Em mais uma de suas incursões originais, a Netflix resolveu voltar a investir tempo e criatividade em mais um terror sobrenatural – algo que poderia seguir os passos da divertida trilogia ‘Rua do Medo’ ou falhar miseravelmente como o presunçoso ‘Uma Clássica História de Terror’. Intitulado ‘Céu Vermelho-Sangue’, o longa-metragem prometia trazer de volta as clássicas narrativas de horror que povoaram o imaginário popular no século XIX e nas primeiras décadas do século XX e construir um enredo centrado em Nadja (Peri Baumeister), uma vampira que luta contra a própria identidade – até perceber que precisa soltar a fera interior para salvar o filho, Elias (Carl Anton Koch).

Os dois estão viajando para Nova York, para que Nadja possa tratar da “doença” que carrega pelas mãos de um especialista, mas as coisas saem errado quando um grupo de terroristas sequestra o avião em que estão e levam a protagonista a destruir quem estiver em seu caminho para que Elias sobreviva. Entretanto, apesar da interessante premissa, que moderniza as fórmulas do gênero ao colocá-las em uma situação contemporânea e com ares de suspense, o filme abre espaço para tantas tramas que acompanhar as extenuantes duas horas se torna um trabalho complicado. Com exceção de algumas sequências e performances sólidas, o resultado é bem aquém do esperado – mesmo para aqueles que não tinham muitas expectativas.

É costumeiro que o primeiro ato de qualquer produto cinematográfico apresente ao público os pontos principais – e, nesse quesito, o diretor e roteirista Peter Thorwarth recorre a uma alternativa de inversão cronológica que já sustenta a intrigante atmosfera: a sequência de abertura mostra um avião pousando em meio a um cerceio militar que não revela muitas coisas, mas já instiga o nosso desejo de compreender o que aconteceu. Pouco depois, voltamos para o arco de Nadja e Elias, cuja aparição inicial já premedita uma tragédia gigantesca. O problema é que Thorwarth parece não saber em qual direção seguir, resolvendo aglutinar o que puder para construir qualquer coisa que remeta o original.



Os múltiplos equívocos poderiam facilmente ser ignorados – se a obra não se levasse a sério. O entretenimento está ali e até cumpre com o objetivo de divertir, mas só quando não se volta para mensagens subliminares de maternidade e abandono. Optar por uma homenagem aos slashers seria um caminho melhor e mais coeso, mas o realizador insiste em apostar fichas em um drama escondido que força laços com os espectadores e tenta aprofundar personalidades bastante estereotipadas, no sentido de tipos sociais em longas-metragens. Nadja é a anti-heroína que, vítima de uma maldição, tenta fazer o máximo para não se render à escuridão; Elias é a personificação da inocência e, à medida que seu arco se desenrola, mergulha em um mandatório amadurecimento e sacrifício; Farid (Kais Setti) é o ajudante-herói que, no final das contas, é encarado como o culpado antes do grand finale – e por aí seguimos.

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A introdução dos antagonistas é outro ponto positivo, ao menos até o tiroteio que culmina na “morte” de Nadja, cuja fantástica construção é a última de grande valor para o filme. A partir de então, a história cai num esquecimento motivacional que dá voltas em torno de si mesma e chega a lugar nenhum: a protagonista revela sua verdadeira forma e lança um contra-ataque contra seus algozes, recobrando a consciência para manter o filho a salvo. A estética da vampira traz inspirações artísticas de ‘A Lenda’ e ‘Nosferatu’, funcionando dentro da proposta e causando o medo momentâneo em quem resolver enfrentá-la. Humanizá-la ao extremo, todavia, foi uma decisão errônea, visto que a conclusão não faz qualquer sentido e deixa uma sensação agridoce de frustração.

Outro aspecto que mancha a estrutura é a desnecessária explicação de origem de Nadja, que quebra o ritmo de angústia para um thriller psicológico frenético demais. O roteiro volta quando bem entende para um passado não muito distante, que busca amarrar pontas soltas e nunca alcança seu objetivo, abrindo brechas para mais perguntas que só podem ser resolvidas de uma única maneira: um deus ex machina que é mencionado com tanta previsibilidade que chega a ser um escape cômico para uma mitologia já vencida. Nem mesmo os múltiplos coadjuvantes recebem o tratamento que merecem, jogando-os aos lobos (ou, nesse caso, aos vampiros) e descartando-os num piscar de olhos.



Entre escolhas estúpidas e uma completa desistência de se mostrar envolvente, ‘Céu Vermelho-Sangue’ não consegue se encaixar em qualquer gênero, insurgindo como mais uma péssima produção original da Netflix e rendendo-se a um pedantismo artístico cuja única resposta são olhares tortos e o arrependimento de ter se aventurado nesse beco sem saída.

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