Hilde Lysiak ganhou as manchetes de vários veículos de imprensa ainda em 2016 quando, com apenas nove anos de idade, utilizou o seu recém-fundado jornal caseiro Orange Street News para relatar um assassinato que havia ocorrido perto de sua casa – transformando-a na profissional investigativa mais jovem a fazer parte da associação de jornalistas, além de ter sido homenageada de diversas formas com o passar dos anos e lançado uma série de livros que logo caiu nas graças da Apple TV+. Em 2020, o serviço de streaming lançou as dez primeiras iterações de Home Before Dark, produção televisiva inspirada na heroína infante que, apesar das puras intenções, luta para encontrar um ritmo envolvente o bastante para nos segurar até o season finale.

Logo no episódio piloto, o público se depara com uma produção bastante modernizada que parece flertar com as clássicas narrativas de mistério de Nancy Drew, lançadas sete décadas atrás. Lysiak, aqui, ganha um alter-ego com Hilde Lisko (interpretada por uma irreconhecível Brooklynn Prince), uma menina que desde muito criança resolveu se aventurar com o pai jornalista em investigações criminais e desvendamento de casos não solucionados pela polícia, dando vida até mesmo a um pequeno periódico para o qual escrevia religiosamente. Mas as coisas mudam quando ela e sua família se mudam da fervorosa Nova York para a interiorana Erie Harbor, antigo lar de Matthew (Jim Sturgess) que resolveu enterrar ao se mudar para a cidade grande há trinta anos.


Como já é de se esperar – ainda mais pela premissa bastante familiar com que a produção brinca -, Hilde percebe que o calmo e pacífico semblante dos habitantes daquele local escondem segredos terríveis, incluindo uma tentativa até então com sucesso de esquecer o rapto de um menino e de seu subsequente desaparecimento, que foi resolvido às pressas por um corpo policial cego por justiça. A atmosfera unidimensional de Erie Harbor sofre no momento em que a protagonista descobre que uma das vizinhas morreu ao trocar a lâmpada de sua casa, cujo acidente apareceu nos laudos médicos como acidente. Entretanto, Hilde não se satisfaz com a grosseira explicação dos oficiais – e suas atitudes desnecessariamente paternalistas. Não é surpresa também que a menina comece a ser encarada com olhos tortos por aqueles que não desejavam reviver os trágicos dias de outrora – e com certeza não precisavam de mais problemas.

O pano de fundo da série exala potencial e poderia transformar essa história real em um thriller de suspense e coming-of-age que iria muito além de nossas expectativas. Afinal, lidamos com uma personagem principal irreverente e que não aceita as imposições etárias ou de gênero impostas – por ser uma criança que, desde sempre, postou-se ávida pelo conhecimento, pela verdade e pela justiça. Entretanto, por mais que as nuances de sua personalidade sejam trazidas para as telinhas, os outros imprescindíveis componentes são deixados de lado, confinados numa zona de conforto que não tem qualquer espaço nesse algibe artístico.

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As criadoras Dana Fox e Dara Resnik parecem aglutinar inúmeros microcosmos em um mesmo lugar, procurando costurar uma leve comédia com reviravoltas detetivescas e dramas familiares – sem se preocuparem em lapidar as pontas soltas ou fornecer um pouco mais de credibilidade aos personagens. É claro que, no geral, a temporada de estreia cumpre o arco principal; porém, ele é pincelado por flancos abertos demais ou mal resolvidos (não por terem chegado a conclusões, e sim pelo caminho até essas resoluções ser tênue demais). Hilde é acompanhada por dois amigos que magicamente faz na escola, contratando-os para auxiliá-la na investigação do assassinato de sua vizinha e também no caso arquivado de Richie Fife (Kiefer O’Reilly), filho do prefeito Jack (Adrian Hough) que foi sequestrado quando criança e nunca mais reapareceu; em um outro paralelo, ela também ajuda seu pai a recuperar o fogo de sua profissão, enquanto luta para que a Tenente Mackenzie “Trip” Johnson (Aziza Scott) seja levada a sério na delegacia e consiga ajudá-la a ascender de cargo.

Ao longo dos dez capítulos, o roteiro se respalda em intervenções superficiais sobre diversos temas, como corrupção, sexismo e liberdade de expressão. Enquanto este metalinguístico tema é a vertente que receba mais atenção, os outros dois se ofuscam através de diálogos crus e teatrais demais para uma obra que preza pela verossimilhança. Eventualmente, é Prince quem a carrega nas costas, obrigando a si própria a alcançar um nível de amadurecimento performativo incrível depois de seus outros trabalhos (como Projeto Flórida ou o esquecível e incompreensível terror Os Órfãos). Joelle Carter, interpretando a diretora da escola local Kim Collins, é a próxima personagem a receber um tratamento mais cuidadoso – seu arco inclusive atravessa os extremos da autoconfiança para a derradeira desilusão, principalmente quando descobre a verdade sobre sua família.

Ainda que construa momentos de glória para o enredo e para as personas de Erie Harbor, que culminam em cliffhangers e revelações de tirar o fôlego, o time criativo perde a mão ao decidir, mesmo sem consciência, iniciar os capítulos com quebras de expectativas ou momentos mais leves que não recuperam o tom obscuro e intimista dos episódios anteriores. Nem mesmo a constante imagética neo-noir mantém-se sólida o bastante para que tracemos uma transição coesa entre começo e fim.

Home Before Dark é aprazível em certos momentos, mas seus ressoantes deslizes transformam a temporada em amálgama de tramas que previsíveis. Apesar dos erros, os espectadores são convidados a uma jornada interessante e divertida, por mais vago que seja – e por mais datada que esse mistério nos pareça.

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