Nota: a análise não engloba as faixas “CAFÉ DA MANHÔ, “ANACONDA” e “fugitivos”, visto que ainda não foram lançadas oficialmente.

Luísa Sonza lançou seu primeiro álbum de estúdio em 2019, Pandora, cuja própria arte da capa já fazia referência ao clássico ‘Dangerous’, de Michael Jackson. Sua proeminente fama apenas foi reiterada com críticas bastante positivas e uma maturidade artística invejável para uma jovem de apenas 21 anos. Anos depois – e tendo passado por um período bastante complicado, considerando o término do casamento com o humorista e injustificáveis ataques de internautas -, Sonza retornou mais forte do que nunca com uma poderosa, tocante e sensual segunda produção, intitulada Doce 22.

O próprio marketing acerca do álbum já é motivo de análise, visto que a cantora e compositora foi sagaz o bastante para lançá-lo no dia de seu 23º aniversário – algo que, para ela, representou uma mudança brusca na carreira e na vida pessoal. Ao longo de catorze faixas (três das quais permanecem um mistério, visto que não foram lançadas nas plataformas digitais), Sonza se mostra indesculpavelmente dona do próprio corpo e da própria carreira, pegando páginas emprestadas de ícones do cenário fonográfico mundial, incluindo Madonna e Britney Spears, para calcar uma imagem body positive e celebrar todos os seus desejos mais íntimos. É claro que certas pessoas mais conservadoras (leia-se “retrógradas”) podem encarar as explícitas letras como falta de ponderação ou de bom gosto – mas, no final das contas, isso não importa e apenas reitera o que a artista traz para seu produto.



Apesar de apostar em fichas similares à Pandora, realizando um movimento de expansão e contração que varia desde as familiares e repetitivas incursões do funk brasileiro até a amálgama multicultural do arab pop. “INTERE$$EIRA”, faixa abre essa nova jornada musical, traz um elemento interessante e pouco explorado no tocante ao escopo nacional – em que Sonza resolve declamar em vez de apenas cantar, endereçando os primeiros versos impactantes a todos os haters que quiseram diminuí-la (sem qualquer sucesso); a fusão do soft-techno ao funk dita a atmosfera das primeiras tracks e é retomada na divertida “VIP *-*”, cujo teor sensual é pincelado com a profusão dos trompetes e de um ecoante sintetizador. Em “MULHER DO ANO XD”, as “brasilidades” falam mais alto em um empoderado hino feminista, com um choque lírico proposital e que apenas reavém o fato de que a cantora pode ser tão crua quanto qualquer homem.

É notável Doce 22 divide-se em dois momentos bastante distintos – ao mesmo tempo que se aglutina pela similaridade de temas explorados. Essa dicotomia é bastante mercadológica, considerando as centenas de álbuns lançados dia após dia tanto no país quanto no restante do mundo, mas, no final das contas, tal praticidade é bastante funcional. Após as faixas mais animadas e dançantes, Sonza sente necessidade de voltar-se para si mesma em uma reflexão sobre as escolhas que tomou nesses últimos anos e como a dor continua a acompanhá-la. A construção de “INTERlude :(” é um tanto quanto óbvia demais e nem ao menos tenta ser original – mas premedita a incrível “melhor sozinha :-)-:”, uma das melhores construções da obra. Movida ao drama melódico do acordeão, a artista encarna sua Toni Braxton interior, sem perder mão do que a faz única.

Um dos aspectos mais atraentes das faixas é a invejável capacidade de Sonza em unir instrumentos conflitantes entre si sem deixar que as progressões se acumulem em uma massa amorfa e indecifrável. Desde o começo da carreira, a cantora mostrou seu apreço por gêneros diferentes, incluindo as confessionais digressões das baladas, a jocosidade do rock-pop e a preferência estilística da clássica MPB. Em “penhasco.”, ela revela as mágoas que ainda carrega e utiliza a própria música em um exercício metapoético, entendendo o motivo de ter se machucado em versos consecutivos como “eu tive que desaprender a gostar tanto de você” e “sabe que se chamar eu vou”. A progressão, teatral para alguns e evocativa para outros, é movida pela transição potente do piano à percussão, arrancando os melhores vocais de Sonza em uma explosão sentimental.

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São poucos os deslizes expressivos da obra: além do supracitado interlúdio falado, há também um desequilíbrio de inspiração em “MODO TURBO”, primeiro single oficial lançado no final do ano passado. Mesmo com a atmosfera despretensiosa e com a colaboração divertida de Pabllo Vittar e Anitta, o resultado é ofuscado por tracks mais bem produzidas – em que a artista faz exatamente o que queria de forma inteligente e envolvente, como é o caso do pop-reggae de “caos/flor ***” e do R&B vibrante de “2000 s2”, que presta homenagem a Spears e Pussycat Dolls.

Mas são as duas faixas finais que superam todas as nossas expectativas: Sonza demonstra um controle total de suas incursões artísticas, além de uma maturidade borbulhante que a coloca em um patamar honrável da música contemporânea. Em “o conto dos dois mundos (hipocrisia)”, ela percebe que deve se afastar daquilo que não lhe faz bem, antes de uma decisiva conclusão compartilhada com Lulu Santos, “também não sei de nada :D”, cuja abertura paralelística é arrepiante e procede a uma química vocal de tirar o fôlego.

Doce 22 emerge como o álbum que Sonza precisava e queria lançar, como parte de um processo de cura frente a tantas mazelas enfrentadas nos últimos anos. Eventualmente, a efervescência frenética das canções é sua maior aliada, dando vida a uma incrível, sólida e memorável jornada.

Nota por faixa:

1. INTERE$$EIRA – 4/5
2. VIP *-* – 4/5
3. MODO TURBO – 2/5
4. CAFÉ DA MANHÃ ;P (ainda não lançada)
5. 2000 s2 – 4,5/5
6. ANACONDA *o* ~~~ (ainda não lançada)
7. MULHER DO ANO XD – 4/5
8. INTERlude 🙁 – 2,5/5
9. melhor sozinha :-)-: – 5/5
10. fugitivos 🙂 (ainda não lançada)
11. penhasco. – 5/5
12. caos/flor *** – 4,5/5
13. o conto dos dois mundos (hipocrisia) – 5/5
14. também não sei de nada 😀 – 5/5

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