Crítica | Feel Good – Amor em tempos de dor

 

A rapidez e a facilidade com que o relacionamento de Mae (Mae Martin) e George (Charlotte Ritchie) engata nos primeiros minutos deFeel Good traz mesmo o conforto do início de um namoro. Tudo é novidade, qualquer conflito é minimizado e o ato de conhecer o outro é um poço sem fundo de empolgações. Como boa parte de nós provavelmente sabe, isso não dura, para o bem ou para o mal, e a própria simplicidade da apresentação dos fatos deixa uma pulga atrás da orelha. E saber transmitir o constrangimento que se segue é um dos principais trunfos desta ótima série.

Criada e protagonizada pela comediante canadense Mae Martin, a comédia romântica da Netflix acompanha a vida de uma comediante canadense chamada Mae, construindo um relacionamento com a nova namorada, George, até então completamente hétero. O caráter semi-autobiográfico da série está embutido nas lutas da protagonista: ela tem problema com vícios, está sempre ligada e se questionando sobre absolutamente tudo, e extravasa esses problemas de convívio, confiança e adequação em seus shows stand-up. Lidar com ela pode ser extremamente exaustivo.

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O grande conflito da série é apresentado quando descobrimos que, apesar da fase de lua de mel do relacionamento entre George e Mae (ou talvez justamente por causa dela), as duas não chegaram a conversar a sério sobre si mesmas. George teme sair do armário para a família e os amigos. Mae não revelou sobre seus vícios, que a outra descobre em uma ligação por Skype de Mae com a mãe, Linda (em uma cativante interpretação da ótima Lisa Kudrow). Estes bloqueios refletem em uma inevitável falta de confiança e falta de intimidade entre elas, sensações construídas com tanta delicadeza que o resultado é quase palpável.

Isso porque existe uma verdade quase inconfundível na forma como Mae lida com seus problemas, ou escolhe não lidar com eles, à medida que a série acompanha seu dia após dia, tentando não cair em velhos hábitos quando quase tudo ao seu redor leva a dúvidas. Ela enfrenta o medo e começa a participar de reuniões dos Narcóticos Anônimos, e entende que, ainda que tenha supostamente se livrado de um vício, o que fez na prática foi substituí-lo por outro. Este outro ‘vício’, a namorada, acaba sendo outro grande ponto de conflito. O quão honestas elas são uma com a outra? Além: isso é em algum sentido saudável?

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É compreensível, portanto, que a incerteza de George leve Mae a uma enorme espiral de dúvidas, ao mesmo tempo em que ela mesma evita falar com a companheira tudo com o que lida diariamente. Neste ponto, o que faz de Feel Good algo genuinamente especial é a forma honesta e complexa com que sabiamente lida com estes sentimentos. Não é que George esteja sendo babaca com Mae porque elas não se amam, ou vice-versa. A série deixa no ar que o sentimento que existe entre as duas é genuíno, mas mostra que isso não significa que elas confiem uma na outra a ponto de não sentirem necessidade de esconder parte de quem são.

A abundância de sentimentos e sensações se destaca, por exemplo, no episódio em que George viaja para um casamento, não leva a namorada e pede para que a mesma não envie mensagens durante um dia. É possível entender por que George se incomoda com o excesso de mensagens; é possível entender por que Mae questiona absolutamente tudo no momento em que recebe tal pedido. É possível enxergar que as duas compreendem até onde estavam certas ou erradas, e por que o fato de elas não falarem abertamente sobre isso causa um eventual acúmulo de problemas.

Por tudo isso, a primeira temporada de Feel Good faz um exame profundo dos altos e baixos de um relacionamento, sem se basear estritamente em vivências reais, mas tirando delas a inspiração para criar um produto tão genuinamente denso. O resultado vai do cômico ao constrangedor em questão de minutos, e soa extremamente humano tanto em seus erros quanto em seus acertos. Faz parte da seleta nata do melhor que temos em comédias atualmente: histórias dolorosamente reais e doces, que volta e meia fazem pausar o episódio de vergonha e dor. Viciante.

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Renato Marafon
Criador do CinePOP em 1999 e apaixonado por cinema.

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