Os contos de fada fazem parte do imaginário popular há séculos e, geração a geração, ganham uma nova roupagem que permitem que o público se encante com histórias de amor, enredos mirabolantes e um toque de magia. Talvez essa seja a razão de tais narrativas serem revisitadas, desconstruídas e entregues a públicos de diferentes idades que merecem ter uma chance de conhecer alguns dos personagens mais icônicos e memoráveis da cultura mundial – como Rapunzel, Branca de Neve e Bela Adormecida, por exemplo.

Nesse quesito, é quase automático nos recordarmos dos recentes esforços dos estúdios Walt Disney em reviver suas clássicas animações em remakes em live-action, que se tornaram um sucesso de bilheteria e, apesar dos tropeços, deram vida a títulos sólidos o bastante para nos divertir. Agora, chegou a vez da Amazon Prime Video apostar fichas em uma releitura mais contemporânea e desengajada que suas predecessoras de Cinderela, trazendo a popstar indicada ao Grammy, Camila Cabello, na roupagem da Gata Borralheira. Entretanto, mesmo com as puras intenções emanando do longa-metragem, o resultado é extremamente aquém do esperado e desperdiça talentos do cenário do entretenimento em prol de um amontoado de acontecimentos sem pé nem cabeça.

O filme é comandado por Kay Cannon, que fez sua recente estreia diretorial com o elogiado ‘Blockers’, além de ter assinado o roteiro da burlesca trilogia ‘A Escolha Perfeita’ e das séries ‘Girlboss’ e ‘New Girl’. Ainda que com uma carreira não muito prolífica, Cannon já vem firmando seu nome há alguns anos e, querendo ou não, foi uma escolha interessante para integrar a família Amazon – afinal, o título seria uma ótima plataforma para colocar a si mesma no centro dos holofotes. Aqui, ela se alia aos roteiristas Brian e Jim Kehoe para uma investida similar ao conto original, mas que difere em diversos pontos: Cinderela, nessa versão, vive sim com a madrasta (Idina Menzel) e com as meias-irmãs (Maddie Baillio e Charlotte Spencer), mas foge um pouco da calcada construção a que foi submetida no passado.



A jovem não tem o sonho de encontrar seu príncipe encantado e sair de uma vida de miséria para alcançar o final feliz; essa felicidade é traduzida por outro desejo – o de abrir seu empreendimento como estilista de moda, almejando à oportunidade de tirar do papel desenhos de belíssimos vestidos e conseguir deixar para trás tristes eventos que tiraram a vida da mãe e do pai. É através desse contexto que o desenrolar da história toma outras proporções, incluindo seu primeiro encontro com o príncipe herdeiro, Robert (Nicholas Galitzine), e a tão aguardada cena do baile, que carrega outros motivos além do enlace romântico.

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Levando em consideração que todos os tipos de narrativas, em dado momento, já foram contadas, mudar o foco do atemporal enredo, mesmo que não abandonando todas as suas características, é uma ideia interessante de trazê-la à nova geração – e aliá-la a uma bem-vinda ideologia de empoderamento e independência. Cinderela não precisa de ninguém e deixa isso bem claro desde os primeiros momentos do longa; ter alguém ao seu lado não é imprescindível, mas sim uma espécie de elemento a mais, ainda mais se esse alguém for apoiá-la em suas decisões. Ela tem uma ideia do que quer e de como vai torná-la realidade (algo um tanto quanto anacrônico, quando pensamos na construção de época que Cannon nos entregou) – mas é aí que as explorações temáticas se estagnam, recorrendo à obviedade de fórmulas vencidas.

À parte das mensagens de união e de perseverança que despontam profusamente pela obra, nada é muito ousado. Os arcos dos personagens oscilam de um onirismo épico à bem-humorada quebra de expectativa, como se pertencentes a uma dosagem desequilibrada de como o roteiro deve funcionar. Cabello, fazendo sua estreia oficial como atriz, não tem muito material com o que trabalhar, mas faz bom uso de seu carisma e de seus conhecidos vocais; Billy Porter, que encarna uma fabulosa interpretação da fada-madrinha, tem seu talento desperdiçado ao aparecer por brevíssimos minutos em uma esquecível sequência musical – apesar de seus vocais combinarem em perfeição com “Shining Star”, do grupo Earth, Wind & Fire; Menzel, lendária atriz da Broadway, também não consegue fugir muito da vilã estereotipada, encontrando redenção em uma circinal transição deus ex machina descartável.



Nem mesmo a estética do filme parece funcionar do jeito que deveria: os cenários parecem terem sido construídos em frenesi, fragmentando-se uns aos outros e dentro de si próprios, como se não fizessem parte de períodos ou espaços específicos; com exceção de um ou dois figurinos (que incluem o contraste entre a haute couture da Fada-Madrinha e do exagero camp da madrasta e das meias-irmãs), a inspiração é deixada de lado e não causa a admiração que esperávamos; as coreografias mergulham em pré-fabricações de baixo orçamento que emulam outras bem melhores (há, inclusive, um infeliz meneio para a aventura cômica ‘Uma Garota Encantada’ que desponta no meio do longa); e, por fim, as versões de músicas como “Let’s Get Loud”, “Seven Nation Army” e “Am I Wrong”, por exemplo, funcionam apenas como um grande rip-off.

Bons propósitos não são o suficiente para salvar filmes medíocres do esquecimento – e Cinderela faz parte desse extenso grupo de títulos. Cannon, aqui, cria uma obra especificamente para os fãs de Cabello, que podem vê-la usando e abusando de seus poderosos vocais; mas, para aqueles que desejam algo mais tragável, a releitura de Kenneth Branagh com Lily James é melhor em todos os aspectos.

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