Tem sido uma jornada e tanto desde a estreia de uma das séries mais ambiciosas e bizarras da HBO, Lovecraft Country. Baseada no romance homônimo de Matt Ruff, o evocativo título é uma homenagem e uma releitura menos controversa (e por controversa, leia-se racista e supremacista) do panteão sobrenatural e sci-fi criado por H.P. Lovecraft, cujas influências fantasiosas são vistas até os dias de hoje em grande parte dos realizadores que se aventuram pelo gênero. Supervisionando todo esse projeto e dando vida a uma sequência direta dos escritos de Ruff, a showrunner e roteirista Misha Green se aliou a um time bastante competente que, no final das contas, entregou uma das melhores séries de 2020 e já preparou terreno para várias iterações futuras.

Com solidez significativa e uma coesão que falhou apenas em alguns aspectos, a série estendeu-se por dez episódios que revitalizaram as incursões fabulescas há muito exploradas pelo cenário artístico – infundindo-as com críticas necessárias e que abrem reflexões contemporâneas sobre papéis de gênero e de raça dentro de uma sociedade movida por preceitos retrógrados e patriarcais. E, dois meses e meio depois de ter feito uma das maiores estreias da emissora paga, o ciclo inicial da produção chegou ao fim com uma convincente resolução e um breve indício do que podemos esperar no iminente futuro – ainda que tenha se valido de apressadas conclusões e fillers para dar conta de todas as pontas soltas.

Intitulado “Full Circle”, o décimo e último capítulo da primeira temporada é uma contemplativa amálgama de tudo ao que fomos apresentados nas semanas anteriores – que inclui uma reflexiva e idílica sequência “em família” guiada pela clássica canção “Sh-Boom”, do grupo The Chords (uma das únicas construções imagéticas que consegue se conectar com o público). De certa forma, estava na hora de Green sentar em sua mesa de escritório e digitar as palavras que encerrariam uma diabólica jornada entre um país marcado pelas segregacionistas leis de Jim Crow e pela caçada constante às pessoas de cor – que eram vistas como inferiores e tratadas como animais quando em conjuntura à dominação supremacista da comunidade branca. Não é surpresa que, ao longo dos episódios, Tic (Jonathan Majors) e Leti (Jurnee Smollett) tenham enfrentado algozes muito mais próximos da nossa realidade do que imaginávamos – contribuindo para um amadurecimento para além do mero âmbito individualista.



Enquanto a showrunner é capaz de sintetizar alguns pontos importantes para a arquitetura de causa-consequência – principalmente ao expandir a mitologia a gerações anteriores, visitando as falecidas mãe e avó de Tic e até mesmo sua tataravó, trio de extrema importância para a batalha final contra as malignas forças que se erguem na escuridão -, ela não sabe como dosar o ritmo das cenas e opta por fórmulas frenéticas simplórias demais para fazer jus ao que a série já nos mostrou. Tic e Leti compreendem a metafísica e o poder por trás do Livro de Nomes com facilidade incrível e numa ocasionalidade infeliz e destoante – isso sem falar no papel pífio que ambos têm na luta contra o feitiço de Christina (Abbey Lee).

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Nota-se que tanto a criatividade narrativa quanto o comprometimento performático parecem arrastados – algo que não deveria acontecer, ainda mais depois de duas iterações irretocáveis. Lee e Smollett parecem as únicas a estarem dispostas a entregar um último sopro de vida (mais literalmente do que o imaginado) antes de morrerem na praia, eventualmente carregando o restante do elenco consigo. Majors, por sua vez, fica apagado em meio a rendições titânicas que insurgem no horizonte e, diferente dos caminhos tour-de-force que atravessou, permanece numa sóbria linearidade que transforma seu sacrifício em uma reviravolta maçante e longe de causar qualquer comoção aparente – aliás, a revelação da morte de Ruby (Wunmi Mosaku) e o embate entre Christina e Leti é bem mais aterrador e envolvente que o ritual do terceiro ato.

De certo modo, o season finale mostra-se bem diferente dos outros – e isso não necessariamente é uma coisa, visto que as partes são maiores que o todo, e a justaposição entre fragmentos tão explosivos se funde em uma maquinaria desengonçada e frustrante. Afinal, o potencial está ali; cabia a Green e ao diretor Nelson McCormick, um veterano do terror e do suspense, a cuidar para que a resolução fosse, no mínimo, epopeica. Talvez essas altas expectativas também tenham contribuído para uma recepção morna do último capítulo, mas não o suficiente para explicarem tantos deslizes convulsionais que se espalharam profusamente ao longo de mais de uma hora. É claro que, equívocos à parte, certos personagens encontram seu final de maneira digna – seja na morte, como Ruby, seja numa psicótica reinvenção, como a traumatizada Diana (Jada Harris).



Lovecraft Countryatira às cegas em sua última jornada em uma simplificada e mercadológica versão do que realmente poderia ser – e buscando pela zona de conforto em vez de arriscar-se da maneira que fizera desde o episódio piloto. “Full Circle” pode até honrar o título que promove para os fãs, mas abrindo mão de sua originalidade e, no final das contas, rendendo-se à uma quase completa insatisfação (com poucas parcelas que se salvam).

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