Billie Eilish se tornou uma das vozes mais emblemáticas da nova geração da música e, em pouco tempo de carreira, transformou-se em uma powerhouse inegável que lhe garantiu inúmeras estatuetas do Grammy e nada menos que duas estatuetas do Oscar (ambas na categoria de Melhor Canção Original). Responsável por pungentes e densas canções que trouxeram o dark-pop e o bedroom pop de volta aos holofotes, Eilish angariou uma legião de fãs ao redor do mundo e eternizou uma discografia que se torna cada vez mais imaculada, lançamento a lançamento.
Em 2024, a cantora, compositora e produtora lançou seu terceiro álbum de estúdio, ‘HIT ME HARD AND SOFT’, que se tornou um sucesso de vendas e de crítica assim como suas incursões anteriores – e que foi elogiado como a melhor entrada da carreira de Eilish até agora. E, após embarcar na turnê promocional, ela se aliou ao vencedor do Oscar James Cameron para um projeto especial rodado em IMAX e que chegou recentemente aos cinemas nacionais e internacionais: ‘Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D)’, como ficou conhecido o longa-metragem, é um encontro entre música e cinema que o destitui dos conhecidos convencionalismos de outros filmes-concerto e que oferece uma visão inédita sobre o processo criativo de uma das mentes mais prolíficas e originais da atualidade.

Estendendo-se por pouco menos de duas horas, o projeto funciona como uma celebração do álbum mais íntimo e mais especial para a própria Eilish, mostrando de que maneira sua visão artística continua a ser recepcionada pelo público. Contando com uma mistura de vídeos de bastidores e uma espetacular rendição performática que ocorreu no Co-op Live, em Manchester, o filme é um grande presente para os fãs da artista e um lembrete de que a jovem performer ainda tem muitas cartas na manga – e é justamente isso o que explica nosso contínuo interesse por ela.
Toda a arquitetura do longa parte de uma premissa sensorial e sinestésica, acompanhando a estética que Eilish vem firmando desde sua estreia no cenário fonográfico. À medida que seus incontáveis hits ganham uma roupagem diferente nos palcos, somos convidados a conhecer não só a ideia por trás do show, mas a preparação vocal, física e emocional que a cantora passa antes de se conectar com seu público – e, dessa maneira, a condução de Cameron permite uma abordagem mais humanizada, mas que não deseja explorar a biografia de Eilish, e sim o momento em que ela está na carreira.

Alguns podem argumentar que o projeto é mais focado no estilo do que na substância, mas em momento algum a dupla promete fornecer uma narrativa a que estamos acostumados, optando por unir arte e técnica à medida que “bad guy”, “oxytocin”, “the diner” e tantas outras músicas são delineadas com uma ótica distinta, em que até mesmo a paleta de cores é definida de acordo com o estilo de apresentação de Eilish. Seja sentada no centro do palco e tomada por uma catártica luz branca, seja gravando a si mesma com uma câmera enquanto singra por um palco tomado por pulsões do dourado e do amarelo, cada segmento tem sua identidade e nos engolfa de uma maneira peculiar e inescapável.
Os momentos mais cândidos podem ser escassos, mas carregam uma pungência gritante, principalmente quando explora a já conhecida relação entre Eilish e seu irmão, Finneas O’Connell, com destaque a uma das sequências em que artista encabeça o show pela primeira vez sozinha; aqui, Cameron consegue capturar fortes emoções que servem de combustível para as performances da artista e de que maneira ela utiliza isso para construir seu próprio storytelling, contrariando as expectativas à medida que foca seus esforços em um espetáculo visual que precisa ser conferido na melhor tela e com o melhor som.

Lembrando que o filme ainda está em exibição nos cinemas nacionais.




