Filme assistido durante o Festival de Toronto 2020

O que inicialmente parecia ser mais uma caça às bruxas por parte do FBI a uma tradicional família norte-americana caucasiana de classe média, inesperadamente se transformou em uma misteriosa narrativa que, ao final, nos entrega mais perguntas do que respostas. Enemies of the State é aquele tipo de documentário que faz um ávido curioso salivar em êxtase, tamanho o seu fator investigativo.

O documentário tenta ir a fundo na história de Matt DeHart, ex-analista de inteligência da Guarda Nacional Aérea dos EUA, conhecido por seu profundo envolvimento com o grupo de hackers Anonymous e WikiLeaks. O jovem, que é acusado de pornografia infantil, alega estar de fato sofrendo uma perseguição injusta por parte da CIA e do FBI, por possuir documentos classificados gravíssimos que podem comprometer a integridade da maior agência de inteligência dos Estados Unidos. E aqui, ele e sua família tentam provar sua inocência diante da sociedade, após uma jornada surpreendente de fugas, pedidos de asilo no Canadá, supostas torturas e encarceramento.

Como um bom longa do gênero que desvia de seu curso natural, ingressando em águas muito mais profundas e sombrias, a produção dirigida por Sonia Kennebeck segue linear em seu discurso quase até o fim. Surpreendendo a audiência em seu final, ela reúne fatos que não apenas questionam a veracidade de tudo aquilo que fora mostrado em tela até então, como conduz o público a um confronto reflexivo a respeito de como a dualidade dos depoimentos apresentados é capaz de obscurecer a verdade dos fatos analíticos.

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Apresentando a ascensão popular midiática deste pária – que chegou a ser o grande destaque de uma matéria da revista Newsweek, o longa explora como uma mentira dita muitas vezes pode se tornar verdade em meio à era da tecnologia digital. Cercados por mídias sociais que deram à luz à indústria das fake news, hoje a opinião pública segue com uma percepção um pouco mais comprometida sobre fatos e mentiras e Enemies of the State vai exatamente no âmago de tudo isso, ao abordar a jornada da família DeHart por sua própria perspectiva, à medida que gradativamente permite que fontes externas envolvidas com o caso façam suas próprias análises clínicas e observações.

Esse confronto de visões dos depoimentos coletados aparentemente se apresenta como mais uma validação de que o governo norte-americano mais uma vez estaria usurpando a liberdade de expressão de uma família comum, a fim de proteger seus segredos enlameados. Mas conforme a narrativa cresce em meio à divulgação de novas informações, fatos concretos e provas irrevogáveis, Enemies of the State faz brotar na audiência o doloroso questionamento a respeito da nossa própria construção opinativa: Será que essa família “boazinha” e cristã é genuinamente honesta?

Derrubando nossas próprias conclusões com a ascensão de novos relatos, em meio à ausência daquelas justificativas tão plausíveis apresentadas pelos acusados na primeira hora do filme, Enemies of The State é aquele delicioso documentário inesperado em que os fatos se desdobram diante dos olhos do cineasta, sem roteiro e sem uma agenda específica. Como uma produção planejada que foi acontecendo ao longo de sua própria apuração, o longa é bem dirigido, afiado e traz um final avassalador.

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