A década de 2010 representou uma grande mudança no estilo lírico de Alicia Keys: as comerciais produções deram lugar a um amadurecimento esplêndido no tocante às suas músicas, ainda mais depois do nascimento de seu primeiro filho, Egypt, com o produtor musical Swizz Beatz. A artista, que sempre levou em consideração suas experiências de vida para dar vida a faixas emocionantes e envolventes, levou a maternidade ao seu quinto álbum de estúdio, Girl on Fire, indiscutivelmente um dos mais conhecidos dos últimos anos. Fixando suas influências no classicismo do R&B e no retorno aos circenses experimentalismos e fusões entre gêneros, a obra é coesa em sua completude – com exceção de certos deslizes que nem ao menos merecem nossa atenção.

Para o CD, Keys aposta em uma construção clássica e prologar, “De Novo Adagio”, uma introdução em que mergulha em seu próprio mundo, dividindo-o com as rápidas, frenéticas e atmosféricas teclas do piano. Pouco depois, ela se une a Emeli Sandé, com quem já havia trabalhado, e arquiteta uma belíssima balada de empoderamento e superação que toma o título “Brand New Me”. A aclamada faixa é digna de entrar para as melhores iterações da cantora e compositora, principalmente pelo teor lírico que ataca nomes da indústria fonográfica que usam e abusam de uma egolatria desmedida e que se fortalecem ao diminuir os outros – e, de certa forma, as progressões resvaladas na sutileza do pop são familiares o suficiente para nos guiarem ao longo de quase quatro minutos.



Girl on Fire é uma pungente autobiografia em que Alicia, mais do que nunca, reflete sobre o caminho que trilhou desde quando adolescente, com sonhos de se tornar um nome importante para a música, até sua ascensão às perfeitas imperfeições da vida e das relações humanas. Os relacionamentos românticos são substituídos pela afeição ao próximo e pela socioafetividade – um tema recorrente na época de lançamento do álbum -, resguardados por versos fortuitos e uma retomada de controle que havia se perdido em The Element of Freedom. Em outras palavras, a performer demonstra que não tem medo de ousar, por mais que enfrente recepções negativas no trajeto; as aventuras vocais também passam por uma mudança crítica, variando em inesperadas contradições ou restringindo-se à unidimensionalidade das décadas efervescentes do século XX.

Calcando caminho para o lendário álbum ‘To Pimp a Butterfly’ (Kendrick Lamar, 2015), Keys permitiu a si mesma rearmonizações interessantes e originais que virtuosamente incrementaram a solidez do jazz. As dissonâncias da bateria e do saxofone se entregam a sinterizadores ecoantes em “When It’s All Over” – e guiadas pelo conhecido DJ Jamie Smith. O R&B, por sua vez, também sofre altercações com a ambiência deliciosamente inescrupulosa de “Listen to Your Heart” (resgatando suas origens dos anos 2000), estruturada em breves pílulas que se alongam em pré-refrões e refrões sinestésicos. “New Day” marca uma transição em hip-hop explosiva que não pensa duas vezes em atirar para todos os lados e diminuir as conhecidas rendições poderosas da lead singer.

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A artista demonstra que sabe como usar as zonas de conforto em benefício próprio. A segunda metade da obra é uma ode às power ballads a que está acostumada, transgredindo-as com instrumentalizações lineares que destacam a voz de uma das maiores cantoras de todos os tempos. A evocativa “Not Even the King” é saudosista e tocante, atingindo o âmago de qualquer um que ouse escutá-la – além de trazer o melhor do R&B à tona. O mesmo pode se dizer da sólida e relativamente circunscrita “That’s When I Knew”, pincelada com o violão e com a guitarra; da infusão soft-rock e reggae de “Limitedless” (uma provável homenagem à Beyoncé e seus primeiros anos solo); e de “One Thing”, imediatamente notável pela introspecção narrativa supervisionada por ninguém menos que Frank Ocean.

As inflexões comerciais não deixam de existir – explicando mais um sucesso consecutivo de Keys no cenário mercadológico (afinal, o CD debutou em primeiro lugar dos charts da Billboard). Temos a espetacular e sensual química entre ela e Maxwell no vanguardismo sensorial de “Fire We Make” (um título muito bem pensado para a mensagem que deseja passar), trazendo referências ao neo-soul e ao visionário Smokey Robinson e sua peculiaridade Motown-ish dos anos 1970; em um espectro diferente e estranhamente condizente, existe o idiossincrático microcosmos da faixa-titular, uma das músicas mais marcantes de sua carreira; tanto a versão original quanto a colaboração com Nicki Minaj exploram elementos de reafirmação como mãe, filha, esposa e artista – estendendo seu legado como um hino emancipatório até os dias de hoje.



Alicia Keys faz o que poucos artistas conseguem fazer e se reinventa mais uma vez com Girl on Fire, investindo seus esforços em incursões imprevisíveis e sem deixar sua conhecida estética de lado. Unindo-se a tantos outros incríveis capítulos de sua carreira, o álbum é uma celebração da vida e de sua presença como uma forte mulher que não atende a mais ninguém a não ser a si mesma.

Nota por faixa:

  1. De Novo Adagio (Intro) – 5/5
  2. Brand New Me – 5/5
  3. When It’s All Over – 4/5
  4. Listen to Your Heart – 4/5
  5. New Day – 3/5
  6. Girl on Fire – 5/5
  7. Fire We Make (com Maxwell) – 5/5
  8. Tears Always Win – 4/5
  9. Not Even the King – 4/5
  10. That’s When I Knew – 3,5/5
  11. Limitedless – 4/5
  12. One Thing – 4,5/5
  13. 101 – 4,5/5
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