esperar. Afinal, Queen B confirmou que o projeto em questão funcionará como uma trilogia sonora e que traz, como uma de suas inspirações, um tio gay que morreu de HIV e que foi responsável por introduzi-la a diversos estilos musicais que influenciaram sua identidade. Além disso, construiu uma espécie de cosmos escapista como resposta aos duros anos enfrentados durante a pandemia de COVID-19, nos arremessando de volta para os anos 1970 e o auge do Studio 54 ao aparecer montada em um cavalo de cristal e abraçando a vibrante essência do house com o lead single “Break My Soul”, cujas referências exalam a sagacidade da performer em saber como se manter original.

A verdade é que o primeiro capítulo de Renaissance marca mais uma transição profunda nas idiossincrasias eternizadas pela cantora e compositora, em que o art pop, o trip-hop e o R&B conceituais do disco anteriores são deixados de lado em prol de um mergulho no ponto de encontro entre o passado e o futuro. Logo, a amálgama de estilos, que já vinha sido explorada por nomes como Lady Gaga, Dua Lipa e Drake nos últimos meses e anos, ganha um escopo gigantesco e de profunda sinestesia em basicamente qualquer uma das faixas que escolhamos para ouvir. A jornada, por exemplo, se inicia com a ótima “I’m That Girl”, que serve como ponte entre Lemonade e a obra mais recente – em que a densidade do baixo se aglutina ao tropical house e ao rap.

A faixa de abertura pode não ser uma das mais fortes da discografia de Beyoncé, mas é um jeito sólido e envolvente o suficiente para nos preparar ao que apenas podemos caracterizar como um louvor explosivo das pistas de dança e da capacidade de unir as pessoas sob um mesmo teto. Os experimentalismos permanecem e servem como elo para que a própria artista navegue em sua aventura pelo que bem quiser fazer: “Cozy” mantém-se fiel ao tropical house, mas abre espaço para o slap e para o deep house através de uma rendição vocal certeira e confiante (que não é muita surpresa, considerando as belíssimas performances que fizera nas décadas passadas); “Alien Superstar” mergulha no poder dos sintetizadores, do voguing e dos ballrooms do Brooklyn dos anos 70 e 80 (“olhos em você quando performa, olhos em mim quando eu coloco”); e “Cuff It” é infundido em um clássico disco ready-made destinado a levar seus fãs a se divertirem sob um globo de espelhos e pincelados pelos holofotes estroboscópicos das baladas (uma escolha digna de estar em todas as playlists).

Apesar de abrir espaço para coisas diferentes, é notável como Beyoncé se recusa a abandonar suas raízes. Vemos em “Church Girl” que as escolhas instrumentais remontam ao trap e ao rap que outrora ajudaram a colocá-la no centro dos holofotes, além das influências do garage house que adornam as camadas secundárias da faixa; nomes como Donna Summer, Diana Ross, Prince e tantas outras lendas da música são homenageados pelo encontro impactante do funk, do disco e do electro-pop em “Virgo’s Groove” e em “Plastic Off the Sofa”; e “Move” oferece uma modernização do saudosismo fonográfico, principalmente por trazê-la em uma colaboração irretocável com ninguém menos que Grace Jones e Tems.

Há algumas repetições que aparecem na obra – mas isso não necessariamente posa como um problema, ainda mais quando analisamos a sequência de canções que domina a segunda metade do compilado. Temos um electro-trap e um synth-trap que se inicia com a sensual “Thique”, que migra para as dissonâncias robóticas e ecoantes de “All Up In Your Mind”, atravessa o uptempo marcante da autoconsciente “America Has a Problem” e culmina no ostensivo equilíbrio de electro-house e neo-disco de “Pure/Honey” (que é resumida pelo honrável verso “deve custar um bilhão para parecer tão bem”). Mas nada poderia nos preparar para a estonteante conclusão intitulada “Summer Renaissance, cujas conhecidas peculiaridades de Beyoncé são interpoladas pela clássica “I Feel Love”, honrando a parceria entre Summer e o imortal pai do disco Giorgio Moroder, em uma expressividade hi-NRG de tirar o fôlego.

Depois de tanto esperarmos, Beyoncé finalmente voltou ao cenário musical com Renaissance – Act I’ – e só posso dizer que tanta espera valeu muito a pena. Exalando uma riqueza de detalhe e uma cautela invejável para cada engrenagem das faixas, lidamos com o melhor dos dois mundos em um festejo da música house dentro do que podemos encarar como um dos grandes álbuns não apenas do ano, mas da década.

Nota por faixa:

1. I’m That Girl – 4/5
2. Cozy – 5/5
3. Alien Superstar – 5/5
4. Cuff It – 5/5
5. Energy, feat. Beam – 4,5/5
6. Break My Soul – 4/5
7. Church Girl – 4/5
8. Plastic Off the Sofa – 5/5
9. Virgo’s Groove – 5/5
10. Move, feat. Grace Jones e Tems – 5/5
11. Heated – 5/5
12. Thique – 4,5/5
13. All Up in Your Mind – 5/5
14. America Has a Problem – 4,5/5
15. Pure/Honey – 5/5
16. Summer Renaissance – 5/5

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.