Em 1981, o lendário Andrew Lloyd Webber fazia sua estreia nos palcos de Londres com a aclamada peça Cats, que permaneceu em cartaz durante nada menos que vinte e um anos e, após migrar para a nova-iorquina Broadway, estendeu-se ao longo de quase duas décadas. Não é à toa que a produção seja uma das mais adoradas pelos fãs de musicais, seja por sua estética desconstruída, seja pelo fato da organicidade da narrativa ser baseada em um breve poema de T.S. Eliot, ‘Old Possum’s Book of Practical Cats, que desenrolou-se em pequenos fragmentos coming-of-age e deram vida a alguns dos personagens mais adorados e felinos da história.

Entretanto, a simples ideia de levar essa história para os cinemas pode ter vindo com um tanto de receio: afinal, ela funciona em sua forma originais justamente por valer-se de elementos teatrais fantasiosos, incluindo cenários erguidos em perspectiva e números de dança que refletem os próprios movimentos de seus personagens-titulares. Porém, levando em consideração que o diretor Tom Hooper alcançou um sucesso considerável com sua adaptação de Os Miseráveis – que, mesmo deixando de lado aspectos técnicos, exigiu de seus atores algumas das atuações mais memoráveis dos últimos anos -, poderíamos lhe dar um voto de confiança. Infelizmente, essa mesma confiança esvaiu-se logo nos primeiros minutos de longa-metragem por, em suma, tudo a que se prestou fazer.

Ainda que o crítico que aqui vos fala seja sempre a favor de um naturalismo cênico (principalmente quando lidamos com peças fílmicas), às vezes a utilização constante de efeitos visuais pode vir a calhar – e, quem sabe, salvar um conto de sua total perdição. Logo, diversas vertentes da pós-produção poderiam ser trazidas para o longa homônimo a ser lançado neste próximo dia do Natal, incluindo o motion-capture (que consiste na captura de movimentos e de expressões humanas e sua consequente transcrição para modelos digitais). Mas não é isso que acontece: Hooper, em um delírio coletivo ao lado de sua extensa equipe criativa, resolve fundir seu estelar elenco em uma inexplicável e assustadora mixórdia artística – além de colocá-los em figurinos tão falsos que chegam a ser uma ofensa para qualquer um que já tenha assistido à peça original.

Se o design insurge como principal motivo pelo crescente repúdio da audiência (cujo sentimento vinha sendo cultivado desde o lançamento do trailer oficial), ao menos esse horrendo espectro poderia ser ofuscado por uma narrativa competente. E, mais uma vez, o cineasta prova que não teve a mínima cautela para traduzir o enredo para as telonas – e nem ao menos casá-lo com sua já conhecida visão cinematográfica. Na verdade, o roteiro, que também fica a encargo de Hooper e de Lee Hall, constrói um arco principal que gira em torno de Victoria (Francesca Hayward), uma recém-abandonada gata que cruza caminho com a tribo conhecida como Jellicles. Eventualmente, ela compreende que o destino a levou para algo muito maior – como participar do Baile Jellicle e, talvez, ser presenteada com uma nova vida (uma metáfora quase emocionante para sacrifício e uma consequente subida aos céus).

A premissa aparenta interessante e inclusive promete expandir a distorcida mitologia que nos foi apresentada a priori nos palcos. Porém, logo depois que compreendemos a chegada de um novo rosto para o grupo de gatos abandonados, a trama principal fragmenta-se em uma série de sequências mal coreografadas engolfadas por uma direção de arte tão forçada que chega a ser difícil se conectar com basicamente qualquer coisa mostrada ao longo de cem minutos de obra. Entre o ridículo solo de Rebel Wilson como Jennyanydots e a oscilante performance da icônica Jennifer Hudson como Grizabella, a gata glamour que foi banida da tribo, são poucos os momentos que realmente se salvam, seja na revitalização de uma mística e narcótica trilha sonora, seja em beats que inflam em originalidade apenas para murcharem sem qualquer resquício de vida.

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Nem mesmo Hayward, com seu extenso background como bailarina, ou Judi Dench e Ian McKellen (dois dos thespians mais versáteis da indústria do entretenimento), tem espaço o suficiente para exalarem suas habilidades artísticas. A intérprete de Victoria, por exemplo, permanece exilada em um arco linear, mudando sua expressão levemente ao encarnar a canção original “Beautiful Ghosts”, e nem ao menos utilizando a dança ao seu favor; Dench, dando vida a uma nova versão da matriarca Old Deuteronomy, é carregada por sua total falta de vontade de representar uma coerente simbologia para a trama; e McKellen ironicamente entrega-se a uma de suas piores atuações ao encarnar Gus, um gato teatral que já participou das mais famosas encenações da Inglaterra.

Idris Elba também recusa-se a ser utilizado em bom proveito, continuando em sua onda de péssimas escolhas para novos projetos. Depois de ter protagonizado a pífia adaptação de A Torre Negra, Elba aceitou interpretar o vilão Macavity, com sua arisca e apaixonante personalidade; todavia, rendeu-se a uma formulaica corporatura cuja faísca de complexidade só existe devido à interessante presença da femme fatale Bombalurina (Taylor Swift).

Cats é uma das piores releituras da década, quiçá da história da esfera audiovisual. Afinal, absolutamente nenhum elemento alcança a completude prática que nos prometia desde o anúncio do longa-metragem – nos deixando com um amargo gosto na boca pelo “evento mais alegre do ano”, na verdade, ser uma mentira de mau-gosto. Falhando em honrar o material original, Hooper realmente errou ao pensar que poderia apressar-se em entregar a versão final dessa história – e errou até mesmo em querer levá-la para as telonas.

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