Em 2012, um crime chocou o Brasil: o inacreditável assassinato de Marcos Matsunaga, CEO e herdeiro das indústrias Yoki (sim, a mesma que faz a farofa, a batata-palha, etc.). O que mais chocou à época, no entanto, foi a circunstância em que tudo aconteceu: Marcos havia desaparecido por cinco dias até ser encontrado desmembrado em sacolas deixadas à beira de uma estradinha na cidade de Cotia, no interior paulista. E a principal suspeita era sua esposa, Elize. Após o julgamento em júri popular e o passar dos anos, Elize finalmente obteve sua primeira autorização de saída em 2019, durante o qual aproveitou para gravar o docusérie ‘Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime’, lançamento da semana da Netflix.

Dividido em quatro episódios de aproximadamente quarenta minutos cada, o arco geral da minissérie é bem dividido, apresentando toda a trama do crime no primeiro episódio, seguindo pela construção androcêntrica de um suposto conto de fadas centrado em Elize, para depois apresentar como todo o julgamento do caso foi erigido por um viés machista por parte da acusação e do juiz e, por fim, recapitula a vida da Elize antes de São Paulo, quando ainda era uma jovem pobre do interior do Paraná.

Se o roteiro tivesse decidido encerrar a minissérie no terceiro episódio, ‘Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime’ seria uma baita série, que propõe uma reviravolta na perspectiva do espectador sobre este famoso caso criminal. Considerando a mudança nos debates sociais, rever este caso através da proposta oferecida pela série faz com que o espectador questione a integridade do julgamento, uma vez que tanto a promotoria quanto o médico legista e até mesmo o próprio juiz do caso já chegam ao julgamento com suas opiniões formadas, considerando Elize culpada, manipuladora e interesseira, que certamente assassinara e esquartejara o marido para poder ficar com a fortuna dele. Porém, quando o roteiro insere o quarto episódio – adotando a mesma estratégia da defesa, e, portanto, deixando evidente qual a sua posição e o que espera que nós concluamos –, a proposta descarrilha dos eixos, recaindo na elaboração de uma vitimização e de uma justificação totalmente desnecessária da acusada.



Os méritos do documentário de Eliza Capai são trazer esse novo olhar sobre um caso tão polêmico e sinalizar como a sociedade mudou nesse intervalo de sete anos entre 2012 e 2019, de modo que, talvez, se estivesse sendo julgado hoje, o resultado pudesse ser diferente. Para corroborar sua teoria, Eliza Capai faz uma boa seleção dos depoentes, costurando os relatos entre os advogados de defesa e de acusação, uma jornalista que foi até Chopinzinho atrás da família de Elize e a tia e a avó da acusada, de modo que quando a acusação anuncia algo como extraordinário, a fala da defesa vem em seguida para desconstruir o relato apresentado.

Aproveite para assistir:

Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime’ é uma boa minissérie documental de um caso cruelmente real, que serve também como um desabafo da viúva da fortuna Yoki para sua filha, afastada dela desde o homicídio. Entretanto, não deixa de ser estranhamente curioso que, após sete anos na prisão, em sua primeira semana fora como benefício por bom comportamento, Elize utilize esse tempo para gravar um documentário para Netflix. Faz com que a gente questione essa dita boa-intenção da protagonista.



Comentários

Não deixe de assistir: