Na mais nova aposta da HBO, o famoso romance de ficção científica A Mulher do Viajante no Tempo, de Audrey Niffenegger, ganha mais uma adaptação audiovisual e traz Rose Leslie e Theo James em uma aventura interessante que analisa a efemeridade do tempo – ou ao menos tenta fazer isso. Por trás da releitura, ninguém menos que Steven Moffat, a genial mente por trás da adorada série Doctor Who e um dos criadores mais originais da televisão contemporânea, motivo pelo qual não podíamos deixar de ficar muito animados para essa investida diferente do que Moffat já havia nos apresentado. Entretanto, ao contrário do que imaginávamos, o resultado rema contra a maré das nossas expectativas e mergulha em um melodrama cansativo e uma ousadia que não sabe para onde quer seguir.

A premissa puxa elementos bastante conhecidos do gênero sci-fi e coloca uma reviravolta que tangencia o existencialismo e a crise identitária, seguindo os passos do livro original. James interpreta Henry DeTamble, um jovem que possuí uma anomalia genética inexplicável que o permite viajar no tempo. Porém, essa anomalia não é nem de perto um dom a ser invejado, visto que ele não tem controle de quando irá ao passado ou ao futuro e nem aonde chegará; a única verdade é que, nesse processo, ele perde as roupas e revisita ou descobre momentos de uma vida marcada por turbulências, traumas e amor – e tudo convergindo para Clare Abshire (Leslie), sua prenunciada esposa que lhe é “prometida” desde a primeira vez que se veem (Henry beirando os quarenta anos e Clare com apenas seis).



Ao longo de uma jornada interminável, Henry guia a si mesmo para criar certas regras que deve cumprir e como garantir que as coisas não saiam de controle, enquanto Clare se envolve cada vez mais com o misterioso homem que apareceu no gramado da casa da família e se tornou um grande amigo. Conforme os episódios se seguem, nota-se uma enorme preocupação de Moffat em garantir que a essência dos protagonistas permaneça, expandindo a profundidade de personalidades tão distintas e garantindo que a estética visual seja unificada em prol de um enlace emocional complexo e que nos mantém vidrados do começo ao fim. O problema, todavia, se alastra para os outros aspectos da obra – desde a estrutura técnica à falta de explanações sólidas e um pedantismo melancólico que vai de lugar nenhum a nenhum lugar.

James e Leslie fazem um trabalho admirável e desfrutam de uma química genuína nas telinhas, ainda que não convençam quando interpretam versões mais jovens de seus respectivos personagens. De qualquer maneira, as marcas de maturidade são claras o suficiente para unirmos os pontos e compreendermos o significado da utópica frase “amor verdadeiro”, que atravessa a imaterialidade do tempo e vence quaisquer obstáculos. Afinal, o grande objetivo da produção é, por mais contraditório que pareça, não se basear na incredulidade, e sim numa experiência que seja compreensível ao público e que nos traga alguma mensagem “libertadora”, assim dizendo.

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Brincar com os conceitos de viagem temporal não é uma tarefa fácil e não se restringe a um meio-termo (em outras palavras, ou temos acertos legítimos ou falhas grandiosas) – e é isso o que acontece com A Mulher do Viajante no Tempo. À medida que se tem a concisa direção de David Nutter, premiado realizador cujo trabalho inclui o épico drama fantástico Game of Thrones, há também uma necessidade exaurível de “reinvenção da roda”, isto é, uma propensão para entregar mais do que se consegue e frustrar aqueles que esperavam algo além do entregue. Incrivelmente, a narrativa, centrada em apenas duas personas, se torna tão profusa e confusa que fica difícil compreender as reais motivações até cerca da metade da temporada, em que o organismo arquitetado se ajusta para sermos levados ao grand finale. Ademais, a equipe criativa perde foco várias vezes nos capítulos, canalizando esforços para o chocante trauma enfrentado por Henry e deixando de lado todos os outros aspectos que gostaríamos de ver.



Com exceção de Kate Siegel, que retorna para outro papel de sua prolífica carreira, o elenco coadjuvante sofre do mesmo mal: os amigos e familiares de Henry e Clare são destituídos de vulnerabilidade e erguem-se como estereótipos para um bem maior – ou seja, para que a trama envolvendo o casal se consagre como uma verdadeira história de amor. E, nos momentos de maior tensão, o peso dramático se esvai como água em virtude de uma trilha sonora excessiva, novelesca e que parece ditar o que precisamos sentir em determinada sequência – sem permitir que tiremos nossas próprias conclusões.

A nova série da HBO tinha todos os elementos para funcionar por completo, mas desperdiça o próprio potencial ao não aprender com os erros do próprio livro e da esquecível adaptação cinematográfica lançada em 2009. Infelizmente, os deslizes falam mais alto que os pontos fortes – mas, no final das contas, os fãs dessa conhecida história devem tirar algum proveito e se divertir com o relacionamento nada convencional entre Henry e Clare.



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