O gênero das comédias românticas adolescentes é um dos mais prolíficos do cenário contemporâneo do entretenimento – e, desde o final dos anos 1990, continua a entregar títulos que caem no gosto popular. Apesar de certas produções serem apenas o mais do mesmo, algumas delas conseguem se transformar em narrativas originais e envolventes, como é o caso de ‘Meninas Malvadas’, ‘A Mentira’ e ‘Sex Education’. Mas um dessas obras, de fato, nos chama a atenção não apenas por focar na irreverência narrativa e estética, mas também por abandonar estereótipos de gênero e de raça para uma necessária representatividade – ainda mais levando em conta que estamos em pleno século XXI e que o padrão branco e cis-heteronormativo não é o único a existir.

‘Eu Nunca…’ veio sem muito alarde ao catálogo da Netflix no ano passado e, pouco depois de seu lançamento, ascendeu ao patamar de uma das melhores originais da gigante do streaming. Apesar da curta temporada, não demorou até que um segundo ciclo fosse anunciado, continuando a trama de Devi (Maitreyi Ramakrishnan), atrapalhada jovem indiana que, vivendo em uma família bastante tradicionalista e ofuscada pela presença tanto da mãe quanto da prima, volta-se para as imposições românticas adolescentes e tem como principal objetivo conquistar o coração do garoto mais popular do colégio. Entretanto, conforme vimos no season finale anterior, Devi acabou se apaixonando por seu “aminimigo”, Ben (Jaren Lewison), e entendeu que precisava fazer uma dura escolha.

É a partir daí que os novos episódios ganham vida: Devi, agora, deve optar por Ben, que, mesmo zombando dela constantemente na escola, mostrou ser um empático e adorável garoto pelo qual ela começou a nutrir sentimentos; e pelo charmoso Paxton (Darren Barnet), motivo de suspiros das meninas e dos meninos nos corredores do colégio com quem se envolveu inesperadamente. É claro que o enredo da jovem protagonista que se apaixona por duas pessoas diferentes não é nenhuma novidade no escopo mainstream, mas isso não importa: Mindy Kaling e Lang Fisher, criadores da série, sabem muito bem como utilizar os clichês a favor de competentes capítulos que nos levam a querer saber o desfecho de um intrincado triângulo amoroso.



Kaling e Fisher são sagazes o bastante para manter a breve estrutura da iteração anterior, construindo episódios de pouco menos de meia hora em um período expandido, ainda que condensado em frenéticos eventos. Cada beat tem um objetivo próprio, cujas ramificações atingem tanto os personagens principais quanto os coadjuvantes: as mentiras que Devi conta para manter o namoro com Ben e com Paxton “resolvem-se” logo de início, abrindo espaço para uma tentativa desesperada de recuperar a amizade perdida e para o luto pela morte do pai que resolve esconder nas camadas mais inalcançáveis do subconsciente.

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Ramakrishnan mostra exímio empenho no papel de Devi, fornecendo a complexidade que precisávamos para tirá-la do rótulo da nerd atrapalhada e fundi-la com altos e baixos, calcando uma montanha-russa sentimental e emocionante que justifica o peso dramático da série em si. Todavia, ela não é a única a se beneficiar de um afiado roteiro: Kamala (Richa Moorjani) é agraciada com maior tempo de tela ao finalmente entrar para o doutorado e lidar com o machismo e o racismo estruturais no âmbito científico – sendo até mesmo desencorajada pelo marido prometido a não se impor, enquanto vê um duro trabalho passar longe do reconhecimento. Nalini (Poorna Jagannathan), mãe de Devi, deixa de lado a posição austera de matriarca da família e percebe que precisa focar em si mesma, seja no âmbito profissional, seja no romântico – razão pela qual passa a se envolver com o Dr. Chris Jackson (Common).

No ciclo anterior, o público foi apresentando ao vibrante universo de ‘Eu Nunca…’, o que explica o ritmo mais vagaroso dos capítulos. Agora, estando acostumados às múltiplas personagens que habitam esse cosmos tão relacionável com qualquer pessoa, é possível apostar fichas mais ousadas em temáticas de discussão indispensável, como a supracitada disparidade de gênero e a falta de ética trabalhista no tocante a homens e mulheres; além disso, há uma exploração interessante sobre aceitação, empatia e pertencimento, destinada à Fabiola (Lee Rodriguez): o medo de revelar ser lésbica para a mãe já foi enfrentado (e recebido com apoio incondicional); agora, ela se vê num ciclo sem fim de manter-se fiel a quem realmente é ou lutar para se encaixar no avesso cotidiano da namorada, Eve (Christina Kartchner).



As investidas se desenrolam inclusive para análises sobre a opressão sistêmica da cultura do belo, principalmente com a entrada impactante de Megan Suri como Aneesa, outra estudante indiana que transfere para Sherman Oaks e ameaça o coeso mundo de Devi. Como percebemos, Aneesa revela que sofreu com anorexia em seu antigo colégio e que foi obrigada a mudar para um recomeço mandatório – até ser alvo de boatos que abalaram a confiança que sentia em Devi. Esse desequilíbrio também aparece com Eleanor (Ramona Young), que se envolve com um tóxico e egocêntrico ator sem perceber que está mergulhando num vórtice inescapável de pedantismo controlador.

Problemas pontuais à parte, a 2ª temporada de ‘Eu Nunca…’ ganha força com uma comédia inteligente, pincelada com incursões trágicas que nunca se rendem à monotonia ou à previsibilidade. Comandado por performances avassaladoras e aplaudíveis, o novo ciclo é tudo o que mais precisávamos para navegar por um ano conturbado e que clamava por um escapismo de alto qualidade.

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