Crítica | Como Treinar Seu Dragão – Novo Filme Entrega Exatamente O que se Espera de um Live-Action

Vinte e dois anos se passaram desde o primeiro lançamento do primeiro livro da série ‘Como Treinar Seu Dragão’ (no Brasil, saiu pela editora Intrínseca). São duas gerações de leitores que cresceram se encantando com a história da comunidade de vikings e seu jeito meio torto de conviver com dragões. Então, em 2010, veio a primeira adaptação da história de Cressida Cowell: um longa de animação que além de tirar o fôlego dos espectadores, trouxe tecnologias de animação que tornaram as texturas da produção (as partes da água, principalmente) algo nunca antes visto nos cinemas, o que elevou a produtora Dreamworks a outro patamar. E agora, em 2025, essa jornada fantástica, em muitos sentidos, ganha mais um caminho: a versão em live-action da mesma jornada de ‘Como Treinar Seu Dragão’, que chega a partir de hoje nos cinemas brasileiros.

Soluço (o fofíssimo Mason Thames, de ‘O Telefone Preto’), dentre todos os vikings de Berk, é o único que não tem aptidão nenhuma para matar dragões – e essa situação fica ainda pior pelo fato de Soluço ser filho de Stoico (Gerard Butler, de ‘300’), o chefe do grupo. Numa tentativa de melhorar essa situação, Soluço é inscrito no grupo de treinamento juvenil para aprender como matar dragões, e o menino vê aí sua grande chance de deixar seu pai orgulhoso e de chamar a atenção de Astrid (Nico Parker, de ‘The Last of Us’), sua crush. Mas, numa tentativa de provar seu valor, Soluço acaba atingindo um Fúria da Noite, o dragão mais raro e mais temido de todos. Ao encontrá-lo, Soluço percebe que a criatura não é tão terrível quanto todos dizem, e, aos poucos, começa a crescer uma amizade entre o menino e Banguela, o Fúria da Noite.

Recheada de valores fundamentais para a educação e naturalmente inclusivo (num tempo em que ninguém se atentava para este ponto), a história de ‘Como Treinar Seu Dragão’ é, e continua sendo, o principal forte de toda adaptação que ela ganhe. E na live-action, não poderia ser diferente. Quer dizer, poderia, mas, felizmente, o novo ‘Como Treinar Seu Dragão’ é tal qual a história do livro, da animação e prova que uma nova leitura de uma mesma história não precisa necessariamente ter que alterá-la, principalmente quando se tem fãs.

Viking com capacete e barba longa e ornada

E aí dá até para comparar: se no livro a jornada de Soluço e Banguela pende mais para o humor, na animação a aventura fica mais fabulesca e fantasiosa; agora, com seres humanos e dragões “reais” (aliás, difícil dizer que eles não existem, tamanho o realismo da produção), a trama do menino viking que constrói amizade com o maior inimigo de seu povo ganha profundidade dramática, amadurecendo as emoções e entregando exatamente o que o público queria ver: a mesma história, respeitada tal qual e muito mais maravilhosa, uma vez que agora que sabemos o que vai acontecer em seguida, sofremos, torcemos e amamos antecipadamente cada cena do roteiro de Dean DeBlois e William Davies.

É nesse ponto que entra a magia e a fofura do diretor Dean DeBlois, responsável pelas franquias mais adoráveis do milênio (‘Como Treinar Seu Dragão’ e ‘Lilo e Stitch’). Ter uma comandante que ama o que faz e que ama a história que está sendo contada faz toda a diferença num projeto como esse porque ele envolve amor em cada detalhe, e isso imprime na tela. Como consequência, tudo entra em sintonia: a produção de arte belíssima com um figurino feito com esmero, os efeitos de pós-produção e, claro, um elenco em sintonia que transpõe os mesmos sentimentos dos amados personagens da literatura e da animação. Mason e Nico têm uma química adorável, assim como os jovens vikings cumprindo seus papéis de alívio cômico que depois se tornam a base do casal. Gerard Butler visivelmente se diverte como um viking com voz de trovão e até mesmo Banguela, mesmo não sendo real, convence a todos de que existe, roubando a cena em todas as suas interações com Mason.

Como Treinar Seu Dragão’ é uma jornada por sentimentos que já conhecemos e nos transporta ao nosso lugar-conforto da infância/adolescência e a memórias deliciosas de como é sonhar e acreditar numa história envolvente. Um filme que comprova que quando a história é boa e tem uma equipe que acredita nela, o tempo pode passar, mas ela sempre irá se conectar com os corações de quem assiste. Recheado de aventura e com cenas de voo do dragão e de perseguição impressionantes, ‘Como Treinar Seu Dragão’ é o filme para se ver muitas vezes no cinema.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.