Olivia Colman consagrou-se como uma das maiores e mais carismáticas atrizes de sua geração. Vencedora do Oscar por seu impecável trabalho em ‘A Favorita’ e do Emmy por sua performance como a Rainha Elizabeth II em ‘The Crown’, a versatilidade artística de Colman é um dos aspectos mais chamativos de sua carreira – motivo pelo qual qualquer título que traga seu nome nos chama atenção imediata. Não é surpresa que o anúncio do drama A Filha Perdida na Netflix deixou os internautas e os assinantes ansiosos por atuações maravilhosas e uma narrativa comovente (algo um tanto quanto ambivalente, considerando que a plataforma de streaming tem a capacidade irônica de entregar títulos ótimos e péssimos na mesma medida).

O enredo traz Colman como Leda Caruso, especialista em Literatura Comparada Italiana que está de férias em seu trabalho em Corinto, uma cidade litorânea da Grécia. Procurando se afastar do caos urbano de sua cidade de natal e de seu intrincado cotidiano, as férias de Leda são colocadas em xeque quando ela cruza caminho com uma família de nova-iorquinos barulhenta e começa um complexo relacionamento com a jovem Nina (Dakota Johnson), mãe e dona de casa que parece não estar totalmente feliz com o que tem. É a partir daí que a protagonista mergulha em uma jornada autorreflexiva e que tangencia uma culposa paranoia, em que a personalidade e a vida de Nina funcionam como um retrato do que ela mesma experenciou mais nova – lidando com uma família recém-estruturada e com suas próprias ambições que pareciam escorrer como areia pelas mãos.

O projeto veio acompanhado de expectativas – e infundido em uma ambição que poderia ou cumprir com poderosas mensagens acerca de um tradicionalismo social de gênero perpetuado até hoje, ou falhar miseravelmente em entregar algo mais profundo que um prato de sopa. Além disso, o longa-metragem marcaria a estreia oficial de Maggie Gyllenhaal, atriz conhecida por títulos como ‘Donnie Darko’ e ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’, na cadeira de direção. E, enquanto muitos descrentes no cenário do entretenimento contemporâneo poderiam comentar que o filme é apenas mais um drama esquecível que trata sobre os mesmos temas, A Filha Perdida é uma das incursões mais poderosas e importantes do gênero a que se propõe explorar – não apenas do ano passado, mas talvez da última década. O motivo? A transferência de foco narrativo de um conservadorismo cinematográfico para uma análise pungente e necessária sobre a controvérsia da maternidade e dos papéis de gênero na atualidade.



Há um certo teor emblemático canalizado para a personagem construída sobre Colman, o qual se mantém fiel às investidas em mulheres fortes cujas histórias precisam ser contadas. Fugindo das fórmulas de apresentação, passamos a conhecer a identidade da protagonista através de breves diálogos que desfruta ao longo das outras pessoas em Corinto, como é o caso de Nina, do charmoso zelador Lyle (Ed Harris), do faz-tudo e estudante de administração Will (Paul Mescal), e da presença inconveniente de Callie (Dagmara Domińczyk) e Toni (Oliver Jackson-Cohen). Leda tenta se aproximar, mas mesmo essas tentativas se mostram forçadas para a mulher que é – obrigada, no passado, a engolir coisas com as quais discordava (tudo em prol de uma fachada desprezível e angustiante). Ela, então, vê a oportunidade perfeita de provar que Nina é nada menos que uma extensão de todas as frustrações que enfrentou.

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Dizer que Colman está bem é uma redundância pejorativa que não faz jus a tantos trabalhos irretocáveis que apresentou desde sua conquista do cenário mainstream. Aqui, a atriz, dona de uma personalidade bem-humorada, leve e extremamente cômica, é marcada por um desejo de vingança contra o conceito extenuante de maternidade que, inexplicavelmente, perdura com força incontrolável. Afinal, como percebemos através dos flashbacks, ela não tem uma relação saudável com o marido ou com as filhas, não sabendo como lidar com birras exageradas, comportamentos elusivos e a total dependência. Enquanto Colman se posta dentro de um espectro mais amadurecido e que tem plena ciência do que quer, Jessie Buckley, encarnando a versão mais jovem de Leda em uma apaixonante rendição, se desencanta com a perda iminente de sua carreira profissional e do mundo que está perdendo ao ficar confinada em casa.

Aos despreparados ou aos que ainda acreditam que a vida de uma mulher só se torna completa com a falsa natureza intrínseca da maternidade, Gyllenhaal refuta essa mentalidade totalmente retrógrada e constrói personagens relacionáveis e alheios a estereótipos desmedidos: Colman é apenas uma versão mais equilibrada consigo mesmo do que Johnson e, ao mesmo tempo, já foi igual a ela quando mais nova. Esse ciclo vicioso é traduzido com urgente pungência pela diretora e roteirista, nos conduzindo através de uma montanha-russa de sensações que culmina em uma resignação sentimental de cada uma das personas.



No tocante estético, Gyllenhaal desconstrói a paisagem paradisíaca de Corinto através de uma fotografia que se rende à monotonia apática, em comparação drástica ao vibrante refúgio vendido pelo panfletarismo local. A ideia é aliada à fotografia contraditória da talentosíssima Hélène Louvart, que permite que esse éden acolhedor se transforme em um inferno terreno.

A Filha Perdida, a princípio, pode nos guiar em caminhos diferentes – mas a estrutura em que se alicerça é de pura crítica. Não há leveza com que os temas principais podem ser explorados, razão pela qual Gyllenhaal, Colman e o restante de um time extremamente habilidoso diz tudo o que tem a dizer com explosividade chocante e uma realização que nos deixa pensativos mesmo depois dos créditos finais subirem na tela.

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