Em 2011, a conhecida banda de rock Evanescence anunciava que tiraria um tempo para “colocar as coisas no lugar” depois de uma turnê de considerável sucesso para divulgar o álbum homônimo. Apesar do revival com o compilado de suas canções mais conhecidas (Synthesis, 2017), os fãs permaneceram uma década com promessas vazias e um reencontro que, ao que tudo indicava, demoraria bastante para realmente acontecer. No ano passado, o grupo, comandado pela exímia vocalista Amy Lee, lançou o primeiro single da nova era, “Wasted on You”, que resgatava os elementos do gothic metal que os havia colocado no topo do mundo – puxando referências mais simples de Fallen e de hits mundiais.

Em 2021, o sonho de todos os fãs da banda finalmente aconteceu e The Bitter Truth foi lançado. O primeiro compilado de originais em uma década representou um retorno sólido, ainda que, de certa forma, repetitivo, de Lee e seus companheiros, com incursões bastante diferentes das que já mostraram no passado, mas sem perder as raízes das potentes guitarras e das rendições impecáveis da lead singer. E, talvez mais presente do que nunca, a banda conseguiu homenagear com nostalgia apaixonante todos aqueles que lhe influenciaram, desde Mozart até Nightwish, de Joan Jett a Linkin Park.

A faixa de abertura, resumida no prólogo “Artifact/The Turn”, traz à tona uma das letras mais simbólicas de sua carreira, em uma evocativa narrativa que se volta para o passado e para um tempo mais simples – provavelmente fazendo um breve apanhado dos conturbados meses que se sucederam após a eclosão da pandemia de COVID-19. Misturando incursões mais modernizadas das clássicas óperas do século XIX ao art pop e ao experimentalismo de Björk, a track, um dos grandes ápices do álbum, é um funcional capítulo de estreia e une-se à “Broken Pieces Shine”, preparando os ouvintes para a sinestesia de uma aventura obscura, distorcida e recheada de mensagens subliminares que aumentam a complexidade poética da lírica e da aplaudível produção.



Em virtude de adiamentos e problemas na conclusão, Nick Raskulinecz, conhecido por seus múltiplos trabalhos ao lado de nomes como Foo Fighters, Alice In Chains e Apocalyptica, tornou-se o nome por trás dessa coesa obra – e, talvez por essa razão, tenha resvalado brevemente em fórmulas circinais, como visto na previsibilidade momentânea de “The Game Is Over” e nos caprichos atmosféricos de “Part Of Me” e “Blind Belief”. Essas duas últimas canções, inclusive, parecem concluir de modo apressado e amiudado o que poderia ter sido uma obra-prima do rock contemporâneo, forçando uma cinemática bastante familiar e que não tem muito de novo a oferecer.

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De qualquer forma, os equívocos restringem-se a pouquíssimos momentos da iteração e são ofuscados constantemente por belíssimos enredos guiados por uma das maiores vocalistas do século. A operística performance de Lee, marcada pelo espetáculo do mezzo-soprano teatral e pela carga dramática que imprime em cada palavra proferida. Em “Broken Pieces Shine”, o hard rock é aglutinado com pulsantes elementos da cultura cyberpunk e abre espaço até mesmo para os conceitos do gospel – como o retumbante sino que abre-se a partir da segunda estrofe; “Yeah Right” é, ao mesmo tempo, familiar e distinta, apostando no futurismo do synth-rock e nas reminiscências dos Yeah Yeah Yeahs e sua conhecida incursão “Heads Will Roll”; “Feeding the Dark” pega algumas páginas emprestadas da antologia de horror industrial de Kim Petras à medida que universaliza temáticas exploradas anteriormente, como a iminência da morte e a efemeridade da felicidade.

“Wasted On You”, que gira em torno de um relacionamento tóxico, foi escolhido sabiamente como o lead single do álbum e, por mais que não alcance a glória dos conterrâneos “My Immortal” e “Bring Me To Life”, aproveita para canalizar os esforços em outros elementos – como o amadurecimento estilístico e vocal de Lee, cuja gravidade ecoante é de tirar o fôlego, e os minimalismos de Danny Elfman, com toda a pompa e a transformação da música como uma forma de arte. Em “Better Without You”, o sincretismo volta a dar as caras ao unir o hard rock com a modernidade explosiva dos sintetizadores, enquanto “Use My Voice”, construindo-se como um urbano hino de libertação, recua alguns passos e dá espaço para a bateria e os tambores; “Take Over”, digna da abertura de um show em arena, peca por esquecer-se de trazer a voz de Lee ao primeiro plano e apostar mais na brutal sensorialidade dos instrumentos – algo que nos impede de entender o que ela diz.



Além da track inicial, “Far From Heaven” também destoa pela simplicidade produção e pela utilização de uma sonoridade em forma de balada. Em um movimento epopeico, a cândida faixa deixa a potência das guitarras de lado e deixa que o piano, os violinos e os violoncelos, em uma rendição arrepiante e irretocável – configurando-se como a melhor entrada da obra e uma das mais tocantes da discografia. Como se não bastasse, as estrofes rendem-se a um escapismo saudosista e narcótico, falando sobre um relacionamento romântico que acabou e que lançou o eu-lírico em uma sombria reflexão sobre a solidão, em uma invocação mimética à nórdica persona de Tarja Turunen.

The Bitter Truth é o retorno que todos estávamos esperando de Evanescence. Com sua estética única e com uma habilidade inegável no tocante à composição e à arquitetura em si, o álbum é uma forte entrada à carreira da banda – quiçá, uma das mais belas e honestas.

Nota por faixa:

1. Artifact/The Turn – 5/5
2. Broken Pieces Shine – 4,5/5
3. The Game Is Over – 3/5
4. Yeah Right – 5/5
5. Feeding the Dark – 4/5
6. Wasted On You – 4/5
7. Better Without You – 4/5
8. Use My Voice – 4,5/5
9. Take Cover – 3/5
10. Far From Heaven – 5/5
11. Part Of Me – 3/5
12. Blind Belief – 2,5/5

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