Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

A primeira instância, Kajillionaire aparenta ser um uma obra incompleta. Explorando uma tumultuada dinâmica familiar a partir da sucessão de trambiques que os une e – tecnicamente – os denomina como uma família, a produção parece ter dificuldades de expressar toda a complexidade que inicialmente determina. Mas como um bom vinho cujo sabor se acentua com o tempo, a comédia dramática indie de Miranda July às vezes precisa de um certo tempo para ser digerida. Mas quando absorvida em sua totalidade, se desabrocha como um inusitado relato caricato sobre a solidão, amor, busca por uma identidade e o que essencialmente define uma família.

Entre trambiques e pequenos golpes, pai, mãe e filha passam os seus dias tentando extrair qualquer coisa de qualquer situação. Como uma família às avessas, que não é estruturada como tradicionalmente deveria ser, esse trio vive à deriva da própria existência humana, comendo pelas beradas de tudo que sobra e – eventualmente – aparece em seu caminho. E sem muita explicação, o que sabemos logo de cara é que, sem a determinação de levar uma vida digna e justa por meio do trabalho e conquistas pessoais, o patriarca e a matriarca viveram suas vidas tentando tirar proveito de todo tipo de situação. Fazendo pequenos roubos de caixas de correio que, normalmente, não trazem nada de muito valor, eles tentam ganhar o pão de cada dia de forma desonesta. E no meio dessa confusão socioeconômica familiar, está Old Dolio, uma jovem de cabelos loiros que cobrem quase toda a sua estrutura, constrangida por sua própria existência. Com o corpo curvado, ombros projetados para frente e feições escondidas por suas madeixas, ela é a filha que mais parece membro de uma gangue da melhor idade do que genuinamente de um elo de ligação familiar.

E é justamente por essa falta de amor e carinho existente entre os três protagonistas que Dolio possui tais características. Vivendo em um constante sentimento de deslocamento social, a personagem é – naturalmente – aquela na qual nossos olhos são vidrados. Sua peculiar linguagem corporal, sua voz baixa que fracassadamente tenta ser assustadora e grossa revelam uma figura franzina e esguia, que tem medo de tudo e todos. Aqui, Evan Rachel Wood constrói essa bela caracterização, se desfazendo de todas as suas características de destaque para trazer à vida essa personagem tão desconfortável em sua própria pele. E ao lado dela, Debra Winger e Richard Jenkins completam esse estranho trio, onde o que deveria ser solidificado pelo amor parental e pela familiaridade, se transforma em uma pequena trupe de foras da lei inofensivos, mas emocionalmente perigosos.

Em Kajillionaire, Miranda July usa as artimanhas e extravagância dos pequenos furtos e trambiques dos protagonistas como pilares para abordar uma narrativa muito mais madura e profunda. Leva um pouco de tempo para processar a premissa de forma genuína, mas é inegável que o charme da produção está justamente em querer contar uma história muito maior que si mesma. Aqui, a trama explora essa relação familiar como uma forma de ensinar a audiência a tamanha diferença que faz crescer em um ambiente amoroso cercado por valores e princípios. Ainda que a produção explore pouco tal estrutura sadia (apenas nos momentos finais do filme), ao jogar os holofotes para a catastrófica dinâmica existente entre os protagonistas, inerentemente absorvemos a ideia que a cineasta quer dissecar. Em um mundo solitário e capitalista onde todos caminham em torno das coisas que querem e precisam ter para se apresentar diante dos outros, a comédia dramática aborda o peso que tais escolhas podem gerar na alma, salientando que muito mais importante que ter, ser é o que realmente preencherá o vazio que as futilidades capitalistas são incapazes de preencher.

E é por isso que, logo no início, é difícil dimensionar toda a extensão da produção. Pois embora seus alicerces sejam bem estruturados, a compreensão humana contemporânea, cercada por mídias sociais e estilos de vida plásticos irreais e invejáveis, insiste em nos levar à percepção mais medíocre sobre a vida. Mas como quem não tem pressa em se fazer ser entendida, July faz de sua obra uma comédia dramática que – provavelmente – a cada nova assistida se revelará a nós de forma ainda mais profunda. Como um filme que parece não se desgastar em querer desafiar a nossa metanoia, Kajillionaire é uma doce e peculiar narrativa que, para um bom apreciador dos filmes do Festival de Sundance, uma única conferida não bastará.

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