Crítica de Álbum | ‘Fine Line’ é uma psicodélica viagem musical

Há alguns anos atrás, não havia uma pessoa que acompanhasse a indústria musical e desconhecesse o nome de Harry Styles; afinal, o cantor britânico era parte da famosa boyband One Direction e, ao lado de seus colegas, entregou ao público diversos hits memoráveis e que até hoje são relembrados por um público que anseia por uma onda tão sólida e estável quanto a de outrora. Entretanto, depois da separação do grupo, Styles decidiu seguir seu caminho e lançar seu primeiro álbum homônimo solo e logo nos deu um gostinho do que suas habilidades musicais nos preparavam; então, não seria as últimas semanas deste ano que o performer retornaria para a continuação de sua recém autorreclamada carreira, abrindo espaço para a estreia de Fine Line.

Dentro de uma esfera fonográfica que nos dias de hoje caminha em dois polos opostos – o da fabricação formulaica de canções feitas para serem vendidas ou então uma experimentação que quebra com quaisquer construções canônicas que conhecemos -, Harry teria um grande trabalho pela frente, dependendo de qual fosse sua linha narrativa. Na verdade, a obra funciona como uma declaração psicodélica, inebriante e inesperada de amor a si mesmo e ao que o transformou no que é hoje (mesmo que isso faça menções nada sutis a tabus sexuais e deliciosas estórias fabulosas que nos mantém conectados com a sonoridade do começo ao fim). E, entre uma mistura surpreendente de vários gêneros, ele encontra uma contraditória coesão sensorial que é alcançada pela total e completa despreocupação.

Se em novembro de 2019 Styles admitiu ter utilizado drogas sintéticas e alucinógenas para dar vida à sua mais nova rendição artística, essa escolha inusitada foi traduzida com perfeição para as novas primeiras tracks; temos, como abertura dessa narcótica jornada, a nostálgica e vibrante “Golden”, cujo próprio título nos arremessa de volta para meados dos anos 1980, pela sutileza dos sintetizadores e até mesmo pelo arranjo instrumental que acompanha os aplaudíveis vocais, transformando o que poderia ser mais uma mera música em uma ode soft-rock e pop enérgica, por todos os humildes elementos que aglutina dentro de três minutos e meio.

Apesar das claras raízes que influenciam o artista, é visível que ele recusa a se deixar perder no tocante à identidade estética – coisa que vemos com urgência na dançante “Watermelon Sugar”, que se desvencilha das caixinhas pré-programadas sem deixar que se caia dentro do esquecimento. Inclusive, sua comercialidade é tão original e saudosista que é impossível não se apaixonar; e essa viciante envolvência é também fruto do conhecido auxílio de Kid Harpoon (que aproveitou trabalhos anteriores ao lado de Portugal. The Man e Florence + The Machine para dar vida a essa rendição). A faixa inclusive se estende para o primeiro single promocional do CD, “Lights Up”, cujo lançamento precoce não o impediu de reconquistar seu lugar como um sinestésico pop.

Como era de se esperar, Harry destina um considerável espaço para declamatórios solilóquios de amor. A triste “Falling” pode até soar familiar para qualquer um que já tenha ouvido uma ballad romântica; porém, é a potente tecedura que nos ajudam a prosseguir nessa complicada e intrincada travessia, guiados por um impecável e metafórico liricismo que se ramifica para outras tracks. A consecutiva “To Be So Lonely”, por exemplo, serve como uma reflexão coming-of-age que nos apresenta um escopo totalmente diferente, unindo em uma competente fusão os acordes do ukulele, da guitarra e do orquestral violino (uma profusão de espectros que passa longe de ser arrogante).

Ao longo do álbum, Styles se propõe a explorar um estilo que não tinha experimentado antes (não com a mesma força, pelo menos). “She” e “Sunflower, Vol. 6” buscam desconstruir os cânones musicais dos quais se nutrem e brincam das formas variadas – um pouco chocantes no começo, mas que depois se provam saborosamente bem articuladas. Já “Canyon Moon” nos chama a atenção por se afastar daquilo a que estávamos nos acostumando, respaldando-se numa sonoridade country-gospel que traz tanto o melódico violão quanto o acompanhamento de um coro e a resolução característica desse suis-generis.

A obra sabe como discorrer acerca de seus altos e baixos – e não digo apenas em relação ao ritmo escolhido para cada faixa, e sim a capacidade de nos prender. É interessante observar como as canções expandem-se em longas narrativas, contraem-se em dinâmicas crônicas e, mesmo dentro de infinitas opções, obrigam a si mesmas a se restringirem para uma determinada perspectiva (motivo pelo qual os ápices se encontram nos lugares certos). E, conforme esse intimista estudo promovido pelo performer e por uma equipe honrável de produtores e compositores, a iteração-titular é polida com perfeição para encerrá-lo.

Fine Line atua em duas extremidades a princípio intocáveis, mas que conseguem convergir para uma única linha de pensamento. Auxiliado por uma abertura bem-vinda para arquiteturas inesperadas e envolventes, Harry Styles mostra que finalmente encontrou sua voz – e está pronto para compartilhá-la com o mundo.

Nota por faixa:

  • Golden – 4,5/5
  • Watermelon Sugar – 5/5
  • Adore You – 4/5
  • Lights Up – 4,5/5
  • Cherry – 3,5/5
  • Falling – 4,5/5
  • To Be So Lonely – 4/5
  • She – 3,5/5
  • Sunflower, Vol. 6 – 4/5
  • Canyon Moon – 4/5
  • Treat People with Kindness – 3/5
  • Fine Line – 5/5

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.